Crônica: |
| Cristina Oka |
Tinham vários fantasmas rondando a
noite movimentada de Paraty. Trazidos pelas cheias das
marés, vinham visitar os sonos de turistas incautos, e
as vezes até os pegavam assim meio acordados, rangendo
pelas madeiras da casa antiga, com leves batidas furtivas
nas portas do sono, e depois inundando nossos sonhos com
imagens históricas pungentes, doloridas, de uma
religiosidade massacrante, uma moral rígida cheia de
açoites uivando através dos tempos, entorpecida a
atmosfera pelo álcool evaporado dos engenhos de outras
épocas. Perto do cais, do mercado de frutas e peixes atual, onde existem entre os pés de moleques, esses bloquinhos de pedras de ruas criadoras de siris com a entrada e saída das marés, onde se vislumbra a igreja dos Pardos, onde negros sofridos aparecem em sonhos sovados, cansados,suados,doentes, presos por correntes clamando por clemência e fazendo uma condenação a quem o escraviza????
Quem são esses personagens que povoam nosso sonho, de passagem turista por esta terra de Paraty ???? Tão perto do mar, que traz brisas da imensidão do oceano, que fazem menear nossos cabelos e cabeças pendendo nosso olhar para o interior misterioso da Serra, úmida selva de rios e nascentes e pedras e vegetação e trilhas muitas delas procurando a riqueza interior desde tempos imemoriais, uma ligação preciosa com o que há dentro, à partir desta terra de Paraty. |
Por que a
menininha chora o sono agitado no seio da mãe, esse
monstro escuro ameaçador, sonho que transpassa a
realidade e faz a pequena acordar atormentada??? Piratas
do dormir, vagando pelos corredores de alguns hotéis,
pousadas e prédios por onde estiveram um dia. Agora
saqueando o estoque onírico de turistas acidentais.
Paraty, tão encantadoramente e assustadoramente histórica. Trarei meus sonhos para passear novamente por essas terras. |
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