Voltar  |  Home  |  Email
 
   
 

Sítio do Padre Inácio

ROTEIRO DE VISITA

Ao longo dos três primeiros séculos de colonização, o planalto paulista foi ocupado por grandes fazendas de características muito especiais.
Praticamente auto suficientes, muito pouco do que produziam era destinado a Metrópole portuguesa, seus proprietários foram direta ou indiretamente os responsáveis pela extensão das fronteiras dos territórios do interior, que esquadrinhavam em busca de pedras e metais preciosos e do escravo indígena.
As necessidades domésticas exigiam que as instalações dessas fazendas fossem edificadas nas proximidades de uma aguarda, à meia encosta, porém as grossas paredes de barro socado deveriam ser levantadas em terrenos planos; isso explica porque, nessa região de topografia mais acidentada, os seus construtores eram obrigados e situá-las no alto dos morros, onde os aclives são mais suaves.
Você está diante da sede de um desses estabelecimentos rurais, conhecidos como "casas bandeiristas", denominado Sítio do Padre Ignácio.
Certamente o conjunto original era composto pela sede e por outras edificações de apoio, de construção mais singela, destinadas ao abrigo dos escravos, ferramentas e animais e ao depósito e beneficiamento dos produtos escolhidos.
Dessas outras construções não sobraram senão referências nos antigos documentos e as mós de seu velho moinho, que foram removidas para o gramado, em frente à casa.
As paredes de taipa de pilão, a austeridade da economia e a rígida estrutura familiar condicionaram a arquitetura solene e despojada que se produziu no período, de poucos e sombrios cômodos que lembram os ambientes conventuais, de grandes coberturas e de longos beirais que, ainda hoje, protegem das águas o barro das paredes, muito embora este exemplar apresente sua fachada principal guarnecida por cachorros e colunas inusitadamente esculpidos e o alpendre rematado por pranchões decorados com os mesmos motivos encontrados nas folhas de portas e janelas, cujo número, dimensões e balaústres bem refletem o grau de reclusão da família.
Nossa visita começa pelo alpendre, um dos espaços mais complexos e importantes do edifício, onde os estranhos à família eram recebidos, onde se administrava as atividades da fazenda, e de onde a escravaria e os agregados assistiam às missas rezadas na capela doméstica existente em sua extremidade esquerda. Sem comunicação direta com o interior da residência, no lado oposto, vamos encontrar o quarto de hóspedes.
Esses três ambientes compunham o espaço social da casa.
Os demais cômodos constituíam a parte intima da edificação. A grande sala era o ambiente principal e mais nobre, certamente o espaço de convívio e trabalho da esposa, filhos e escravos domésticos. Se você observar atentamente a estrutura da cobertura, notará que os caibros principais se encontram numa única peça circular de madeira. Para esta sala se voltam quatro compartimentos laterais, todos de mesmo tamanho e que tem como forro o piso do jirau.
Um deles, dividido por um tabique de madeira e com um óculo na parede voltada para o exterior, serviu como sacristã. Na porta que liga este ambiente à capela, através de pequenos rasgos, os fiéis se confessavam.
Ainda partindo da sala principal, um corredor dá acesso aos fundos da casa; ao lado de um cômodo menor, uma escada nos conduz até o grande jirau que funcionava como depósito, iluminado e ventilado por diminutas janelas.
Com certeza você notou a ausência do banheiro e da cozinha. Como não existisse água corrente, os moradores da residência utilizavam para a higiene pessoal o gomil e seu prato, bacias e "bacias de urinar".
Quanto à cozinha, não foram encontrados em nenhum dos compartimentos vestígios de fogão, lareira ou mesmo de sua fuligem. A documentação até agora conhecida sobre esse tipo de edificação esclarece que, em alguns casos, os alimentos eram preparados em pequenas construções isoladas, em outros, no alpendre posterior, quando a casa possuísse mais de um, ou ainda na sala, seguindo um antigo costume europeu.
O piso do pavimento térreo, atualmente de solo cimento, era de chão batido, como nas demais casas deste período, embora algumas delas apresentassem dormitórios assoalhados.
Distribuídas pelos cômodos, vamos encontrar algumas peças do reduzido mobiliário que guarnecia a casa: no alpendre, o grande banco e o cabide fixo à parede; na sala principal, uma mesa, dois armários e outro cabide de parede; e, num dos quartos, um velho catre. Foi tudo o que restou dos móveis e equipamentos originais.
Caso você tenha se interessado por esse tipo de edificação, poderá ainda visitar o Sítio do Mandú, aqui mesmo no município de Cotia; o Sítio Santo Antônio, em São Roque, à cerca de 40 Km de distância e as casas dos sítios do Butantã, Caxinguí, Tatuapé, Morrinhos e Jabaquara na cidade de São Paulo, a maior parte delas já restauradas e com programas de uso implantados.

AS PRIMEIRAS NOTÍCIAS

Talvez nunca se saiba exatamente em que medida a preservação desta casa se deveu a dificuldades financeiras ou à consciência das famílias de imigrantes que dela se tornaram proprietárias a partir de 1883;as informações disponíveis mostram que os Cremm e particularmente os Weishaupt zelaram pelo edifício utilizando-o como depósito e moradia. Afeitos ao uso do tijolo, empregaram largamente esse material em todas as reformas necessárias, substituindo as colunas arruinadas, protegendo das intempéries as bases das paredes externas e executando apoios, pisos e complementos.
Em 1940, quando o então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional teve conhecimento de sua existência, suas condições estruturais eram relativamente boas, embora a feição original de sua varanda fosse desconhecida e portanto sua reconstituição impraticável. No entanto, quatro anos depois, seriam localizadas, num artigo de Ricardo Severo, publicado na revista A Cigarra, em 1916, duas fotos da casa. Documentam uma visita realizada pelo então Prefeito da Capital, o Doutor Washington Luiz, e sua importância foi decisiva tanto para o tombamento, cujo processo se inicia em 1945, como para esclarecer as dúvidas que impediam a restauração do monumento.
Pesquisas ultimamente efetuadas revelaram novos e importantes dados sobre essa antiga edificação que pertenceu ao Sargento-mór Roque Soares Medella. Dentre os documentos agora descobertos, um inventário de 1803 assim descrevia a propriedade:
"Citio junto a freguezia e Rio da Cutia Com Cazas Grandes de taipa de Pilão a Sobradadas em Roda toda a madeira Serrada Cobertas de telhas Com Seis quartos Com Suas portas e Suas fixaduras Com hum Salão grande e duas portas e fixaduras baranda grande atijolada Com hum Oratório de Talha em hum Canto de baranda..."
Além de casa grande, mencionam-se outros edifícios que existiam à época, próximo a sede: "três moradas de Cazas Separadas tão bem Cobertas de telha Com terras valadas e quintal murado".

A RESTAURAÇÃO

As obras de recuperação do prédio, empreendidas nos anos 1947/1948, foram relativamente simples.
Exigiram a substituição das barras de tijolos que protegiam as bases das paredes por placas de concreto armado, a reconstituição de quase todo o revestimento das paredes, a revisão da estrutura e entelhamento da cobertura, do tabuado do jirau e dos conjuntos de portas e janelas. O alpendre e os ambientes internos - de chão batido - receberam piso se solo - cimento e a calçada de pedras, existente ao redor do prédio, foi recuperada.
As colunas e remates do alpendre puderam ser restaurados a partir dos fragmentos encontrados e das fotografias feitas por ocasião da visita do ex-Presidente.
No entanto, a porta da capela, que em 1916 já havia sido substituída por outra, menor, exigiu pesquisas e interpretação mais cuidadosas. Os únicos vestígios das esquadrias originais foram encontrados numa viga de madeira que, além de suportar o fechamento de pau a pique da porção superior da parede, também fazia às vezes de verga da antiga porta, denunciando sua largura. As folhas e demais remates tiveram por modelo as peças das outras esquadrias da casa.
Ao longo dos anos, sempre que necessário, é especialmente devido à inexistência de um programa de atividades permanentes, o monumento vem recebendo esporádicos serviços de conservação.

O MONUMENTO

A sede Do Sítio do Padre Ignácio é, entre todos os remanescentes das antigas casas senhoriais paulistas do ciclo bandeirista, os mais sofisticados, o exemplar clássico. É um projeto arquitetônico que se destaca em meio à singeleza e austeridade das demais casas que se tem notícia - fruto do isolamento, autonomia e independência no trato com a Metrópole portuguesa.
Não obstante, esses vínculos existiam e o Sargento-mór Roque Soares Medella era um dos seus prepostos na região. Sua origem, formação e experiência de vida, mesmo sujeita às marcantes características da sociedade paulista, tem muito a ver com as soluções particularíssimas adotadas nas construções da sede da sua fazenda em Cotia.
A organização dos espaços internos e o sistema construtivo adotado seguem rigorosamente os princípios e modelos empregados nas demais edificações senhoriais; os mesmos alpendres ladeados pela capela e pelo quarto de hóspedes, a grande sala central para onde se voltam os demais cômodos, as robustas paredes de taipa e as poucas diminutas esquadrias de portas e janelas. No entanto, o perfeito domínio sobre o sistema construtivo da taipa de pilão permitiu que o edifício ganhasse maior altura, conferindo-lhe um porte elegante, possibilitando ainda que internamente, fosse criado um grande jirau, cujo piso funciona como forro das salas laterais e posteriores. Ás folhas de portas e janelas, em geral muito simples receberam discretas almofadas decoradas. O grandioso espaço da sala e a solene personalidade dos demais ambientes são contraponto da decoração inusitada das colunas do alpendre e dos cachorros do beiral da fachada principal, que sugerem marcante influencia oriental. Até a estrutura do telhado apresenta requintes que revelam a maestria do seu artífice, como a deformação programada de algumas de suas peças que resultaram em concordância mais suaves nos caimentos da cobertura.
Toda essa sofisticação denuncia a personalidade de seu proprietário que nunca teria se sujeitado inteiramente à austeridade e parcimônia paulistas.
Por outro lado, as atividades religiosas de seu filho, o Padre Rafael Antônio de Barros, exigiram a realização de adaptações e ajustes na capela, por imposição do Breve Papau de 1757 - o que explica a grade divisória de madeira e o óculo existente no ambiente contíguo que passou a ter função de sacristia.

A OCUPAÇÃO DO TERRITÓRIO PAULISTA

A ocupação do território brasileiro limitou-se à instalação de feitorias e pequenos núcleos ao longo da costa, para a defesa e apoio às primeiras tentativas de identificação e comercialização de produtos extraídos das matas ou obtidos de uma incipiente lavoura tropical.
Segue-se a divisão do território em Capitanias, que são entregues aos cuidados da iniciativa privada, medida que, apesar de resultar na criação da indústria açucareira no Nordeste, e na intensificação da exploração de madeiras de lei, não atinge o objetivo de atrair grandes investimentos, promover a defesa e ampliar o povoamento. A instalação do Governo Geral, em 1548, representa um esforço no sentido de organizar as atividades extrativas, consolidar a produção agrícola e estabelecer uma rede de Vilas e fortificações articulada e contínua. Ao lado das iniciativas oficiais, as Ordens Religiosas, especialmente a Companhia de Jesus, passam a cumprir importante papel, promovendo o aculturamento do indígena e sua incorporação ao projeto português de colonização.
Sob o governo de Felipe II, Portugal se envolvendo nas disputas entre a Espanha e os ingleses, franceses e holandeses, o que provoca a ocupação de várias regiões do território brasileiro.
A distância e o fracasso das tentativas de implantação da agroindústria do açúcar na estreita e alagada planície costeira do Sul da colônia provocam a segregação e o abandono das poucas Vilas que aí se estabeleceram. Isolada, desassistida e sujeita ao assédio dos corsários, a população abandona o litoral e busca o planalto, onde estabelece uma sociedade eminentemente rural, voltada para uma produção agrícola de poucos excedentes, para a busca de metais e pedras preciosas e para o apresamento do indígena, uma vez que não acumulava recursos suficientes para a importação de escravos africanos.
Estes primeiros imigrantes portugueses mesclaram a sua cultura e os seus conhecimentos técnicos aos dos indígenas, criando hábitos e comportamentos próprios e uma excepcional capacidade de enfrentar a hostil paisagem do interior.
As primeiras famílias se estabelecem em fazendas, distribuídas numa grande região em torno de São Paulo, esvaziando o poder e a função das Vilas que se tornam a principalmente locais de encontro, por ocasião das festas religiosas ou quando da necessidade de se discutir assuntos de interesse comum.
As instituições oficiais refletem estas características, as Câmaras, por exemplo, se reuniram, por muito tempo, nas casas de seus membros. Mais do que isso, qualquer empreendimento oficial na região dependia do apoio material e humano destas grandes famílias.
Mesmo as reduções ou missões das Ordens Religiosas, onde eram agrupados e aculturados os indígenas, estavam fortemente subordinadas aos interesses dos colonos, que lhes cediam terras e os meios de sobrevivência; as mais distantes e autônomas, não raro, eram objeto do assédio das bandeiras de apresamento.

UM FIDALGO A SERVIÇO DO REI

Dentre os direitos usufruídos pela nobreza portuguesa, detinham os seus membros, por tradição, os altos cargos da Administração, da Justiça e da Defesa do Reino - privilégio que se estendeu, depois das grandes descobertas, aos Domínios Ultramarinos.
Roque Soares Medella foi um desses fidalgos que, no Brasil, gozou dessa prerrogativa. Nascido na Vila do Conde, pouco ao Norte da cidade do Porto. Província do Moinho, era filho de Luiz Soares de Anvers, e de Benta de Medella. Ocupou vários cargos na Administração da Colônia. Principalmente na Vila de Nossa Senhora do Carmo, aonde foi enviado para auxiliar na fiscalização da extração e transporte do ouro e, já na condição de Capitão de Ordenanças, arremata a cobrança dos Dízimos Reais pela avultada quantia de mais de onze arrobas do nobre metal. Notabilizou-se quando da sublevação havida contra o Ouvidor Geral Manuel da Costa Amorim, mandando prender "com grande risco de sua vida, os cabeças dela, sendo-lhe necessário puxar por todos os seus negros, para guarda de sua pessoa".
De retorno a São Paulo, desempenha outras funções no Senado da Câmara antes de ser nomeado Sargento-mór da comarca da Capital. E, pouco antes de falecer, foi-lhe confiado o ambicionado posto de Guarda-mór das Minas, por provisão de 7 de junho de 1740.
Foi, em sua época, "pessoa das mais ricas e afazendadas" da Capitania de São Paulo. Casou-se com Dona Anna de Barros, da família Veiros, de conhecida nobreza reinól, e natural da freguesia de N. Sra. do Montesserrat da Cotia, aonde veio a se estabelecer com grande escravaria. Anos depois (1723), requer ao Capitão General da Capitania a concessão das terras onde havia se estabelecido e "edificado habitação" - a casa-grande hoje conhecida pela denominação Sítio do Padre Ignácio.

O FILHO CAÇULA: RAFAEL ANTONIO DE BARROS

A casa-grande construída no início do século XVIII pelo Sargento-mór Roque Soares Medella e sua mulher Anna de Barros foram, entre os "bens de raiz" por eles amealhados, a principal habitação do ilustre casal, a sede do estabelecimento.
Possuíam outros edifícios de morada, tanto nas terras da fazenda como no pequeno núcleo urbano de Cotia e até mesmo na Capital, porém nenhum parece ter merecido o cuidado e o requinte de soluções adotadas na fatura desta residência.
Com a morte do marido em 1741 e o casamento dos filhos, Anna permanece na casa-grande em companhia do filho caçula Rafael Antonio que, ao contrário dos irmãos Ignácio e Francisco, resolve não seguir a carreira militar. Coube-lhe a responsabilidade pelos trabalhos da fazenda, embora gostasse especialmente de ocupar-se com as leituras e o labor intelectual.
Depois do falecimento de sua mão, Rafael torna-se proprietário não só de boa porção das terras e de grande escravaria, como também do edifício principal da fazenda.
Casando, de certo os irmãos terão recebido bens e incorporado outros - o que explique o aparente favorecimento de Rafael na divisão do espólio. Mais tarde, anexará ainda a seu patrimônio as terras de Sorocamirim, que obtém em sesmaria em 1767.
Embora dedicasse boa parte de seu tempo à administração da fazenda, não deixava de vir a capital, especialmente para participar das práticas religiosas realizadas na Capela da Ordem Terceira de São Francisco, da qual era Irmão.
Aos 30 anos de idade, decide-se pelo sacerdócio - função mais apropriada às suas inclinações intelectuais e, na época, escoadouro natural a indivíduos, como ele, oriundo de famílias abastadas e nobres.

UM PRIVILÉGIO MUITO ESPECIAL

Rafael Antonio de Barros ordena-se em 1756.
Decorrido, todavia, um ano apenas, vale-se da proeminência de sua origem para obter, do Papa Benedito XIV, um Breve que lhe concede permissão para "Celebrar o Sacra-Santo Sacrifício da Missa nos oratórios privados das Casas que existem de sua habitação - ou seja, no oratório que existia na capela situada ao fundo do alpendre da sede da fazenda e no da casa urbana que possuía no povoado de Cotia.
Podia ministrar uma só missa por dia e somente aos familiares. Mas, quando celebrada no "oratório rural", podiam outras pessoas ouvi-la na qualidade de hóspedes - artifício que lhe permitiria contratar missas, justificadas pela distância que as separava da Matriz.
As diligências feitas pela Câmara Episcopal, em 1758, atestaram que o oratório da casa-grande estava "separado das demais dependências e desimpedido de todos os usos domésticos" e continha os paramentos "das quatro Cores de que usa a Igreja", estando pois "devidamente ornado e com a decência para nele se poder Celebrar".
Documentos posteriores revelam a riqueza de seu acervo: o Oratório era de madeira entelhada, com "Altar e frontal prateado". A imagem de Nª Srª do Rosário, ao centro, com sua coroa de prata, brincos e rosário de ouro, era ladeada pela Senhora da Conceição com seu "Manto de Seda carmesim forrado de azul", pela Nª Srª da Penha e pelo Senhor crucificado, com resplendor de prata. Castiçais, galhetas, calix, tudo de prata, completavam a ornamentação. Nas paredes, gravuras de São Francisco e da Srª do Amparo com o Menino. E, no cômodo ao lado que servia de sacristia, ainda outra Conceição com seu manto de seda. O Oratório Particular era um privilégio vitalício, porém não hereditário.
A pessoa agraciada tinha o seu nome expressamente declarado no Breve Papal. Regido pelas Leis Canônicas, não era, todavia um benefício concedido exclusivamente aos membros da Igreja. Podiam os leigos também pleiteá-lo; cabendo às autoridades eclesiásticas concedê-lo ou não.

PADRE RAFAEL - O PATRIARCA

Com o passar dos anos, falecendo os irmãos, surge a necessidade de amparar as viúvas e as sobrinhas ainda solteiras, bem como outros parentes, por vezes numerosos, que viviam "agregados" em suas casas. Padre Rafael, além da assistência religiosa habitual, é reclamado também a socorrer este ou aquele familiar mais necessitado. Afinal, era dono de terras e de uma escravaria que lhe permitiam "viver abastadamente".
Converte-se assim, no Patriarca da família.
A produção de suas propriedades, embora não fosse nada excepcional - afora as 20 éguas e as 30 vacas de ventre e suas crias que reunira nos campos de Sorocamirim, colhia em sua fazenda do "Bairro Sobre o rio de Cutia" muito milho e ainda "amendoim, feijão, Cevada e algodão q' manda fiar e tecer" -, era todavia suficiente para "o Seu passar e conservação de sua pessoa e numerosa família".
Embora sempre tivesse percorrido, à cavalo, a estrada de quase uma légua até a freguesia de Cotia, a idade e os afazeres cotidianos da fazenda acabam por afastá-lo mais e mais das funções que lhe competiam desempenhar na Matriz. No oratório de sua casa, junto à imagem da Senhora do Rosário, a santa de sua devoção, procura compensar as faltas para o vigário José Manoel d'Oliveira, assistindo também aos moradores da região.
Faleceu em 1803, aos 79 anos de idade.
Deixou como herdeira da maior parte de seus bens uma sobrinha e afilhada que tinha o mesmo nome de sua mãe - a filha mais velha de seu irmão Francisco e de Luiza Leme de Barros.

ANNA E SEU PRIMO, O PADRE IGNÁCIO

Desse modo, Anna de Barros Leme torna-se proprietária da casa-grande construída cerca de um século antes por seu avô, o Sargento-mór Roque Soares Medella, e alça a uma condição de vida razoável, suficiente porém para ainda manter o estilo de vida senhorial, e continuar zelando pelo nome e tradições da família; cultivar enfim, como se dizia à época, hábitos próprios dos que "vivem a Ley da Nobreza".
Possuía poucos escravos; mesmo assim conseguia colher bastante milho e feijão que, em parte, vendia.
Os censos da população de Cotia registram, entre os agregados da fazenda, no bairro da Graça, o seu primo Ignácio Francisco do Amaral que, viúvo, com ela vivia desde 1798; comparecendo também ao longo dos anos, as filhas Rita, Anna Francisca e Luiza Maria e o filho varão, o Capitão Joze Soares de Camargo.
Ignácio torna-se padre em 1810, aos cinqüenta e sete anos de idade. Três anos depois, Anna obtém para si e seus filhos, um Breve Apostólico que os autoriza a ter Oratório Particular em sua "Fazenda de N. Sra. do Rozário".
Padre Ignácio passa a realizar os ofícios religiosos, dando prosseguimento a uma prática aí iniciada meio século antes pelo Padre Rafael Antonio de Barros.
Anna morre em 1838. Ignácio em 1846, aos 94 anos de idade.
A fazenda ainda permanecerá em posse da família por cerca de 45 anos, concentrando-se porém nas mãos do Alferes Francisco Rodrigues César, casado com Maria do Ó, neta de Dona Anna de Barros Leme, o qual adquire dos demais herdeiros parte do que lhes coube na divisão dos bens por ela deixados.
Em 1883, a sede da antiga fazenda setecentista será finalmente vendida com uma pequena porção de terreno a imigrantes alemães.
Contudo, na memória popular, a casa-grande, permaneceria associada à figura do Padre Ignácio.

GLOSSÁRIO

Aclive: ladeira, inclinação do terreno.
Almofadas: relevos aplicados aos tabuados de folhas de portas e janelas com função decorativa.
Beiral: parte do telhado que ultrapassa a prumada das paredes externas de um edifício, protegendo-as das águas das chuvas.
Breve Papal: documento em que o Papa se manifesta sobre uma consulta ou pedido de caráter particular.
Cachorros: peças de madeira ou pedra que sustentam os beirais das coberturas ou balcões de uma fachada.
Gomil: jarro de boca estreita, de metal ou cerâmica.
Jirau: plataforma executada à meia altura de um cômodo, para proteger alimentos ou como depósito.
Mós: pedras circulares utilizadas nos moinhos, entre as quais se moem os grãos.
Óculo: abertura circular para ventilação e iluminação interna.
Solo cimento: argamassa de terra e cimento que, umidecidos e compactados, pode alcançar grande resistência.
Tabique: parede delgada que serve para dividir um compartimento.
Taipa de pilão: sistema construtivo introduzido na Europa pelos árabes, no qual as paredes e muros eram feitos apiloando-se terra úmida dentro de grandes formas de madeira.
Verga: peça horizontal do requadro de uma porta que se apóia sobre os batentes laterais.

IPHAN


1947 - Aspectos da remoção do encamisamento de tijolos e da execução de placas de concreto armado.


1942 - Sede do Sítio do Mandú, em Cotia

1942 - Fachada antes das obras de restauração. Notar as colunas de tijolos. Abaixo: fragmentos das colunas de madeira primitivas.


Aspectos da edificação tal como foi encontrada.


16/1948 - Foto da segunda visita do ex-Presidente Washington Luiz ao monumento ao se concluir sua restauração em 1948. Levantamento executado pelo arquiteto Victor Dubugras.


1948 - Aspecto da estrutura da cobertura a partir do jirau: e comodo contíguo à capela que servia como sacristia da mesma.


1948 - Detalhe do cachorro decorado dos cunhais da fachada e aspecto da sala principal da casa-grande do sítio do Padre Inácio


1948 - Detalhe da viga que possibilitou a reconstituição da porta da capela e aspecto de um dos móveis antigos que ainda guarneciam a residência.


 
   

Idealizado por:
CRISTINA OKA & AFONSO ROPERTO
Última atualização: Thursday, 7 February, 2002