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Coluna Espósito Tavares

 

O Edifício Palace II

 

A pretensão chega ao cúmulo de nos fazer pensar que tudo já vimos neste mundo e quase nada mais há que nos faça acrescentar (acho que já ouvi esta frase de mim mesmo). Principalmente quando abrimos e lemos as páginas de qualquer jornal: as desgraças nos parecem pouco íntimas e tão distantes, que fazem nos acostumarmos com a pequena pontada no peito, que, fugaz, perde-se na memória, antes mesmo de doer.

Diante da fatalidade do desmoronamento do edifício Palace II, no Rio de Janeiro, confesso, não foi muito diferente. Aliás, todos os dias vejo e leio sobre os desabrigados, favelados, homelesses, moradores de rua, moradores de cortiços, puteiros de alto e baixo luxo, abandonados de toda a sorte, degradados, poluídos, descamisados, desdentados. Enfim, amiúde nos deparamos com isso e muito mais. Tudo, nada mais é do que representação da pobreza. E com ela estamos acostumados... Mal sabia que era apenas o início da análise.

Voltando ao assunto, quando da tragédia do Palace II, fiquei chocado, indignado com a incompetência, irresponsabilidade e impunidade - a história recente me faz possuído deste preconceito, pois nem sei se haverá impunidade - mas, novamente confesso, fiquei com menos dó dos desabrigados do Palace II, se puder haver comparação, do que dos desabrigados da eterna pobreza. Justifico como um sentimento normal porque acho que estes têm menores condições de resolver o problema do que aqueles.

Mas sempre aprendemos. Na tevê, vi algumas cenas que, no princípio, me pareceram piegas mas que, aos poucos, foram me deixando incomodado. Logo depois da implosão do prédio, havia muitas pessoas revirando os escombros à procura de seus passados (sic). Eu já havia presenciado cenas muito mais comuns de pessoas revirando o lixo dos aterros sanitários, lembram? Mas no lixo, as pessoas procuravam seu futuro. Essas duas cenas foram se revirando na minha mente, ao ponto de me obrigar a pensar e perceber o paralelo entre as duas condições. Passado e futuro se unem como duas retas paralelas que se encontram no infinito. Desculpem o lugar comum.

Na cena seguinte, vejo pessoas solidárias entregando sapatos, roupas, móveis, etc. doados aos desabrigados. Esta cena, nem precisa de exemplo, é muito comum. Mas coisas ainda por aparecer iriam completar meu incômodo.

Primeiro, um rapaz que, na entrevista, declarou ter sido morador de rua durante 4 ou 5 anos, dizia saber o quanto é duro ficar sem ter onde morar. "Trabalhava"(emprego?) como flanelinha nos cruzamentos da zona sul do Rio e tirara um dia de solidariedade pelos desabrigados. A princípio, pareceu-me um tapa com luva de pelica na clase dominante mas, percebi a tempo, o sentimento era meu e não do rapaz. Mas percebi também que pobreza ou riqueza não são adjetivos de pessoas, mas apenas da condição das pessoas.

Depois, vi e ouvi uma mulher loura, dona de uma beleza classe média típica, dizer, aos prantos, que sempre doara o que pudera durante campanhas de solidariedade e que, agora, estava experimentando sapatos usados, doados por outros, para ter o que calçar. Foi uma facada no meu peito a imensa e sincera tristeza da mulher. Naquele momento, acho que pude sentir a agrura por que ela estava passando. (Neste momento que estou escrevendo, sinto de novo a aflição precordial). É muitíssimo difícil receber quando realmente há a carência. A loura (e eu?) percebemos isto só depois do ocorrido. Deu também para saber por que algumas pessoas doam em busca apenas da redenção de seus pecados, ou de um ticket de entrada para o paraíso ou, ainda, simplesmente para seu inconsciente dormir um pouco melhor. Doar e receber devem ser atos de muita consciência, pude descobrir...

Vivendo (lendo...) e aprendendo.

Lembrei, nos caminhos conturbados do incômodo, de muita coisa que ainda está por vir e redescobri que a tevê e os jornais podem nos endurecer, mas não nos fazem perder a ternura.

Esposito Tavares 4-3-97

 

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