| Kenji Kira |
| K | enji Kira. Kira. Muitos já ouviram falar, vagamente se lembram de algumas coisas. Foi o único prefeito japonês de Cotia. Alguns falam, foi cassado, alguém cochicha baixinho, até torturado parece que foi, era época da ditadura militar. Poucos ou quase ninguém sabe realmente o que aconteceu com Kira-san. A história que é contada pelos vencedores, essa que aprendemos nas escolas, nem sempre encerra a verdade dos fatos. Muitas vezes o subterrâneo, o bastidor da realidade nos contam coisas que são a verdadeira história de uma época. Começamos conversando sobre lixo. Kira comenta sobre a coleta de lixo seletiva realizada na Granja que por razões principalmente de caráter político gerencial não deu pra fazer. "Em Cotia já existe inclusive uma indústria de reciclagem de plástico no km 21 (Cotiplás), transforma-os em grânulos, acho que reciclagem é um negocião". Kenji Kira tem 64 anos. Nasceu em Cotia no dia 15 de novembro de 1932. Dia da proclamação da República. Ano de uma revolução constitucionalista (em que os paulistas queriam se separar do resto do país). Quantas emanações planetárias libertárias incindiram sobre esse escorpiniano, nativo de uma Cotia essencialmente agrícola, construída com a força do trabalho de imigrantes, principalmente japoneses, muitos recém-alforriados do contrato de 4 - 5 anos de empreiteiras que os traziam do Japão, onde pagavam pela viagem de navio com trabalho em condições degradantes. Alguns morriam de maleita, outros até debilitados pela subnutrição. O que ganhavam mal pagava a comida, e muitas vezes, findo o contrato, pediam demissão, mas os fazendeiros não queriam que os colonos japoneses saíssem, e muitos tinham que fugir para algum local e tentar começar a vida do nada, contando apenas com sua força de trabalho. Essa geração foi a do pai de Kira, Tomekiti Kira que apostou em terras brasileiras, que nasceu no Japão e veio ao Brasil com 12 ou 13 anos, no segundo navio, Kasato Maru. Era proveniente da cidade de Ino, província de Koty. Veio adolescente e aprendeu a falar a difícil língua da terra, o português, com o capataz na fazenda de café, na região de Ribeirão Preto, Guatapará. No meio da roça plantava verdura, para conseguir 1 casal de galinhas para comprar, andava uma noite inteira. Findo o contrato o patrão não liberava, não pagava o que devia, o pai de Kira fugiu e pegou o trem que ia até Itapevi. Veio até Cotia, onde acabou ficando. Era 1921, 1922, a estrada que cortava Cotia era a Estrada Velha, Kira pai produziu batata e ia vender no mercado de Pinheiros. Despachava a carga às 17 horas de um dia, e no outro dia pegava o cavalo às 4 da manhã rumo ao mercado para negociar a mercadoria. Foi Kira pai, com Shimomoto, que trabalhou para montar cooperativa, CAC no Moinho Velho; depois saiu. "Meu pai se estivesse vivo sentiria muito ver o que aconteceu com a CAC, os cooperados radicados na Grande São Paulo não tiveram responsabilidade pelo que aconteceu, a derrocada começou no Paraná, onde se produzia algodão, fibra e caroço. Dois diretores de lá começaram montar indústria de óleo (Pacaembú) e tecelagem. Foi ficando difícil, a CAC entrando num campo que não entendia. Aconteceu com a CAC que nem na política, diretor era eleito já vinculado, com os compromissos pré-estabelecidos. Acabou ali o prestígio da CAC como revendedora especial de produtos, virou cabide de emprego, os impostos eram altos. (Você vê meu filho, fez odonto em São Paulo, estudava com o filho de um deputado que recebia mesada do pai assim: era assessor, o que ganhava metade pro pai, metade pro filho". Assim aparecem "the ghosts"). É, o Brasil passa uma fase difícil, qualquer reforma necessária na área governamental depende dos políticos, aí, já viu..." Isso fala o filho, Kenji Kira, cotiano da terra. Lembra-se do difícil período de 1932 a 1945, quando foram muito agredidos no Brasil mesmo após a guerra. Falou do Shindo rem-mei - os próprios habitantes da colônia, que moravam no Brasil, não acreditavam que o Japão perdeu a guerra e agrediam quem falasse sobre isso; eram fanáticos adoradores do Império do Sol Nascente, fiéis ao Imperador. Houve também muita represália dos brasileiros contra os japoneses por causa da guerra. Kenji lembra de imagens da infância com o assoalho de sua casa sendo arrancado por soldados, um deles levou um carro do pai "na maior". Kira filho fala de Cotia, acha que têm uma bonita história, começa com briga no páteo do Colégio dos Pires contra os Camargos. Kira foi o único prefeito japonês desta cidade tão nipônica que é Cotia. Foi eleito vereador em 1960. Em 1964, ainda na Arena, foi vice-prefeito. Naquela época o salário público era irrisório, a Câmara de Vereadores era na casa ao lado da atual, onde hoje é o despachante. Em 1968 foi eleito prefeito pelo PSP, bem na segunda fase da ditadura militar de 1968-1972. Passou uns bons percalços, que todo bem intencionado na política, de peito aberto, costuma passar. Fez escola de aeronáutica, formou-se em Administração Pública, pela Fundação Getúlio Vargas. Kira, esse prefeito de vanguarda elaborou as custas do próprio bolso, em pleno 1971, um plano diretor de desenvolvimento integrado, custeando a vinda de técnicos, com grande apoio do sr. João Soares, do São Fernando Golf Club. Esse plano previa planejamento e revisão efetiva das questões como educação, vias de acesso, transporte e saúde. Os vereadores de época não entenderam nada, e não aprovaram o projeto. Amador Aguiar editou um livro sobre Kira prefeito. Numa época em que os japoneses da zona rural, confinados, isolados da sociedade brasileira, tinham os mais velhos dominando a família com pulso firme, deixando os filhos retraídos, Tomekiti Kira era diferente. No campo agrícola foi um baluarte, fez a estação experimental na Fazenda de Itapetininga. Mantinha em Pinheiros uma máquina de beneficiar arroz, tinha a Nipaku Bussanka Bushiki Gaisha, fazia quirera, fubá. Criou gado, produziu leite. "Meu pai era um paizão - diz Kenji Kira - sempre me incentivou e apoiou. Não gostava de caçar nem de pescar, gostava só de ler, doamos seus livros para Biblioteca em Itapetininga e da escola da Munck, comprava livros por correspondência do Japão. Falava, além do japonês estudado por correspondência, inglês e alemão". O primeiro intercâmbio cultural de Cotia com Koty-Ken surgiu quando o governador de Koty-Ken veio visitar o Brasil em 1968, passando por São Paulo e estendendo a visita à Cotia, para visitar os Kira, pois era primo do pai. Veio nesta a visita também o prefeito da cidade de Ino e um vereador. Houve uma recepção na casa dos Kira, para uns 150/ 200 japoneses de Cotia, que eram daquela província, prestigiar o governador e ouvir notícias de lá, ver fotos. Houve discurso do presidente da CAC, o governador de Koty falou sobre possiblidade de mais intercâmbio, Cotia-Koty. Prefeito de Ino referendou no discurso, aproveitando também a presença de um vereador de lá que estava presente, sugerindo ao colega japonês que apresentasse a mensagem à Câmara. O Prefeito Ivo fez idem, Kira era vice na época e foi no Japão assinar o Tratado Cultural, Brasil-Japão, custeado por dinheiro dele mesmo, Kenji Kira. Kira, e a praça japonesa? "O duro é que morto não fala. O fato é que saiu uma soma de lá (U$50,000) e deu entrada na prefeitura aqui outra (U$2,500). Isso foi em 1970. Os que foram buscar os dinheiros já estão falecidos, Nishimura de 78 anos e o outro Takezaki. Morreram do coração. Com o que deu entada, prefeito Ivo começou a fazer a praça, prefeito Carmelino entrou e parou a obra. Prefeito Ivo entrou de novo e recomeçou. Depois parou de novo. O pessoal do Nihon não se conformava, Kenji Kira falava de estradas com 100 metros no Brasil, e faziam aquela praça pequenininha. Voltamos a conversa para a cidade de Ino, produtora de um belo papel artesanal. Sabiam que já veio para o Brasil uma indústria de papel de Ino? Era a Papillon, começou em Piedade, com pouco recurso, a proposta era em vez de fabricar o papel a partir de madeira, eles queriam aproveitar as aparas. Tinham que comprar a pasta mecânica, preparar, clarear, já dominavam o mercado os grandes cartéis do papel. Houve a experiência com uma família de trazer pra cá o mitsubá, arbusto que dá uma fibra excelente para produção de papel, mas não houve aclimatação. A firma fechou. O que aconteceu com o Kira prefeito. Existia racismo, houve um desmonte de interesses, uma armadilha dos vereadores da Câmara de Cotia, um processo administrativo transformado em processo crime, um prefeito foi levado ao Dops e obrigado a assinar papéis que não deveria assinar (talvez dali as marcas da perna que um amigo confidenciou). Kira iniciou o mandato de prefeito, no meio do caminho foi cassado e afastado por 60 dias, recorreu ao Supremo Tribunal, onde foi absolvido por sentença de 10 a 0. Voltou e cumpriu o seu mandato até o fim. "Jurei pro meu pai que nunca mais ia me meter na política, quase sujei a honra da colônia japonesa. Não quero mais saber disso, não tenho mais idade pra fazer esse negócio, mas eu tenho idéias, isso eu posso ajudar". |
Texto de Cristina Oka - extraido do Jornal Correio d'Oeste |