Mamonas assassinados, the dream is over mais uma vez


Não me sai da cabeça, nós todos os assassinamos de certa maneira, com um pouco da nossa morbidez, adoramos ver detalhes pomposos da morte, o cortejo, a nobreza do preto, a multidão chorando em coro, como num grande drama ao ar livre em que todos nós somos ao mesmo tempo atores e espectadores.

Mamonas este ano, há dois anos foi o Senna, nossa primeira grande sensação de perda da chance de ser feliz, neste fim de século, no Brasil, país de terceiro mundo com complexo de primeiro. A morte de pompas foi a do nosso rei da F-1, Senna, também ele morreu assim tão longe, lá na Itália imolado na curva certeira da morte, tão rápido, quantos segundos, 6 ou 10 e o carro faz o ploft no muro, aquele bonequinho de cabeça mole sendo retirado do carro sob os olhares incrédulos e marejantes de milhões de pessoas, via satélite, do ângulo do helicóptero. Os Mamonas não, logo ali, na Cantareira, assim um conjunto de coincidências e erros tão banais, conjecturas diversas sobre a pane dos instrumentos, a arremetida errada, talvez o Dinho no lugar do co-piloto, quantos segundos até o ploft, espatifados na serra, talvez no máximo 15 segundos calcularam especialistas, os plantões extraordinários dando correr aos fatos, o resgate noturno dificultado, no outro dia ao amanhacer pedaços sendo achados aqui e acolá, as tevês, os fãs, os donos de casas noturnas, todos subiram a serra atrás das últimas recordações mamonísticas, quem sabe um pedaço da blusa ou um tênis, talvez uma parte da fuselagem do avião ou porquê não,o braço do Dinho?!...Eles que numa estratégia de marketing estavam se retirando de cena, mais uma vez ficaram superexpostos, para sempre.... O macabro nos atrai irresistivelmente, fazia parte da irreverência deste grupo Mamonas, uma morte marcada pelo negro humor do destino, se lembrarmos e juntarmos os detalhes da fixação dos meninos com aviões e suas brincadeitras sobre o assunto.Nunca estivemos tão próximos desses ídolos até o fim, isso porquê mesmo que não tivéssemos comprado seu único disco de vendagem astronômica, nossos filhos o fizeram e cantarolavam por aqui e ali as músicas "depravadas" no dizer de muitos, apenas molecagens exercidas sob a luz dos holofotes; acabamos vendo no posterior a tão dolorida transição para as crianças ,sob a forma de fotos coloridas nos noticiosos populares de pedaços de lembranças dos ídolos mutilados. Sob a luz dos holofotes tudo fica amplificado, um gesto, uma palavra, uma figura pode parecer assim tão grande mesmo que seja ridiculamente pequena na vida banal. Não importa mais discutir se essas molecagens pegaram com sua gozação politicamente incorreta, preconceituosa e ao mesmo tempo tão despudorada( afinal só quem vive muito de perto com seus personagens poderia retratá-los com tanta ironia). O caldeirão étnico formado por uma banda de Guarulhos, um japonês cabelo rastafari, vocalista debochado e cheio de poses feito um jagger que era de família evangélica ,dois irmãos malucos assim assim Reolis e um tecladista de cabelo vermelho que tinha Rasec no nome, essa mistura caótica tão brasileira, pena que não deu tempo de mais alegria, a do gaúcho certeza que ia ser boa, talvez mais uma do japoneizo.. Os quinze minutos de glória são cada vez mais rápidos, terminam assim tão abruptamente, talvez seis ou quinze segundos no máximo da era atômica. Adeus Mamonas, saudades Senna, vocês escreveram capítulos importantes no inconsciente coletivo de nosso povo sofrido...

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