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Coluna Espósito Tavares

American movie

Estou de volta. Depois de quase um ano afastado das páginas de Cotia do "Jornal Popular", recomeço com muitos prazeres neste "jornal virtual", o que acho muito apropriado porque sou também um escritor virtual. Ou até menos do que isto: sempre gostei de colocar no papel palavras que nasciam na minha cabeça, o que me torna, naturalmente, inferior a um verdadeiro escritor. E agora nem no papel está! De que materiais são feitas as páginas eletrônicas? Estou esperando resposta...

Justificativas dadas e frustrações reveladas, recomeço falando de cinema. Claro, vou falar um pouco do "Titanic" (pronuncia-se "taiténic"!?). É um dos principais exemplos de filmes tipicamente americanos, digo, holliwoodianos, da década. Você conhece alguém com mais cara de americano que o Robert Redford? Você também terá dificuldade em achar um filme tão americano quanto o Titanic. Em todos os sentidos.

Nos efeitos especiais, especialidade de holliwood (desculpem a redundância), é brilhante. Até didático, pois explica direitinho - num computador gráfico, lógico - o como e o porquê do acidente com o navio com detalhes impressionantes. Parece o Globo Repórter num documentário sobre o assunto (se é que este programa já não aconteceu, vai aqui uma ótima idéia para os produtores globais). Resta saber se, com o poderosíssimo marketing, o filme não passado a ser mais importante na história do mundo do que o próprio acidente de 1912. E o Globo Repórter vai mesmo é fazer o documentário do making off do Titanic. Diga-se de passagem, é de admirar o poder que os filmes americanos têm de passar para a história. Talvez esta seja a verdadeira vocação americana.

Porém algumas coisas no filme chegam a irritar. Entre elas a tal da unanimidade. Nosso querido Nelson Rodrigues dizia que é burrice, então eu copio e digo que a quase unanimidade, de hoje, é quase burra. Os personagens são sempre totalmente maus ou totalmente bons. Não é um defeito somente deste filme americano. Mas repare que ao homem mau (Billy Zane) só falta comer a criancinha (com garfo e faca), mas como seria uma cena fortíssima, ele apenas se escuda numa frágil representante da mais pura infância, com cara de querubim, para salvar-se do naufrágio. E desde o começo esta personagem vai-se mostrando repugnante, rica e pedante.

A bondade também é estereotipada. A mulher boa (Kate Winslet) tem muitas virtudes. É meio maluquinha, de oposição, excêntrica, e não gosta de dinheiro, quer dizer, usa a grana para as coisas boas e não para as más, se é que existe alguma lógica americana nisto. Mas ele ama profundamente um jovem artista (Leonardo DiCapri), pobre, e por isto carregado de bondade, o que, nem precisaria dizer, preenche a lacuna da alma de qualquer mulher do planeta. Vale dizer que o cara é uma beleza de lindo. E é livre. Aquela velha liberdade azul e desbotada de um jean.

E por último a moral da história: junto com a tragédia real de mais de 1500 náufragos mortos afoga-se também o verdadeiro motivo das pesquisas em alto mar, ou seja, aquilo que tem mais valor em dólar. Fato que redime as pessoas, as mortas e as vivas. É muito, não é?

Para salvar um pouco a minha pele e me distanciar do crítico de arte comum que desce o pau só por descer, quero dizer, com muita sinceridade, que todos devem assistir ao Titanic, no cinema. No vídeo só pela segunda, terceira ou mais vezes. É um filme bom (direção de James Cameron) feito para tela grande, com som digital, realmente muito bem filmado. Os atores são belos e competentes. Nas 3 horas de duração não dá vontade nem de fazer xixi, mas dá vontade de chorar. Agora, comparar com "...E o vento levou", como muitos fizeram, não dá!. Pera aí, épico por épico, americano por americano, sou mais "O paciente inglês" e "Forest Gump".

Espósito Tavares 19-2-98

PS: obrigado Bel pela revisão maravilhosa.

(BEL - Boa Escrita Ltda.)

VOLTA

 


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