Guaracy: jornalista e poeta
Para marcar o mês que Cotia completa 144 anos de emancipação política, o Jornal Atuante ouviu o depoimento de um jornalista e poeta, autor de artigos e poesias considerados subversivos na década de 60, quando o Brasil vivia sob o regime militar. Juares Guaracy Jeannetti, vive desde 1968, quando sofreu um acidente automobilístico, em uma cadeira de rodas. Aliás, foi também nesse ano, junto com José Torrezani, que ele comprou o jornal A Tribuna, fundado por Vicente de Paula, Wladimir Torrezani e José Batista, que existe até hoje, apesar de ultimamente não estar circulando.
"Nós compramos A Tribuna, montamos a gráfica, e fizemos um jornal que foi considerado ainda no ano de 1968 como o melhor do interior, em termos de paginação e notícias. Brigamos muito naquela época, as palavras que eu escrevia as pessoas não entendiam, sofri muitos processos, tinha que explicar aos advogados o sentido das palavras. Cotia é muito atrasada. Mas ... interessante, jornalismo é como um vício, quando você começa não consegue parar."
Dono de um raciocínio brilhante, Guaracy, conta com humor as diferentes passagens de sua vida. "Eu fui coroinha no Largo do São Francisco onde fui criado, eu sou Católico Apostólico Romano, mas por causa de minhas palavras achavam que eu era contra a igreja. Sou contra construir igrejas com toda a ostentação para alguém que pregou a humildade, Jesus Cristo nasceu em uma manjedoura. E digo outra coisa, pecado, pecado mesmo é você não saber viver."
Nascido em 1941, Guaracy chegou a receber extrema unção e atestado de óbito quando sofreu o acidente. "A vida é um mistério, você não sabe o que vai acontecer. Eu acredito em um outro plano. Aqui é um vestibular da vida, aqui você aprende, a vida é outra coisa".
Durante a entrevista, Guaracy recitou vários poemas. Ele conta: "Um dia, estava lendo o jornal e acabei fazendo esta poesia Soldado carrega seu filho sem vida/ e as bombas não param no seu Vietnam/ Saigon atacada por homens sensíveis/... São muitas as armas usadas em terra/ no entanto nenhuma é de paz/ são rifles, granadas e tanques de guerra/ são gritos de horror que o horror sempre traz/ ... prá que foguete querendo ir a lua/ pra que coração poder ser trocado/ quem quer ir aos céus que saia na rua/ quem quer ficar vivo que seja escravo."
As poesias mais críticas, como essa, ele escreveu antes do acidente. Depois, ele passou a se preocupar mais com o lado mental e espiritual. "Escrevi algo assim depois do acidente: Agradeço a Deus pela vida que me deu/ pela coragem que um dia encontrei/ pelo privilégio de não ter nascido ateu/ e a certeza de que morto viverei/ agradeço pelas noites em estrelas/ .... agradeço enfim por deixar tantos anos/ ... pra que eu possa caminhar em um mundo insano/ com mil sonhos e ilusões de um poeta."