MANUEL REIS

Manuel Reis

EM TORNO DAS

NOVAS TECNOLOGIAS

E DA

NOVA ECONOMIA

 

As Duas Irmãs Siamesas No Contexto

Do Capitalismo Neoliberalista Pós-Moderno,

Ou Seja, Do ‘Capitalismo Para Todos’!...

 

 

 

A UTOPIA NECESSÁRIA

CAPAZ DE TORNAR POSSÍVEL

O QUE PARECE IMPOSSÍVEL

 

  

Índice

 

 

- Textos em exergo para enquadramento

1. - Contra o fatum e a Divindade Idolotrada do Establishment, o Rearmamento Ético e Moral

2. - Clonagem humana à vista!... As hipotecas do Teísmo...

3. - Os dois paradigmas da Modernidade, que se têm ignorado reciprocamente: o da Revolução científico-técnica e o da Revolução social

4. - Os Estados são chamados a assumir as suas responsabilidades para uma verdadeira mundialização; eles não se dissolvem nem se extinguem tão depressa, em suposto benefício da Sociedade Civil. Hão de ser, ainda, o baluarte de uma Ética antropológica consequente! – Reconstrua-se a vera Modernidade a partir da Kant.

5. - Ultrapassar é preciso, a conhecida controvérsia canônica entre Modernidade e Pós-Modernidade. As duas Revoluções modernas (a científico-técnica e a da economia capitalista) são uma só, porque nasceram e cresceram sob o mesmo signo prometeico da Conquista e do Poder-dominação d’abord.

6. - As magmas Questões decorrentes da Cultura do Poder-dominação d’abord têm de ser adequadamente equacionadas e resolvidas.

7. - A odisséia da Cultura da Liberdade Responsável e a difícil emergência do vero Projeto Socialista.

8. - A nova Ideologia ‘não-ideológica’ da Tecnociência e da Tecnocracia!... A Esquerda ou esquerdas calaram-se?!...

9. - Como se formou historicamente o soft fascismo sócio-tecnológico de hoje.

10. - O contemporâneo processo de globalização e os humanos da Sociedade de amanhã.

11. - Em busca de Fundamentos...

12. - Fundamento religioso e fundamentalismo tecno-científico: duas doenças geminadas.

13. - É preciso criticar em profundidade o atual processo de globalização... É necessário erguer a bandeira

da globalização da Solidariedade humana.

14. – Demandar a Utopia é ultrapassar o velho dilema entre apocalípticos e integrados!

  • Bibliografia do Autor

 

 

 

 

DISCUTIR FILOSOFICAMENTE O QUE SOMOS

A Propósito De Um Ensaio De Manuel Reis

 

 

Uma lição de grandeza filosófica... Tendo por base uma leitura sobre o trabalho filosófico de Boaventura de Sousa Santos a propósito de uma entrevista concedida por aquele ao Jornal de Letras - semanário cultural lisboeta, o professor e escritor Manuel Reis alerta-nos para o fascismo social que a globalização e o tecnicismo politicamente engajado carreiam em seus sistemas de dominação socioeconômica.

 

Eu pensei, muitas vezes, que nos idos Anos 60 tínhamos encontrado a contra-Cultura que iria ser a alternativa ao antropocentrismo ocidental, esse sinal anti-civilizatório embasado na visão do Poder-dominação tão amado e abençoado pelo Papado cristão (e os outros!), mas conseguimos unicamente dar mais força ao Establishment... E até os revolucionários marxistas foram atraídos por esse Poder que os fez bestas da Tirania em vez de arautos da Liberdade – como aconteceu na URSS e acontece, ainda, em Cuba e na China!

 

Os limiares espaço-temporais do Existencialismo espelham uma Realidade (quotidianidade) religiosa? Se é assim, o Tecnicismo - e a Ciência do Consumismo - é uma via aberta para a (nossa) auto-destruição? Nas duas Revoluções (a social e a tecnológica), que vivemos, balançamos sobre o abismo do Eu que, já agora, recusa-se à filiação ideológica... que, também ela – a Ideologia, virou ‘cliente’ do Consumismo! Ora, sinto na alma e no corpo, e creio que posso afirmar sentimos, que o tecnicismo desumaniza, gera escravidão pela alienação embasada no mero consumir, e, domina politicamente tendo como instrumento o fascismo social: instrumento mais fácil de manejar do que aquele político-militar-policial que os nazis impuseram – ah, instrumento que Salazar (em Portugal) e Franco (na Espanha) souberam aliar aos desígnios obscuros e inquisitoriais da Igreja católica e, daí, exerceram socialmente uma Ditadura socio-religiosa por meio século! A atitude antropocêntrica da Cultura ocidental é resultado da mística do Cristianismo institucionalizado que, renegando Jesus – o guia espiritual (cristo), aquele que reconhecemos (e temos como nosso!) dos Manuscritos do Mar Morto -, tornou-se um Poder imperialmente romanizado que, no mínimo, fere a própria Humanidade... aliás, como toda e qualquer entidade religiosa fechada ao Fraternalismo, isso, que muitos chamam de... Utopia! Ora, em si, a Tecnologia (e toda a Ciência) é um meio de Progresso humano, não a chave política para a criação do Poder-condomínio que gera o Rico sonegando o suor e a riqueza produzida pelo Pobre; ela tem de ser encarada sob a ótica de uma Ética ambiental que permita a (sobre)vivência do Eu e da Sociedade no contexto cósmico-berçário que (nos) é a Terra e pela defesa (e discussão aberta) de uma autêntica Filosofia ecológica! Ou será que existimos por existir...?!

 

Bento Prado Jr., em entrevista à Folha de S. Paulo (Cad. ‘Mais’), de 25.06.2000, opina o seguinte: "O tecnicismo é mortal para a filosofia; o coeficiente de tecnicidade da filosofia é inversamente proporcional ao coeficiente de significação e de interesse; aquilo que configura hoje o seu ‘mainstream’, que é de inspiração analítica, corresponde a um esvaziamento total da filosofia". Ao ler essa opinião do conhecido intelectual brasileiro lembrei-me, logo, que o Brasil (com ‘sociólogo’ na Presidência...), como a Argentina e a Colômbia, são exemplos chocantes do Poder-condomínio (enquanto ‘satélites’ das superpotências agregadas ao "G-7") que despreza a epistemologia tão cara a intelectuais como os portugueses Manuel Reis e Boaventura de Sousa Santos, ou Agostinho da Silva (este, de grandiosa Obra socio-pedagógica no Brasil). O que está em causa não é a Ciência mas a linha tecnocrática engajada à riqueza assumida politicamente pelas élites que se sustentam com um fascismo social de envergadura mundializada... Por isso, é importante discutir as duas Revoluções (a social e a tecnológica), como o faz Manuel Reis (in Em Torno Das Novas Tecnologias E da Nova Economia, ensaio, Portugal, 2000) tendo os estudos de Boaventura de Sousa Santos (em particular, A Crítica Da Razão Indolente) como foco.

 

O longo caminho de crítica aberta (e construtiva) de Manuel Reis, de que Em Torno Das Novas Tecnologias E Da Nova Economia prova-nos exatamente isso, é, sem dúvida, uma lição de grandeza filosófica pela alternativa social e comunitária que (nos) oferece. João Barcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

TEXTOS EM EXERGO PARA ENQUADRAMENTO

 

 

 

 

  • A propósito da miragem do enriquecimento rápido, sem esforço nem trabalho (citando a Business Week, de 14.2.2000), escreve Ignácio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique (Abril 2000, p.1): "Nos Estados Unidos, apesar do enriquecimento global, as desigualdades continuam paradoxalmente a aprofundar-se. Elas atingem níveis jamais vistos desde a Grande Depressão. A prosperidade da nova economia parece tão frágil que faz pensar no boom econômico dos anos 20, quando, à semelhança do que se passa hoje, a inflação era fraca e a produtividade elevada. Até ao ponto que alguns ousam falar de ‘risco de falência’, e deixam pairar o espectro de 1929..."
  • A Terra sofre, definha, é constantemente agredida e acha-se moribunda em muitos setores geográficos, geofísicos e geoeconômicos. No mercado, tudo se compra; até os ‘direitos de poluir’!... Quem tiver dinheiro até o céu (o ar) pode comprar, em menosprezo total do aumento das temperaturas terrestres e de toda a espécie de catástrofes ditas ‘naturais’ (!...) que, daí, sabemos hoje seguramente que procedem. Tal como o ar, a água está em vias de ser privatizada e as geopolíticas sobre a matéria já não se entendem no Médio Oriente. O complexo genêtico-industrial, a par das inundações ditas ‘naturais’, esteriliza as terras e destrói, química e biologicamente, a maior parte dos terrenos aráveis. Quem vem aliviar o Planeta e curar as suas feridas e agressões e traumatismos brutais?! Pelo menos, desde a Cimeira da Terra, havida no Rio, em 1992, o alarme ecológico já está troando por toda a parte reclamando a necessidade imperativa de reorientar os modos de produção e de consumo para escolhas sustentáveis. A Humanidade de hoje já não tem desculpas, oriundas da possível ignorância de causa!... (Cf. Newsweek, 24.4.2000, pp. 46-51). Ora, as leis que têm regido e continuam a reger o capitalismo neoliberal não são ‘leis naturais’; são leis criadas pela culturas societárias dos Humanos sob a dependência do Poder-dominação d’abord. É chegado, obrigatoriamente, o tempo de essas leis culturais serem substituídas e suplantadas pelas veras leis físicas e biológicas do Planeta e do Cosmos panenvolvente (eventualmente corrigidas, não alteradas). É altura de pôr termo ao mito enganador do pós-nacional, que tem alimentado a hegemonia absoluta das multi-transnacionais e do capitalismo liberal, como se os Estados tivessem de ser expropriados por força do processo de mundialização das tecnologias e da economia. Até à constituição de um Governo Mundial, para uma Sociedade autenticamente Mundializada, os Estados (uninacionais ou plurinacionais) continuam a configurar-se como as únicas entidades com vocação e funções de serem os verdadeiros garantes do pacto social. Por conseguinte, eles não devem permitir, em circunstância alguma, que a soberania popular fique açaimada às mãos do neocapitalismo sem pátria e sem qualquer delegação do sufrágio popular. (Cf. Le Monde Diplomatique, N° citado, pp. 14-15). Ou será que, nesse novo mundo de aprendizes de feiticeiros, armadilhado pelas manipulações genêticas de toda a sorte, que já está aí, iminente, com o Apocalipse ‘natural’ a converter-se (dá a volta e toca o mesmo?!...) em Gênese artificial, não nos resta outra solução em alternativa, a não ser a implacável morte anunciada e, no entretempo, a implacável submissão de escravos encasquetada nas cabeças e o consumo sôfrego do mundo, em vez de o transformar?! (Cf. ibi, p. 26).
  • Na verdade, o capitalismo trata os indivíduos-pessoas como se fossem calhaus ou meteoritos; segundo a gramática restrita e mesquinha das leis da gravidade newtoniana ou das leis orbitais/gravitacionais de Einstein, ou ainda segundo o código de funcionamento de pólo negativo e pólo positivo num campo eletro-magnético. Trata os ricos e os pobres como se de duas entidades isoladas e substantivas se tratasse.. Ora, nem os ricos nem os pobres se fizeram a si mesmos, independentemente uns dos outros!... Os pobres são empobrecidos pelos ricos; e os ricos enriquecem à custa dos pobres. Dizendo-se embora, embusteiramente, liberal e neoliberal, o que o capitalismo pretende, não é a vera Liberdade para todos os seres humanos; é, outrossim, a grande manada humanóide dos escravos e dos servos. E quem pretenda aceder à Liberdade de uma cidadania igual para todos estará sempre, diante dele, em isco mortal.
  • Não sabia Você, Amigo Leitor, que demasiada informação assassina a informação? Ainda nos vamos ver, por aí, todos, a dar razão a Paulo, quando ensinava: "Non plus sapere quam oportet sapere, sed sapere ad sobrietatem" (Rom. 12,3). Em Tradução livre, mas semanticamente rigorosa: Não se deve saber mais do que aquilo que é vitalmente necessário, ou seja, também no saber tem de haver sobriedade! E, noutra perícopa da mesma Carta aos Romanos (14,13), recomenda ele: "Acabemos de vez com estes julgamentos de uns sobre os outros: julgai, antes, que é preciso não pôr nada diante do vosso irmão, que o faça tropeçar ou cair". I. Kant, ele próprio, não admitia, em certas condições muito particulares, um suposto direito de mentir por amor à humanidade, ou seja, ao abrigo do respeito que devemos à humanidade desta?! (Cf. I. Kant, A Paz Perpétua e Outros Opúsculos, Edições 70, Lisboa/1988, pp. 173-179). Um tal direito, porém, é, para o patriarca do Iluminismo, condicionado em extremo pelo dever formalmente universal de dizer sempre a verdade, de tal sorte que seriam mesmo de excluir as mentiras piedosas quando procedentes de iniciativa do agente ativo. Assim, "ser verídico (honesto) em todas as declarações é, portanto, um mandamento sagrado da razão que ordena incondicionalmente e não admite limitação por quaisquer conveniências" (idem, ibi, p. 176). O dever da veracidade, em si mesmo, é totalmente incondicionado e constitui, enquanto tal, nas declarações humanas, a suprema condição do direito. Tudo isto, como é evidente, ocorre nos domínios da Razão Prática, e sobre as verdades conhecidas ou reconhecidas como tais. Não dizemos e proclamamos nós, no mundo da Educação e da Psico-Pedagogia, que as crianças e os jovens, para crescerem e se desenvolverem equilibradamente, precisam de adquirir e incorporar a noção dos limites, tanto objetivos como subjetivos?! Ora isso é igualmente verdadeiro e válido para os adultos. O que desgraçou a Modernidade ocidental – deve saber-se – foi a hybris, a desmedida, o desiquilíbrio e, por via disso, o andar sempre de Sila para Caríbedes: nuclearmente, o não ter havido (por sistema), antes da ação e das atividades criadoras ou transformadoras, um Critério Racional bem definido e estabelecido criticamente. Torna-se, assim, manifesto que, ao lado do clássico obscurantismo por falta e/ ou defeito de Luzes, temos de reconhecer o obscurantismo por suposto excesso de Luzes!...
  • Uma questão sócio-antropológica central, eminentemente política, que sempre tem permanecido de pé, aporeticamente sem solução, na história da humanidade. É chegado o tempo de a começar a enfrentar de vez procurando-lhe as soluções adequadas. F. Dostoyevsky, na esteira do Livro do Êxodo, já foi capaz de a colocar sem cinismos nem sofísticas derivações retóricas, na sua obra prima The Brothers Karamazov (The Modern Library, New York/1950), 2ª Parte, Cap. V, sobre o Grande Inquisidor e o seu discurso, pp. 300 e ss. Por que razão ou razões é que a liberdade e o pão suficiente para todos são inconcebíveis como realizando-se em conjunto e por que é que os homens são incapazes de proceder à repartição e partilha dessas duas ordens de bens?! Por que escolhem eles submeter-se e rojar-se aos pés dos detentores do Poder para lhes confessar: ‘Faz de nós teus escravos, mas alimenta-nos’?!... Por que hão de eles virar-se eternamente para as três forças: o milagre, o mistério e a autoridade?! A História da Humanidade tem sido hegemonizada e satanizada pela Metafísica fisicalista e pela sua irmã gêmea cúmplice, a Cultura do Poder-dominação d’abord. E, muito em particular, nos últimos quatro séculos da Modernidade ocidental, foi a Ciência física/fisicalista e positivista que dominou absolutamente, com uma Metafísica correspondente, de extração fisicalista, ancorada no clássico mecanicismo cartesiano, uma e outra acompanhadas de uma Tecnologia demiúrgica de conquista e destruição (pela reconstrução e destruição alternadas) do Mundo e da Natureza. Ora, hoje, nós precisamos vitalmente de uma vera e autêntica Filosofia Ética e Moral, autônoma, que se inspire, decididamente, na Filosofia da união/unidade psico-somática de espírito e matéria, alma e corpo; carecemos, pois, absolutamente, de uma Ética como Filosofia Primeira (na senda de E. Levinas). Para corrigirmos as desorientações da Modernidade seria bom lembrarmo-nos de que é já o próprio Descartes, nos seus Princípios da Filosofia a estabelecer o postulado (cuja obra não chegou a edificar): "a mais elevada e a mais perfeita moral é o último grau da Sabedoria"... É preciso e urgente integrar, de pleno direito, a paixão/ afeção/afetação no campo das operações/funções da Razão, tanto da razão prática da vida quotidiana corrente e comum, como da razão teorética dos cientistas e tecnólogos. Nessa ótica, temos absoluta necessidade de suplantar, tanto a moral da apátheia, carreada pela antiga e clássica tradição estóica, como a doutrina aristotélica do mesótes, ou seja, aquilo que ainda hoje predomina na moralidade oficial convencionada no Ocidente: a tradição do justo meio, inspirada em Aristóteles, que pervadiu o Direito Romano e tem marcado decisivamente toda a Moral cristã oficial. Não continuamos, ainda hoje, a proclamar o ‘in medio virtus’?! No meio é que está a virtude!... Parâmetros essenciais para a fundação da nova Ética/Moral podem ser: a) Ela constitui-se mais como sabedoria do que doutrina; b) cada Indivíduo/Pessoa tem que a assumir, descobrir e aprofundar; c) propaga-se através do caráter exemplar do modelo em que cada Indivíduo/Pessoa se pode constituir; d) ela é avessa a normas gerais de conduta, ainda que não abdique dos princípios; e e) porque desposou a dimensão apaixonada do conhecimento, ela tem predileção pelo excesso no cultivo dos maiores bens: por isso, a experiência de cada indivíduo se nutre de uma intensidade afetiva particular... Quando é que a Humanidade há de ser capaz de se unir em torno de um Projeto comum em vez da sempiterna miséria de se congregar apenas em torno de um Deus para adorar? (Vd. Op. Cit. de Dostoyevsky, p. 301). Neste novo horizonte, ao contrário do que se passa nos paradigmas oficiais da Ética/Moral tradicional, é incontestável que há vera progressão e progresso no campo da eticidade/moralidade; até porque ele é inseparável da progressão nos prazeres, na sensibilidade, na estese/estética (Áisthesis). (Cf. Amor e Subjectividade / Textos sobre a Paixão, org. de Adelino Cardoso, Sociedade Portuguesa de Psicossomática, Lisboa/1999, pp. 67-72; pp. 9-15). Que outra estratégia haveria senão a da percepção e concepção integrais do Ânthropos (monista/pluralista), para combater eficazmente a velha Metafísica fisicalista-imperialista do Uno hierárquico e a sua geminada Cultura do Poder-dominação d’ abord, através da recusa radical de toda a sorte de dualismos metafísicos e do mecanicismo cartesiano, e mediante a defesa e a promoção concomitantes da metafísica do múltiplo expressa na diversidade/multiplicidade dos indíviduos-pessoas enquanto centros de consciência autônomos, capazes de edificarem a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial.

 

 

 

 

 

 

 

1.

 

CONTRA O FATUM E A DIVINDADE IDOLATRADA

DO ESTABLISHMENT, O REARMAMENTO ÉTICO E MORAL.

 

 

 

 

‘Ser utópico é a maneira mais consistente de ser realista no final do século XX’ (Boaventura de Sousa Santos).

 

‘Quem não é pelo comum não é por nenhum’ (Povo da antiga aldeia comunitária de Vilarinho das Furnas, aldeia que foi soterrada para, em seu lugar, construir uma barragem-albufeira).

 

O mote foi-nos fornecido pela entrevista de B. S. S. ao JL (5.4.2000, pp.18-20), a propósito do seu livro A Crítica Da Razão Indolente.

 

De todos os filósofos modernos (e pós-modernos) que se empenharam e embrenharam na Crítica da Razão e da Racionalidade Filosófica, Científica, Teológica ou Tecnológica, o que, na nossa perspectiva, mais acertou e cuja obra, pesem embora todas as críticas e vicissitudes sofridas, ainda se mantém válida e fecunda foi I. Kant, com as suas três Críticas, justamente celebradas: Kritik der reinen Vernunft (Crítica da Razão Pura), Kritik der praktischen Vernunft (Crítica da Razão Prática) e Kritik der Urteilskraft (Crítica do Juízo). A essa trilogia há que adicionar, para que a mundividência kantiana fique substancialmente completa, Grundlegung zur Metaphysik der Sitten (Fundamento da Metafísica dos Costumes) e Die Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft (A Religião Dentro Dos Limites Da Razão Natural).

 

O empreendimento sartreano da Critique de la Raison Dialectique (edit. em 1960) já está muito longe de ter, filosófica e histórico-culturalmente, o mesmo brilho e a mesma fecundidade sócio-antropológica que grangeou a obra de Kant. Na obra de B. S. S. (autor que, por outros trabalhos anteriores, alguns deles pioneiros, nos habituamos a apreciar e a ter na melhor conta), receamos que ele esteja a apostar no que chamamos, hoje, ‘o cavalo errado’... Mas não gostaríamos de fazer juízos de intenção. A obra anunciada de Boaventura de Sousa Santos distribui-se por 4 vols., de que acaba de sair a público o 1° em torno do tema Para um novo senso comum: a Ciência, o Direito e a Política na transição paradigmática (Ediç. Afrontamento, Porto/2000). No título geral da obra pode ler-se A Crítica da razão indolente e, em subtítulo, Contra o desperdício da experiência. Neste último enunciado se polarizou a nossa atenção maior.

 

Provavelmente, anda muita gente equivocada... Quando, na verdade, a gramática epistémica e metodológica de funcionamento e operatividade do hemisfério das ciências sociais e/ou humanas continua a ser substancialmente a mesma que se aplica no hemisfério das ciências físico-naturais, como se poderá falar de desperdício da experiência se nem sequer há lugar, aí, para a vera e autêntica experiência?!... Por isso, os investigadores e os cientistas sociais muito raramente recorrem a esta fonte de conhecimentos e de informação. Prometemos, contudo, que vamos ler atentamente e estudar (com a semântica prenhe do verbo latino studere) esta nova obra de B. S. S. – como, de resto, já fizemos com as anteriores, que temos acompanhado com todo o interesse e grande expectativa. É, de resto, atraente e sedutor o que se lê na orelha esquerda da capa do 1° Vol. da obra em causa: "O objetivo desta obra é desenvolver epistemologias e teorias sociais que ponham travão à proliferação da razão cínica, que alimentem o inconformismo contra a injustiça e a opressão e, por fim, que permitem reinventar os caminhos da emancipação social. Para subverter a hegemonia de que ainda usufruem a ciência e o direito modernos, recorre-se frequentemente a uma tradição marginalizada de modernidade, o pensamento utópico". Nesta linha, saudamos vivamente o que estabelece B. S. S. no Prefácio Geral (p. 16): "A tese defendida neste livro é que deixou de ser possível conceber estratégias emancipatórias genuínas no âmbito do paradigma dominante, já que todas elas estão condenadas a transformar-se em outras tantas estratégias regulatórias".

 

Com efeito, nestes tempos de sombria depressão, provocada em última análise por um certo ‘eclipse da Razão’, melhor, desencadeada por uma Racionalidade tecnológica/imperialista que, na sua loucura prometeica, se cindiu da sensibilidade humana mais elementar, - do que estamos a precisar é de saber contrariar (democrática e individual/coletivamente) o destino, o fatum islâmico e a anankè helênica (de importação egípcia e médio-oriental, pérsica em especial); precisamos de contrariar o establishment convertido em Divindade idolatrada. E uma tal façanha ciclópica só pode ser levada a efeito mediante a afirmação, corajosa e desassombrada, das diferentes e múltiplas Vontades livres e responsáveis, através do alevantamento cotidiano e revolucionário (na sua capacidade de resistência) de um verdadeiro Rearmamento Ético e Moral. Precisamos, pois, de algo semelhante à ghandiana Resistência não-violenta contra o paradigmático imperialismo britânico nas Índias e nas Áfricas. – Isto não se promove nem se alimenta com a simples crítica de uma Racionalidade (moderna e predominantemente tecnológica) reconhecidamente indolente e, pior ainda, sobranceira e cínica, como é toda a Racionalidade moderna e pós-moderna, perante os mais comezinhos e elementares problemas humanos que, por sê-lo, assumem logo, ipso facto, o seu indelével caráter moral.

 

Ao proceder à Crítica da Razão Dialética, também Sartre apostou no cavalo errado, visto que a sua denúncia se polarizava no campo da Racionalidade objetiva/objetivista marcado pela instância da uniformidade e pelo monologismo, onde a grelha epistemológica de análise não é outra, em última instância, senão a do determinismo fisicalista, próprio das ciências físico-naturais. Ainda que se continue a protestar, solenemente, o axioma básico do Existencialismo: a Existência precede a Essência! Essa dialética, essa racionalidade dialética, com que indevidamente continuam a trabalhar as ciências sociais e/ou humanas, é denunciada e criticada, com toda a justeza e justiça, por Sartre, mas só parcialmente... Ora, em termos positivos e fecundos (não apenas negativos e ainda sobranceiros e pouco honestos...), aquilo de que precisamos é de uma dialética dialógica, onde a própria elaboração dialógica dos conceitos (filosóficos e científicos) seja feita à boa e justa maneira de Sócrates e da sua maiêutica interrogativa, indiscutivelmente fecunda e inultrapassavelmente democrática, porque nesse mesmo processus é o mestre que devém discípulo e o discípulo mestre.

 

Ao longo de uma Tradição cultural de mais de dois milénios e meio, Filosofia, Teologia, Ciências e Tecnologias, em suma, a Razão e a Racionalidade monológica (sempre estigmatizada pela Cultura do Poder-dominação d’abord) desenvolveram-se estrondosamente, ao ponto de ameaçarem seriamente a sobrevivência do Ânthropos e da Espécie Humana, tal como a conhecemos e a projetamos enobrecida no Futuro. Os costumes, o comportamento, a moral, a ética, a sensibilidade e a experiência, - tudo isso ficou hipertrofiado pelos dogmas das Ideologias dominantes, tudo isso ficou emparedado, aprisionado, às mãos da sempiterna Cultura do Poder-dominação d’ abord que, em todas as iniciativas emergentes da Liberdade Responsável por parte dos Indivíduos singulares e concretos, viu o pária, o estrangeiro/bárbaro, o assalto à fortaleza real pelas sombrias forças exteriores de Satanás e seus cúmplices... Sócrates, os filósofos estóicos, o vero e autêntico Jesus (algum do qual também perpassa nos Evangelhos canónicos), a bondade e a fraternidade de Francisco de Assis – o poverello d’Assisi, Pascal, Kant, Paul Ricoeur e a sua refundição do Justo e da Justiça, em suma, abrir positiva e definitivamente o Caminho da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, contra a sempiterna e ainda preponderante Cultura do Poder-dominação d’abord, - eis a linha certa daquilo que hoje precisamos, como conditio sine qua non de salvaguarda e sobrevivência da Humanitude (ou qualidade da Humanidade).

 

É, afinal, a face oculta da História do Ocidente que precisa ser revelada e conhecida, assimilada e vivida: a outra face da Filosofia, e das Teologias, e das próprias Ciências. É essa a Metafísica que importa descobrir e praticar; a metafísica da Virtude e da ação Justa. E, nesta ótica – há que reconhecê-lo -, o helênico caráter intelectual da Virtude (não sendo embora errado teoricamente), ajuda-nos muito pouco, na prática; pior, cega-nos, graças à convicção que ele nos injeta na consciência de que a lógica e o determinismo do verdadeiro são suficientes para nos tornar bons e justos.

 

Foi por tudo isto que, nos Tempos Modernos, ao longo destes quatro séculos de capitalismo, se foi criando o dogma/convicção generalizada de que os problemas da distribuição da riqueza, os problemas sociais da miséria e da pobreza seriam a seu tempo resolvidos mediante o mero crescimento económico medido em termos estatísticos de PIB (de cada Estado ou Estado-Nação). Sempre a apostar no mundo do supostamente Objetivo e da Objetividade, como alavanca de Arquimedes para todo o Saber e toda a Prática eficientes da humanitude a Filosofia (sistemática) e as Ciências (primeiro, especulativo-dogmáticas; depois, positivas e experimentais, mas sempre ao serviço do Poder estabelecido, não das Liberdades Responsáveis dos Indivíduos-Pessoas concretos) obliquaram, esqueceram e puseram de parte as regiões subterrâneas ou montanhosas das Vontades livres-responsáveis dos Indivíduos-Pessoas (os indivíduos que delas davam testemunho mas que foram ignorados ou votados ao ostracismo; os heróis que se destacaram pelos seus feitos e que os Poderes estabelecidos não puderam ignorar, mas sempre procuraram manipular e utilizar em seu proveito!...).

 

Quem não é pelo comum não é por nenhum’!, como pensava justo e em profundidade o Povo comunitário de Vilarinho das Furnas. O banal e trivial, comum de Lineu, seria apostrofar: quem é pelo (bem) comum não é por nenhum (indivíduo). Sempre, no lastro, a eterna oposição metafísica/imperialista (de guerra aberta e ordália de morte) entre o Indivíduo e a Comunidade/Coletividade!... É esta metafísica ontológica que, para subsistir, tem de hierarquizar inexoravelmente: é essa metafísica que nos mata fisicamente e nos hipertrofia psicologicamente!

 

Ser pelo comum é ser, positivamente, por todos; por isso, quem não é pelo comum auto-excluiu-se da comunidade. Não precisou de ser excluído pelo Poder estabelecido, o qual, enquanto primacial e primordial, é sempre e impreterivelmente paternalista. Assim, ao afirmar um tal axioma, o Povo comunitário de Vilarinho das Furnas protesta uma vera Experiência personalizante e identitária e, ao mesmo tempo, proclama uma Cultura humanista verdadeiramente (não falsamente) alternativa: a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial (contra a tradicional e imperialista Cultura do Poder-dominação d’abord).

 

Eis por que, hodiernamente, carecemos muito mais de um vero rearmamento/saneamento Ético e Moral, capaz de erguer identitariamente as consciências psicológicas e morais das pessoas levando-as à Indignação e ao Protesto, à Resistência, em suma, contra tudo o que achem justamente mal, quer do ponto de vista técnico-científico quer do ponto de vista ético-moral. Carecemos muito mais disso do que de mais himalaias de ciência e tecnologia, de perder inveteradamente cientista/positivista, susceptiveis de virem a dar-se por satisfeitos com as críticas e as denúncias (que nós, em âmbito manifestamente limitado, até subscrevemos) da indolência e do cinismo da Razão, com as críticas do mundo objetivo-objetual, onde se encontram situados, por definição, o saber científico e a investigação tecnocientífica. Se, em todo o caso, não se levar na devida consideração todo o vero mundo Filosófico e Subjetivo, da Axiologia, da Ética e dos Valores e, bem assim, toda outra maneira alternativa de fazer, inclusivamente, Ciência e Filosofia, então nada feito, e os objetivos finais (estratégicos) resultarão gorados.

 

Como é já sobejamente sabido (pelo menos desde Husserl, e o início do movimento humanista da Recuperação do mundo da vida - Lebenswelt - e da experiência), é esse horizonte (e caminho...) do pretendido e pretensamente objetivo-objetual que põe o Sujeito humano individual entre parênteses (faz a epoché husserliana do sujeito); é, efetivamente, esse horizonte e caminho que leva aos conhecidos lugares comuns e àquela doutrina vulgata, adotada pelo discurso corrente, que leva os populares a comportarem-se perante o Governo e o Poder estabelecido segundo a cartilha estereotipada: ‘Nós não somos políticos; não queremos meter-nos na política: nem defendemos o Governo, nem a Oposição ou as Oposições’!... A Sibila diria, antes: Com a minha saia preta, eu nunca me comprometo!... Neutralidade como a Moral suprema do bom comportamento político. Agostinho da Silva estava cheio de razões e de Vontade revolucionária quando proclamava: É a submissão e a obediência dos povos que gera a tirania dos Governos!... É a submissão e a obediência ao status quo e aos Poderes estabelecidos – não se esqueça isso – são aprendidas e ensinadas na Escola da Neutralidade e da suposta objetividade políticas! Neste sombrio e tenebroso mundo da Cultura do Poder-dominação d’abord como poderão os indivíduos-pessoas e os cidadãos libertar-se do fatum, do destino, dessa anankè helênica erigida em Divindade geminada e idolatrada com o Poder estabelecido? Ao optar por beber a cicuta, em vez de fugir da Pólis, Sócrates deu a si próprio e aos outros a prova suprema da sua Liberdade Responsável perante as Divindades/Poderes da cidade de Atenas; como, de resto, Jesus, ao aceitar a sua condenação à morte perante o Sinédrio judaico e o Poder romano de Pilatos, que atuaram de mãos dadas.

 

De tudo os Humanos se servem para constituirem Divindades e erguerem Tronos em sua adoração. Hoje, é o Mercado que predomina como Divindade absoluta nesta atmosfera corrosiva e corruptora/corrupta de neoliberalismo planetário, em nome da propagandeada globalização neocapitalista. E a maior parte, a quase totalidade dos adultos de hoje comportam-se como crianças, com todas as suas liturgias e ritualismos, e de boa mente prestam culto à nova Divindade idolatrada. Acreditam em tudo... menos no vero Deus que têm ou teriam presente (?!...) no mais íntimo e profundo das suas próprias consciências pessoais. Pelo menos desde Kant aprendemos a distinguir e a não confundir a Sociedade Civil com o Estado. Mas estamos longe de identificar devidamente toda a amplitude e profundidade da Cultura do Poder-dominação d’abord que, na mascarada carnavalesca, continua, tantas vezes, a dissimular a Cultura da Liberdade...

 

Não precisamos, no atual contexto societário, a todas as escalas (desde a local, regional e nacional, até à internacional e mundial), de mais e muito melhor e acerado Ateísmo crítico e espírito iconoclasta, para subverter e conduzir à ruína todos os falsos Deuses que por aí pululam! É que enquanto não se operar este saneamento psiquico-espiritual, a nossa crítica social, dos aparelhos societários e organizativos, continuará a errar o alvo; continuaremos a não ser capazes – já enquanto indivíduos já enquanto coletivo – de assumirmos a nossa Liberdade a nossa correlativa Responsabilidade de cidadania e de criação do Mundo, à medida dos Humanos e do Humano todo em todos os Humanos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2.

 

CLONAGEM HUMANA À VISTA!...

AS HIPOTECAS D TEÍSMO.

 

 

 

Recentemente, os media virtuais e da Imprensa escrita fizeram-se eco da descoberta iminente do mapeamento completo do Genoma Humano. Dir-se-ia que, a partir daí, a Engenharia Genética e as multi-transnacionais do setor da biogenética poderão empreender, demiurgicamente, o que muito bem entenderem, substituindo-se aos poderes onipotentes do Eterno e ignorando, nas costas dos Humanos, as Vontades livres e responsáveis dos indivíduos-pessoas. A clonagem propriamente dita, ou seja, a reprodução ‘a papel carbono’ de cópias do mesmo tipo/padrão, pela via trans-sexual, será um fato vulgar e generalizado num futuro próximo...

 

Dizem alguns que, para já, só querem clonar orgãos singulares e específicos, dentro das finalidades exclusivamente terapêuticas, para substituir orgãos doentes. Outros, mais arrojados e sobretudo gananciosos (!...) não se importam de clonar indivíduos inteiros argumentando que a clonagem já é feita pela própria Natureza, muito naturalmente, através dos casos dos gêmeos uniovulares ou homozigóticos!

 

A União Européia acha-se na linha dos primeiros; os EUA na linha dos segundos. De fato, uma vez que, para os EUA, o Mercado é a Divindade suprema, e o Lucro (empresarial, laboral, institucional) o motor de tudo, explica-se bem a orientação insensata de não limitar nem condicionar a liberdade de pesquisa e investigação, ainda que seja por motivos éticos e morais. Assim, nos EUA, esperam, cândida e inocentemente, que seja o Mercado a decidir em questões substantivas de Ética e Moral!... Como se, realmente, fosse o Mercado a decidi-lo e não o Monopólio. O Mercado é apenas o ‘cavalo de Tróia’... Admite-se, assim, que as empresas privadas (se não as próprias instituições públicas) estilhassem os princípios e as regras da Ética e da Moral. Haverá absurdo maior?!... Tudo em nome do sacrossanto princípio do Lucro d’abord e do mais hediondo Egoismo. Entretanto, é o próprio alto-financeiro Georges Soros a desabafar, depois da volumosas perdas recentes, nestes termos: "Maybe I don’t understand the market"! (Cf. News-week, 8.5.2000, p. 15).

 

Na Europa, por enquanto (!...), a investigação da Biogenética e os processos de clonagem ainda se encontram, aparentemente, condicionados aos fins terapêuticos e são conduzidos por organismos públicos, por definição legitimados e criteriados pelas Autoridades Públicas. Até quando?! Nesta atmosfera moderna e pós-moderna de uma hybris desmedida é difícil que essa Reserva se mantenha por muito mais tempo!... O que falta, entre outras coisas, aos EUA, à sua mundividência e ao ‘american way of life’, em confronto com a Europa, são boas cargas de ateísmo crítico e prático para que especialistas e público em geral possam fazer o percurso sócio-antropológico da Liberdade responsável (individual e coletivamente), e não se contentem com a mera liberdade de arbítrio, que é perfeitamente suficiente para o Mercado, tal como o capitalismo o promoveu e conhece, mas não basta para a vida e o assumir das funções e das responsabilidades correspondentes. É sabido que a liberdade de arbítrio pressupõe sempre a possibilidade da transgressão; pressupõe sempre um patrão, um dono e senhor! Não deixa de ser sintomática e significativa a proporção: enquanto os EUA vão mantendo, no seu barroco ‘caldo de cultura’ – onde é possível misturar o mais retrógrado e o mais progressista -, cerca de 75% de crentes e teístas, o Reino Unido e a Europa, em geral, inverte a porcentagem e dá-nos 25% de crentes e 75% de ateus e agnósticos.

 

 

Precisamos, em termos sócio-antropológicos, de cada vez mais ateísmo crítico, visto que já não vivemos nas Idades em que se pressupunha, como necessária, a crença em Deus, para fundar e justificar a Moral e a moralidade. O ateísmo crítico tornou-se necessário justamente para fundar e firmar as responsabilidades sócio-antropológicas e não mais permitir desculpas e desleixos nestas matérias fundamentais da vida humana enquanto humana. A própria Religião (institucionalizada) já não é necessária para fundar a Moral e a moralidade; mais: ela tornou-se perigosa porque é servida e expressa em leis e liturgias humanas. (A propósito, vd., o livro de Ludovic Kennedy: "All in the Mind (A Farwell to God)", Hodder & Stoughton, London, 1999, especialmente, Cap. 8: The First Atheists 1540-1840 (pp. 163-208): Cap. 9: Darwin and After (p. 209-235); Cap. 10: The Twentieth Century (pp.237-260).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3.

 

OS DOIS PARADIGMAS DA MODERNIDADE,

QUE SE TÊM IGNORADO RECIPROCAMENTE:

O DA REVOLUÇÃO CIENTÍFICO-TÉCNICA E

O DA REVOLUÇÃO SOCIAL.

 

 

 

 

Voltemos a casa, para acompanhar agora, com algumas glosas críticas, o texto da referenciada entrevista de B. S. S. ao Jornal de Letras (JL) citado.

 

Procurando contrariar a perspectiva do fatum islâmico, que estabelece que é o destino que decide os eventos e as coisas e não há outra solução, o autor assevera que "hoje, há outras formas de destino assim. A economia neo-liberal, por exemplo, é tida como uma forma de destino. Mas penso que há alternativas"(ibi, p. 18). – Nós diremos, antes, em nome do caráter exterminador e contraditório e absurdo do neoliberalismo capitalista contemporâneo e do realismo crítico da Utopia, que tem mesmo de haver Alternativa.

 

B. S. S. evoca um tema que lhe é caro (e a nós também) e faz parte integrante do núcleo duro de um Projeto Socialista digno do nome: o movimento cooperativista. E desenvolve uma temática que constitui o nó-górdio da sua investigação científica: a das mudanças de paradigmas na evolução histórico-epistemológica da Ciência, ao longo dos tempos, tirando partido da obra célebre de Thomas Kuhn "As Estruturas Das Ciências" (1962), a qual privilegiou, como é sabido, na história e na evolução das Ciências, as rupturas (dos paradigmas vigentes e oficiais) em lugar das linhas de continuidade. Ele tem toda a razão e vê fundo, quando assevera e defende em tese central: "Neste período de transição de paradigmas vai haver duas grandes lutas: por uma mais democrática distribuição da riqueza mundial e pela aceitação da diferença, ou do que chamo de multi-culturalismo progressista" (p. 19).

 

As sociedades capitalistas ocidentais formaram-se e constituíram-se, na sua coluna dorsal, durante os Sécs. XVI a XVIII, mediante os produtos operativos e os contributos ideológicos de dois paradigmas oficiais das Ciências: o da ciência moderna e, primacialmente, das ciências físicas, positivas e experimentais, cujo percurso é assinalado por figuras como Copérnico, Galileu, Newton, etc.; e o do capitalismo moderno, ancorado num paradigma de ciência econômica que foi moldado segundo a grelha das ciências físicas. Serão dois paradigmas distintos ou um só? A questão não é nada despicienda. B. S. S. fala aí de dois paradigmas e deixa o leitor da entrevista a perceber que se trata de dois paradigmas distintos tendo em atenção, porventura, os objetos supostamente bem diferenciados nas respectivas áreas científicas... Todavia, na realidade, não se trata, criticamente, de dois paradigmas, mas de um só, tendo em conta que ambos são comandados pela mesma metodologia e pela mesma ideologia (cientista-fisicalista, objetiva-objetualista) construtora de uma latente – primeiro –, e patente – depois -, Divindidade idolátrica, a qual veio destronar (dos céus da teologia e as religiões institucionalizadas) o Deus cristão antigo e medieval. Tudo se encontra entrosado e interrelacionado no mesmo e um só mundo humano na História do Ocidente.

 

 

Não foram cumpridas, efetivamente, as promessas do paradigma científico, designadamente a da Racionalidade da vida individual e da vida coletiva; como também não foram cumpridas as promessas da ordem e do progresso dentro de um mundo ordenado, do lado do paradigma do capitalismo moderno. Nem poderiam sê-lo: fundamentalmente, porque o princípio do Lucro (capitalista: a lei do Lucro...) foi erigido num absoluto, e, concomitantemente, os Valores, bem como a Ética e a Moral sociais e individuais, foram banidos do campo sócio-humano e das organizações estruturais da Sociedade. O autor chega a admitir, entre parênteses, que "os dois paradigmas estão imbricados", a partir do pressuposto de que "onde há ordem há progresso" (ibi, p. 19). Na estruturação do seu discurso, contudo, ele promove implicitamente a percepção de que se trata de dois paradigmas diferentes, o da ciência moderna e o do capitalismo moderno. Nesta ótica, Ter-se-ia, pois, de proceder necessariamente à abordagem separada, e sempre em estruturas e campos separados, das duas grandes revoluções paramétricas modernas: a centífico-técnica e a sócio-política! Ora é, a nosso ver, precisamente na apercepção deste núcleo duro da Modernidade, que o criticismo de B. S. S. claudica. E, precisamente em articulação com este tema, não podemos esquecer estes dois dados modernos e pós-modernos que constituem, afinal, uma só e indivisa realidade: a) as Revoluções Sociais (sócio-políticas) abortaram todas, total ou parcialmente; b) as Revoluções Científico-Tecnológicas, ao invés, vingaram todas, se tivermos em consideração os seus grandes patamares paradigmáticos. Isso mesmo aconteceu assim – tem de concluir-se – porque uma mão lava a outra... elas constituem-se e explicam-se mutuamente, são o anverso e o reverso da mesma medalha!

 

Por que é que os dois tipos de Revoluções se estruturaram e mantiveram separados na História Moderna do Ocidente? Por duas ordens de razões: a) a que é comum aos dois campos e dá pelo nome de princípios e metodologias da Objetividade e logo degenera em Objetualismo/ Divindade idolatrada, - e as duas Objetividades são pelo menos aparentemente distintas; b) a que diz respeito àquela abóbada celeste panenvolvente - que explica e fundamenta a ordem a) -, que se traduz na onipresença estrutural e estruturante da Cultura do Poder-dominação d’abord: e aqui tem de evocar-se, desde logo, a sempiterna filosofia do Poder... Dividir para reinar!

 

Poder-se-á perguntar, sempre, por que razões as duas Revoluções (a sócio-política e a científico-técnica) se mantiveram estruturalmente separadas na Modernidade. E a resposta inalterável, em última instância, não poderá deixar de ser, em resumo, senão a que segue: elas mantiveram-se distintas e separadas precisamente por causa da idolatria conferida ao fundo paradigmático (comum a ambos os paradigmas/revoluções) que se pode e deve designar por Objetividade científica, em nome da qual foi legitimado e justificado o paradigma concomitante da Economia capitalista baseada no Lucro d’abord, bem como no egoismo, em vez do altruismo, como paradigma antropológico e desde logo postulado pela Ética, enquanto Filosofia primeira.

 

Esta radical geminação de cumplicidades recíprocas entre as duas revoluções modernas pode ver-se, hoje, bem comprovada na seguinte geminação de cumplicidades contemporânea: numa vertente, promove-se a ‘nova economia’ digitalizada, acreditando ingenuamente e fazendo acreditar que ela vai carrear uma nova prosperidade, sem que se dê conta, na realidade, da sua enorme fragilidade, a tal ponto que nos leva a pensar no espectro da falência e da depressão de 1929, logo a seguir ao boom dos anos 20 deste Séc. XX (Cf. Le Monde Diplomatique, Abril de 2000, pp.1-2; pp. 4-5 e pp. 6-8). Na outra vertente, do ponto de vista da preservação e defesa ecológica e ambientalista do Planeta, por toda a parte se vê que a destruição e o saque da Natureza (incluindo a Natureza Humana e as sociedades humanas) continuam impantes e sem freio: o que dirige e comanda a ‘nova economia’ dos multi media é o arquipélago planetário da criminalidade financeira, onde surgem atuando, como ladrões em feira, Estados, Máfias e Camorras de toda a espécie e as transnacionais do costume (Cf. ibi, pp. 4-5).

 

O branqueamento do dinheiro sujo é operado com a maior das facilidades quando se acham associados Governos, Máfias, companhias bancárias e sociedades-transnacionais. Neste contexto, a pilhagem sistemática do bem comum processa-se com a maior impunidade. Aos pequenos delinquentes da precariedade e do desemprego é a aplicada a jurisprudência da tolerância zero e, em contrapartida, aos grandes crimes do dinheiro é aplicada a repressão zero (Cf. ibidem). Mais: é o próprio mercado da lei (e uma lei feita pelas medidas da desgulamentação neoliberalista) que torna prósperos os delinquentes (cf. ibi, pp. 6-7). "A grande criminalidade atual, se é preciso defini-la sumariamente, é a capacidade de valorizar os diferenciais causados pelos déficits de regulação política, econômica e social, em qualquer lugar do planeta e em qualquer momento" (Jean de Maillard, bi, p. 6).

 

Em suma, mantendo-se inabalavelmente distintas e separadas, em termos críticos, as duas revoluções modernas, o paradigma/revolução do capitalismo moderno, sobremaneira na sua fase de globalização neoliberalista, a partir do início da década de ’80 (no país protagonista do processo que tem sido os EUA), tudo tem empreendido para que, na fenomenologia político-social aparente, o processo global faculte a sensação de dar, efetivamente, algumas respostas às exigências da revolução social (sempre adiada e traída...) mantendo, embora, na frente de batalha, os princípios de um divinizado Progresso sempre crescente baseado na pressuposta Objetividade tcnocientífica. E um tal empreendimento é levado a cabo através de toda uma mascarada já bem conhecida e denunciada, muito embora continue oculta para o grande público: o conto do vigário de que, na sua estrutura básica mais elementar, crescimento econômico é... desenvolvimento econômico...! Ora, este é um axioma falso e impostor, ainda que possa encerrar parcelas de verdade! Por outras palavras, a Economia política (capitalista), sobretudo nas últimas duas décadas do Séc. XX, virou definitivamente, e por formas claras e desbragadas, uma guerra aberta permanente (paradoxalmente, numa época em que, como nunca antes da atual, se apela tanto para a resolução pacífica – pacifista... - dos problemas e dos conflitos). E, para compreender bem o processo global, deve atentar-se em que a atual guerra econômica (que não é metáfora..), movida e protagonizada pela chamada nova economia digitalizada, arma precisamente os seus exércitos sobre a base inamovível e irrefutável (!...) da bem divinizada Objetividade/Objetualidade tecnocientífica.

 

Assim, por conseguinte, o senhor Bill Gates e a multi-transnacional Microsoft, neste momento a arcar com um processo no Tribunal Federal dos EUA em virtude de uma suposta infração das leis anti-trust da União, poderão muito provavelmente vir a ficar tranquilos e finalmente absolvidos, para poderem prosseguir o seu negócio da Today’s high-tech prosperity (Cf. Newsweek, 17.4.2000, p. 72). É que as leis anti-trust, na base das quais o processo é argumentado, são ainda, fundamentalmente – como observa Robert J. Samuelson (ibidem), - leis que identificavam os males do poder de monopólio precisamente com o impedimento que, por essa via, era interposto no processo de competição com outros. Só que a competição significava, então (e continuou a significar até à década de ’80), competição nos preços. Hoje em dia, porém, numa situação de vera guerra econômica a céu aberto, onde a competição se polariza na competição tecnológica numa luta sem tréguas de tecnologias rivais em demanda da superioridade de uma em confronto com as outras, as coisas são necessariamente diferentes. Neste contexto, como tudo está rigidamente encadeado, os clientes que se servem dos produtos de uma dada firma acabam por ser deterministicamente ‘fidelizados’ e controlados. Já não sentem margem para diferentes opções de mercado. O fascismo sócio-tecnológico instalou-se!... Sem ambiguidades...

 

O bem credenciado jornalista da Newsweek, reconhecendo embora a extrema vulnerabilidade da Nova Economia, parte de uma noção elementar e quase patética de mesma (a N.E. parece ser essencialmente um estado mental) para chegar à conclusão, aparentemente (!..) óbvia, de que a superconfiança gerada pela Nova Economia podia sofrer os seus abalos sísmicos e que, portanto, nisso pelo menos, ela se conduzia pela mesma gramática da Velha (vd. Ibidem).

 

Quanto a nós, induzir em conclusão uma tal tese é dizer muito pouco e tecer todo um discurso de lisonja ao Establishment e em abono da Ideologia tecnológica dominante. Na verdade, numa apreciação crítica global e radical, teremos, antes, de concluir que, em virtude de nos últimos trinta anos (depois do Governo Olof Palme, na Suécia) se ter postergado por completo na história do Capitalismo posterior à II Guerra Mundial, o princípio (ainda humanista e humanizante) das chamadas Tecnologias Adequadas, - uma ladainha de consequências imbricadas de grande monta começaram a tomar corpo:

 

  1. os Estados foram postos de joelhos diante das Multinacionais, que passaram a deter os comandos exclusivos da Economia política;
  2. em termos reais, Classes Trabalhadoras e Sindicatos deixaram de funcionar, ao lado dos Patrões e dos Capitalistas, como verdadeiros parceiros sociais com quem é preciso contar;
  3. a famigerada e supersticiosa Objetividade tecno-científica, qual nova Divindade constituida em dogma indiscutido, levou de vencida todos os seus adversários: as instituições, designadamente o emprego estabilizado e o respeito pelas pessoas e as famílias, foram dissolvidas, pela busca desenfreada do lucro imediato e fácil, do prazer acima de tudo, sem esforço;
  4. o próprio mercado teve de ser desregulamentado fazendo reverter tudo para uma inicial ‘lei da selva’; e
  5. neste contexto, a fascização social, que está ocorrendo, apresenta-se como um fato consumado. Ela já não carece de qualquer fascismo político que a suporte e alimente, basta-lhe o fascismo tecnológico...! Que a maior parte dos meus concidadãos, à escala de todo o Planeta, até acha, pia e inocentemente, compatível com a Democracia!

 

Nem os atenienses (dos tempos de Sólon, Péricles e Clístenes), nem os franceses (dos tempos da Revolução Francesa: de Robespierre, de Danton ou de Marat), cuja Democracia numa época como na outra, era ainda, basicamente, a democracia dos proprietários, considerariam possível tal compatibilização. Muito menos os hebreus (do tempo dos Juizes e de Samuel), antes da instauração da monarquia em Israel.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4.

 

OS ESTADOS SÃO CHAMADOS A ASSUMIR

AS SUAS RESPONSABILIDADES

PARA UMA VERDADEIRA MUNDIALIZAÇÃO;

ELES NÃO SE DISSOLVEM NEM SE EXTINGUEM TÃO DEPRESSA

EM SUPOSTO BENEFÍCIO DA SOCIEDADE CIVIL.

HÃO DE SER, AINDA, O BALUARTE DE

UMA ÉTICA ANTROPOLÓGICA CONSEQUENTE!

RECONSTRUA-SE A VERA

MODERNIDADE A PARTIR DE KANT.

 

 

 

 

 

 

Por que se promove e endeusa tanto a ideologia da ‘globalização’ econômica/tecnológica em prejuizo da soberania dos Estados nacionais e das funções, exclusivamente específicas e indelegáveis, que eles são chamados a desempenhar?! Essa ‘mundialização’ está a desapossar e a dissolver os Estados, e não obstante tudo o que se pretenda argumentar em favor da ‘globalização’, o pós-nacional demolidor dos Estados não passa de um mito enganador (cf. Le Monde Diplomatique, N° Cit., pp. 14-15; vd. et. P. 32).

 

Analisando os processos e os movimentos com alguma seriedade, ter-se-á sempre de perguntar, colocando a candeia em cima da mesa e não de baixo dela: Que nos deve interessar: Consumir e malbaratar o Mundo ou transformá-lo? A submissão e o conformismo, a alienação e a estupidez estão a invadir os cérebros dos indivíduos como glaciares. É uma completa descerebralização que se está a operar. De que se trata na ‘nova economia’? De fabricar novos consumidores ou de fazer com que cada um e cada coisa possam aceder ao consumo potencial? (cf. ibi, p. 26). Neste novo mundo do consumo euforizante e onipresente, é o modelo neocapitalista dominante que é imposto draconeanamente aos dominados: a Internet, com a sua realidade virtual, tornou-se o lugar natural da vida social e o meio essencial de cada um expandir a sua personalidade. Como se existir se reduzisse a consumir: e escolher uma determinada marca nos conferisse a identidade (pessoal) de que tanto se carece! (Até para poder resistir)!

 

Nos antípodas de toda essa malsinada globalização neocapitalista à escala planetária temos de continuar a situar o patriarca/juiz moral da autêntica Modernidade que foi Immanuel Kant. De fato, o que ele entendia por promessa de racionalização, outorgada pelas Luzes oitocentistas, englobava, necessária e simultaneamente, ao lado do progresso científico-tecnológico, o progresso da Filosofia e da Moral, bem como dos Costumes, tanto dos indivíduos como das sociedades humanas. Era, esse Projeto, a retoma das Bandeiras humanizantes de Sócrates e de Jesus.

 

Não previa Kant, por exemplo, o fim das guerras, mediante as descobertas da Ciência e as conquistas da Economia, e, na sequência disso, a instauração da Paz perpétua e universal como Projeto Filosófico digno desse nome? (cf. I. Kant: A Paz Perpétua e Outros Opúsculos, Edições 70, Lisboa, 1988, pp. 119 e ss.; os trabalhos sobre o tema da Paz Perpétua são de 1795/96). Nesse horizonte, urgia ele a adequação da teoria à prática no Direito das Gentes, considerando-o no seu caráter cosmopolita, i.e., do ponto de vista filantrôpico e universal (vd. Ibi, pp. 94 e ss.). Mais: ele prevenia os Estados, com esta recomendação: "As máximas dos filósofos sobre as condições de possibilidade da paz pública devem ser tomadas em consideração pelos Estados preparados para a guerra" (ibi, p. 149). Além disso, ele previa-nos, ainda, sobre a discrepância entre a moral e a política a respeito da paz perpétua (vd. Ibi, pp. 151 e ss.). E, ao mesmo tempo, advertia-nos sobre as condições em que é possível edificar a harmonia da política com a moral, segundo o conceito transcendental no direito público (vd. Ibi, pp. 164 e ss.).

 

A investigação de toda a obra de Jurge Habermas (da Escola de Frankfurt) em torno do tema polarizador da Modernidade Incompleta ou Inacabada foi, sem dúvida, pertinente e consequente. Veio isso mesmo a ser confirmado, pela via negativa, através dos desvios e aberrações característicos da Pós-Modernidade. Hoje, porém, é necessário acrescentar mais alguma coisa em função de um esclarecimento cabal: as promessas da Modernidade não foram cumpridas, de fato, nem puderam sê-lo, por direito, porque as duas Revoluções (a científico-técnica e a sócio-política), desde o Humanismo e o Renascimento, desde a Reforma e a Contra-Reforma, nos Sécs XV e XVI, foram sempre consideradas e assumidas, subterraneamente, como distintas e separadas. E, sócio-historicamente, isso acontece, em termos estruturais-estruturantes, porque indivíduos, cidadãos e Sociedades viviam e funcionavam e encontravam-se organizados (e continuam...) sob a abóbada celeste do implacável Poder-dominação d’abord e respectiva Cultura. Desta sorte, o que é substantivo e inamovível é o Poder; o que é adjetivo e removível (a todo o momento) é a Liberdade dos indivíduos!

 

B. S. S. tem razão e acerta em cheio quando denuncia a vocação monopolista da ciência moderna e acusa o seu epistemicídio sobre a epistême anterior, que funcionava na Idade Média ocidental. Na transição paradigmática para a Modernidade, tivesse o Ocidente dado mais atenção, em termos de orientação e bússula, às reflexões de F. Bacon, do que às teses pragmáticas de teor mecanicista de Descartes, e a História (bem como a Sociedade) Moderna ocidental teriam indubitavelmente percorrido e assumido outro curso bem diferente. Advirta-se que a História também se faz de futuríveis. Diz muito bem B. S. S., na entrevista citada (p. 19): "Há cada vez maior discrepância entre a ação científica e as consequências da ação científica. Ou seja, as consequências da ação científica tendem a ser menos científicas do aquilo que as originou. Porque entre uma e outra intervém uma série de fatores. Este modelo não pode ter resolução porque a ciência expulsou todos os outros conhecimentos que poderiam servir de válvulas de segurança. Digo, por exemplo, do conhecimento religioso, marginal, os velhos, das comunidades, dos grupos subordinados, etc... É que a ciência tem esta vocação monopolista, a de se entender como único conhecimento rigoroso. O seu modelo não permite a intervenção de conhecimentos rivais, assenta num epistemicídio, isto é, para fazer conhecimento mata conhecimento".

 

A Ciência moderna acabou, efetivamente, por suplantar e substituir o Deus personalizado na Cultura medieval por um Deus ex-machina, cuja Divindade ainda viu reforçados os seus atributos de tirania e ditador absolutos, porque aquela deixou de ser pessoal (uma espécie de ‘todo o mundo e ninguém’!...). Prossegue B. S. S. (ibidem): "Este modelo científico funciona hoje por inércia. Veja os discursos públicos em Portugal: ‘a ciência é louvada pelas suas virtualidades tecnocráticas: É bom para a indústria, para o desenvolvimento, para a competitividade’. Já não se diz: ‘É bom porque é bom, porque é bom para a sociedade ser cientificamente ordenada’. O que significa que

 

estamos num período de transição. É que a ciência não consumou por completo a morte de outros conhecimentos. E eles estão a emergir por outras formas. Nem todas progressistas, nem todas boas. Mas, se olharmos para outras culturas, vemos o que é a consciência cada vez maior do multiculturalismo, que são o que chamamos de fundamentalismos. Porque só consideramos fundamentalismos os diferentes do nosso, esquecemo-nos sempre que não há maior (porque mais agressivo) do que o fundamentalismo neo-liberal. Estamos a entrar num período de conhecimentos rivais que adquirem formas civilizacionais, estilos de vida. O que esta ciência fez foi destruir a idéia do monopólio da interpretação medieval, que era Deus".

 

Com a dogmática científica do novo Deus ex-machina da Modernidade, foram estruturalmente banidos não só o mundo da vida (Lebenwelt, como diria Husserl), que a melhor Filosofia posterior às duas guerras mundiais (fenomenologia, existencialismo, vitalismo, filosofias sociais) ainda foi reivindicando, mas também todo aquele mundo de pensamento humano e humanizado que dava pelos nomes de Interpretação e de Hermenêutica. À situação estereotipada se chegou: as pessoas não podem fazer as suas interpretações, uma vez que a interpretação é prerrogativa do técnico, do especialista; as pessoas não podem falar do que não sabem.. Cada um vive fechado no casulo do seu tecnicismo/especialismo e, por isso, o vulgo deve ficar calado, passivo, submisso e obrigado. A interpretação e o diálogo interpessoal (em filosófico pé-de-igualdade) tornaram-se inúteis e, por via disso, impossíveis! Podemos, pois, assentir com B. S. S., quando protesta nestes termos: "Não há pior fundamentalismo que o neo-liberal, justamente porque ele é o mais agressivo". Ainda que não no plano de uma comparatividade diacrônica e histórica, todavia, em termos sincrônicos concernentes à época em que vivemos, um tal enunciado crítico é de uma evidência a toda a prova. Mas logo nos é forçoso acrescentar que o geminado fundamentalismo da Ciência moderna é igualmente agressivo e imperialista, na medida exata em que a Ciência moderna se constituiu, em virtude da sua indeclinável exigência de objetividade/objetualidade, enquanto epistemicamente monopolista e, do ponto de vista axiológico, se deixou perverter e corromper pelas políticas do Establishment e do Poder-dominação d’abord. No contexto histórico dos dois paradigmas geminados da Modernidade, os quais – não se esqueça - são afinal, um só e indiviso, não são possíveis nem viáveis quaisquer estratégias genuinamente emancipatórias e de libertação que sejam vedadeiramente consequentes. É que tudo acontece e é urdido nas teias do Poder estabelecido que – diz-se logo - não pode cair na rua e, face ao qual a Oposição e o Anti-Poder têm de negociar e fazer armistício; tudo acontece e se articula sob e dentro da Cultura do Poder-dominação d’abord. Eis por que a própria e sacrossanta Objetividade científica moderna tão facilmente virou Objetualidade/Divindade idolatrada, sempre pronta e prestimosa e solícita e ao serviço indefectível do Poder-dominação d’abord.

 

 

 

 

 

 

 

5.

 

ULTRAPASSAR É PRECISO A CONHECIDA CONTROVÉRSIA

CANÔNICA ENTRE MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE.

AS DUAS REVOLUÇÕES MODERNAS

 

(A CIENTÍFICO-TÉCNICA E DA ECONOMIA CAPITALISTA)

SÃO UMA SÓ, PORQUE NASCERAM E CRESCERAM

SOB O MESMO SIGNO DA CONQUISTA E DO

 

PODER-DOMINAÇÃO D’ABORD.

 

 

 

Assim, todo o pensamento crítico, se quiser ser produtivo e consequente (não apenas retórico e acadêmico e, nos seus efeitos e consequências, sempre mais ou menos ao serviço do status quo), tem de se esforçar por levar o seu radicalismo até ao fundo, até às raízes dos fenômenos e das realidades sócio-antropológicas em que estamos envolvidos.

 

J. Habermas (muito especialmente em Discursos Filosófico da Modernidade, Publ. D. Quixote, Lisboa, 1990), J.-F. Lyotard (em La Condition Post-Moderne, Minuit, Paris, 1979, trad. Port. A Gradiva, s/d; e em O Pós-Moderno Explicado às Crianças, Publ. D. Quixote, Lisboa, 1993 – 2ª Ediç.) e ª Giddens (em As Consequências da Modernidade, Celta Editora, Lisboa, 1992), - estes três autores selecionados, ao lado dos quais é de toda a justiça adicionar a obra de Boaventura de Sousa Santos (designadamente: Um Discurso Sobre as Ciências, Edit. Afrontamento, Porto, 1989; Pela Mão de Alice / O Social e o Político na Pós-Modernidade, Edit. Afrontamento, Porto, 1995 – 4ª Ediç.), estes agora quatro autores, justapostos e cruzados, constituem, sem dúvida, um patrimônio científico-cultural crítico suficiente para nos proporcionar um confronto/balanço crítico, sensato e sábio, entre o que estereotipadamente se tem convencionado chamar a Modernidade e a Pós-Modernidade, em oposição, e a segunda ultrapassando supostamente a primeira, de tal sorte que para além das roupagens e dos fenômenos aparentes é possível identificar o vero núcleo duro da Modernidade, em contraste histórico e socio-antropológico com as Idades Antiga e Medieval e caracterizar tal núcleo, não apenas sob a sua fontal estrutura contraditória, tal como foi assumido na História Moderna ocidental, mas também sob a sua original estrutura harmônica para-utópica, a qual, de fato, não fez caminho na História Moderna do Ocidente. Para tanto, contudo, é preciso dilatar o nosso horizonte histórico-filosófico, no concernente à caracterização da identidade autêntica da Cultura Ocidental; e, aí mesmo, perscrutar e reassumir, não o que nos adveio dos institucionalizados patrimônios helênico, judaico e romano, mas outrossim, e muito elementarmente, o que procede das tão ignoradas Mensagens autênticas de Sócrates e de Jesus (o autêntico e genuíno, que nos foi revelado complementarmente pelos Dead Sea Scrolls, e não o que nos foi dado a conhecer pelos quatro evangelhos e outros livros canônicos do N. T.).

 

A esta luz meridiana, o Projeto sócio-antropológico da Modernidade, na sua para-utópica condição e qualidade de estrutura harmônica, não foi, de fato, e não pôde ser, de princípio, concretizado na História Moderna do Ocidente, muito simplesmente porque, desde há cerca de dois milênios, o Ocidente e a História ocidental se têm vindo a distanciar cortando cerce o próprio cordão umbilical, das Mensagens inauguradoras e identitárias do Ocidente e da sua Cultura específica (a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, contra a sua eterna antagonista, a Cultura do Poder-dominação d’abord, que desde os alvores da História, mediante a sua fixação através da Escrita, tem sido mais o timbre próprio da ‘Cultura do Oriente’).

 

Mas Boaventura de Sousa Santos parece querer aproximar-se implicitamente deste nosso horizonte crítico, mais abrangente (e identificador do Uhr-Grund da problemática em causa), em três passos da sua citada entrevista, que vamos transcrever e que saudamos vivamente... O primeiro é o que se refere ao chamado fascismo social que se vê hoje alastrando manifestamente por toda a parte, e que só pode surpreender os intelectuais demasiado ‘orgânicos’ (nos sentidos pejorativo e positivo que lhes empresta a semântica gramsciana), míopes e de vistas curtas, atrelados ao Establishment. Diz ele assim (p. 20): "O Mundo está cada vez mais dividido entre zonas civilizadas e zonas selvagens. Para proteger as civilizadas existem já condomínios fechados, polícias privadas, etc. Esta dualidade faz emergir um fascismo social que se está a instalar. Este fascismo social é ainda mais virulento que o político, porque não se nota. Uns não notam porque estão na zona civilizada, os outros não têm poder político para dar visibilidade às formas de opressão a que estão sujeitos. A credibilidade do sistema está fundamentalmente em ele incluir (com muito glamour, muito charme) uma camada cada vez menor na humanidade. Que tem tudo, internet, telefones. Mas importa que a gente saiba que metade da Humanidade nunca fez uma chamada telefônica, nem vai poder fazer". O segundo passo é sobre a natureza das relações sociais e as trocas desiguais e iguais (ibidem): "O que são relações sociais? São relações de trocas desiguais. A todos os níveis. A sociedade é feita dessas trocas e são muito difíceis trocas iguais estabilizadas. Para mim, a luta política progressista, democrática, consiste em transformar trocas desiguais em trocas iguais. É transformar relações de poder em relações de autoridade partilhada. Estas trocas desiguais são um dos grandes indicadores de como progridem as relações sociais. No meu livro, identifico seis: na família, o patriarcado; na produção, a exploração; no mercado, o feiticismo; na comunidade, a diferenciação desigual; na cidadania, a dominação; no Mundo, a troca desigual. O Direito é fundamental para analisar a evolução e a transformação das sociedades, mas neste livro faço um sacrilégio para o positivismo que impera nas nossas Faculdades de Direito: admito que há um direito não oficial. E há, quer nos bairros de lata, quer nas grandes cúpulas banqueiras, por exemplo. E são formas de direito por vezes até ilegais à luz do direito oficial, mas que são princípios de ordem para as pessoas". O terceiro passo diz respeito ao que podemos chamar a bússola da Nova Esquerda e às condições em que ela deve exercer as suas funções (ibidem): "Contrario a idéia do desaparecimento da esquerda e da direita pela confluência do centro. Como se verá no 4° volume deste livro (O Milênio Órfão), penso é que esquerda e direita vão ter que ser reconstituídas, sem deixar de existir. Isto porque neste período de transição de paradigmas vai haver duas grandes lutas: por uma mais democrática distribuição da riqueza mundial e pela aceitação da diferença, ou o que chamo de multiculturalismo progressista. Não se trata de reconhecer o outro para que ele fique fechado no seu gueto, mas para que eu aprenda dele e ele de mim, se cada um de nós quiser, coexistindo e convivendo. Nós temos direito a ser iguais quando a diferença nos faz inferiores, e temos o direito quando a igualdade nos descaracteriza".

 

Pressentimos, desta sorte, que a analítica crítica e a contestação ampla e profunda que B. S. S. faz do Establishment contemporâneo e dos caminhos errados que, pela via da inércia e da indolência, as Sociedades neocapitalistas hodiernas estão pretendendo seguir, nos processos de uma falsa mundialização, convergem perfeitamente para o que nós designamos de Projeto Socialista radical para o 3° Milênio. Sendo certo e seguro que um tal Projeto, ao configurar-se exigentemente a uma escala sócio-histórica de milênios e não apenas de séculos, tem de retomar a sério (e não retoricamente...) as incomparáveis e incontornáveis Mensagens de Sócrates e de Jesus, se na verdade quiser ser producente e eficaz. E, sob a abóbada espacio-temporalmente alargada dessa Sócio-História que vai decididamente até às raízes da Civilização/Cultura Ocidental, a Magna Questão do Estado e a formação do Poder de Estado moderno, bem como a sempre pressuposta e implicada Questão Suprema da Cultura do Poder-dominação d’abord, - todas essas máximas questões terão de ser radical e diretamente enfrentadas/afrontadas e devidamente equacionadas e resolvidas.

 

 

6.

 

AS MAGNAS QUESTÕES

DECORRENTES DA CULTURA DO PODER-DOMINAÇÃO D’ABORD

TÊM DE SER ADEQUADAMENTE EQUACIONADAS E RESOLVIDAS

 

 

A título de exemplo, consideremos, sumariamente, a atual situação jurídico-política da pena de morte. Grandes e pequenos Estados ainda a utilizam e aplicam sem tergiversar, ainda que, postumamente, se venha a verificar e a saber que os condenados à morte, uma vez defuntos, estavam afinal inocentes (como aconteceu recentemente, v.g., no Estado norte-americano do Illinois). E tais práticas, eticamente hediondas, - deve advertir-se -, são adotadas independentemente de terem ou não os Estados em causa um regime democrático... Que é e significa a pena de morte na aparelhagem institucional do Estado moderno cujo conceito, implicando a soberania absoluta, é oriundo, convencionadamente, do Tratado de Westfália (em 1648), que pôs termo à guerra dos trinta anos? Neste contexto institucional-societário do Ocidente, a pena de morte constitui o estigma supremo, a marca indelével do que se considera a soberania absoluta do Estado, do Poder de Estado. Só que, em tais termos – há que protestá-lo à puridade – a pena de morte não passa de uma vendetta do Estado e do seu Poder, por mais que se argumente em contrário. Não tem, nem pode ter nada a ver com a Justiça. A Justiça justa exige, em última instância, ser feita na base da Igualdade entre as pessoas. Por isso mesmo, se pode e deve denunciar e reprovar, por princípio, todo o bem e toda a virtude que são empreendidos à sombra do paternalismo!... Numa sociedade onde vigora e predomina a Cultura-dominação d’abord, a Justiça e os Tribunais não podem, por definição e estruturalmente, ser isentos, imparciais e independentes do Poder estabelecido.

 

Quando é que os Estados modernos e contemporâneos vão abdicar, determinadamente, dessa malfadada soberania absoluta, aceitando a lógica e justamente que a soberania dos Estados seja limitada e condicionada, em benefício, a um só tempo, da personalidade jurídica dos cidadãos e da tão necessária e urgente constituição de um autêntico Governo Mundial?! (Cf. artigo Comment gouverner le monde?, de Jean Tardif, in ‘Le Monde Diplomatique’, cit., p. 32). Um tal Governo, cuja vocação seria, nesta época de transição, a de edificar e gerir as redes das interdependências, seria constituído na base de uma vera ‘sociedade civil mundial’, que teria a sua expressão numa espécie de Forum permanente das interdependências nacionais. Por esse caminho, sim, assistiríamos a um autêntico (e não falso...) processus de mundialização.

 

Desde 1648 até ao presente, houve monarquias, repúblicas e impérios. Em qualquer dos regimes, sempre a pena de morte assentou praça... E, se atentarmos bem na natureza real do Poder de Estado, ele não foi, em regra, menos ameaçador e terrorista que as repúblicas em confronto com as monarquias; ou nas monarquias constitucionais em confronto com as absolutas. O período Thermidor, no processo histórico da Revolução Francesa (1789-95) demonstrou-o paradigmaticamente e à saciedade. Assim, o Poder de Estado (com a sua marca registrada da soberania absoluta) nunca foi direta e radicalmente enfrentado/confrontado e resolvido de modo adequado, na História política e cultural do Ocidente. A supostamente paradigmática Revolução Socialista de Outubro, na ex-União Soviética, encarou e resolveu ela a Magna Questão do Poder de Estado, segundo o exigia, aparentemente, a ciência/doutrina marxista que, ao considerar o caráter messiânico do proletariado enquanto classe social, pressupunha e postulava que o proletariado tomasse o Poder e Estado em benefício de todas as classes sociais, de sorte que daí havia de resultar a famosa ‘Sociedade sem classes’?! A história posterior é sobejamente conhecida... Dispensará comentários, porque ela falou com os mais trágicos sarcasmos e ironias... O que se deseja e exige, é que a história referida não se repita posteriormente!...

 

Mas tem aprendido a Lição de todos estes processos históricos ditos revolucionários a Humanidade em geral, e, antes de tudo, os chefes e os responsáveis políticos?! Não... pela simples razão de que ainda não perceberam que as duas revoluções modernas referenciadas são gêmeas siamesas. Ora, hoje, sabemos que o Poder corrompe sempre e o Poder absoluto corrompe absolutamente! Já não há desculpas para os conquistadores e os utilizadores do Poder, em seu interesse e em benefício dos seus apaniguados ou eleitores. O Poder (de Estado; e derivados...) tem de ser objetiva e publicamente limitado e condicionado: não para reforçar e promover multi-transnacionais e as aparelhagens do mundo econômico-financeiro, que atuam (impunemente) por interesse próprio e sem delegação democrática das populações e das Sociedades nacionais; mas para que se possa defender e preservar, efetivamente, mediante o legítimo exercício democrático-representativo das funções (sociais, culturais, políticas e econômicas) do Estado, os direitos dos indivíduos-pessoas e dos cidadãos, integrados numa noção de bem Comum que, por princípio, (e de fato, sempre se aproximando cada vez mais do alvo) não pode excluir ninguém.

 

A arquitetura institucional é fácil de esboçar: abaixo do Estado-Nação, os sub-governos regionais; acima, os super-governos à escala internacional e mundial. Na base e no centro de todas essas circunferências concêntricas, os Indivíduos-Pessoas-Cidadãos, - princípio e finalidade de toda a Governação digna desse nome. Neste horizonte, em que o Princípio de Subsidiariedade é mesmo de se tomar a sério, uma vez que ele tem de comandar todas as operações em todas as escalas, constitui um imperativo categórico, ético e moral (ele próprio fonte e condição de toda a política) a rejeição de todas as Divindades exógenas/extrínsecas, que não se identifiquem com a identidade mais profunda e íntima da Consciência individual-pessoal de cada ser humano: Deuses exteriores, não-cristãos, ou cristãos, Divindade-mercado, Divindade-Dinheiro-Lucro d’abord, Divindade-Tecnociência, em suma, Divindade Poder-dominação d’abord, - é preciso resistir-lhes constantemente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7.

 

A ODISSÉIA DA CULTURA DA LIBERDADE RESPONSÁVEL

E A DIFÍCIL EMERGÊNCIA DO VERO PROJETO SOCIALISTA.

 

 

 

E, desta feita, à lógica e justa e perene conclusão final somos conduzidos, a saber: a vera e autêntica Humanidade de todos os seres humanos não se edifica pelos caminhos errados – toda a História o tem comprovado desde as suas origens – a da Cultura do Poder-dominação d’ abord; mas, outrossim, pelas vias íngremes e mais difíceis da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial.

 

Hoje sabemos que, final, não há mesmo meio termo entre os dois partidos: o do Poder tem ocupado quase toda a História e quase toda a Sociedade Humana; o segundo tem apenas tentado erguer-se timidamente (nos dois planos da História e da Sociedade), - mas tão só nas margens que sobram do processus de totalização/totalitarismo e de ditadura dos Poderes estabelecidos, segundo a sempiterna Cultura do Poder-dominação d’abord.

 

Baruch Espinosa, o grande filósofo judeu cujos pais se exilaram na Holanda, vítimas da perseguição religiosa em Portugal, terá pensado justamente, no seu tempo, que estava a dar, com a sua obra, um contributo precioso ao patrimônio cultural-espiritual da Humanidade através da sua tese central panteísta/ateísta, inauguradora dos supostos ateísmos modernos: a famosa tese do ‘Deus sive Nature’. Hoje em dia, porém, sabemos que os ateísmos modernos viraram todos teístas a seu modo, cultores, com ritos litúrgicos e tudo, de novas Divindades idolátricas, as quais têm contribuído mais para perverter do que para promover a vida humana vivida com dignidade, honra e recusa de toda a sujeição!... Hoje sabemos que um Projeto Socialista verdadeiro e consequente tem de recuperar e retomar as Teses clássicas do melhor anarquismo (filosófico e político), que a Cultura ocidental foi capaz de gerar na Segunda metade d Séc. XIX; e tem de verificar, além, disso, que a Razão histórica estava mais do lado de Trotsky do que de Lénine. À luz do que hoje sabemos da História das revoluções, bem como das teorias e doutrinas políticas, examinadas do direito e do avesso, e tendo em conta que os ‘futuríveis’ fazem parte integrante de uma História integral das Sociedades humanas, em termos antropológicos, temos a obrigação de saber que, na mesma proporção em que, nos inícios da Idade Moderna, Francis Bacon, tinha mais razão que René Descartes no concernente ao projeto científico moderno, assim, aquando da fundação da 1ª Internacional dos Trabalhadores (em 1864), Bakúnine e os anarquistas radicais, por paradoxal que pareça, tinham mais razão que Marx e os marxistas no que diz respeito ao projeto da construção do Socialismo. A clepsidra do Processo histórico registra os erros e torna-os manifestos e contra-provados postumamente. Cumpre-nos, em toda a honestidade, aprender as Lições da História.

 

Depois de Francis Fukuyama (e do seu livro celebrado, ‘O Fim da História e o Último Homem’, Ed. Gradiva, Lisboa – 1992), tornou-se um lugar comum bradar e brincar ao fim das ideologias!... Que grandíssima selva, esta, de tantas patranhas e enganos... Com tantos glaciares de retórica a diluviarem em torrentes caudalosas sobre toda a Terra até parece que as palavras perderam a sua semântica própria e precisa, e a linguagem e o discurso já não são capazes de produzir sentido... limitam-se a atroar os ares, tanquam cymbalum tiniens, num universo desprovido de vida e consciência, ou a ladrar à lua como gostam de fazer os cães em noites de lua cheia!

 

Assim, quando nos damos conta de que, na economia neoliberalista de hoje, a hegemonia absoluta é do capital financeiro e especulativo, a uma tal escala que ‘de cada cem dólares que circulam diariamente no globo apenas dois pertencem à economia real’ (B. S. S. in ‘Reinventar a Democracia’, Ed. Gradiva, Lisboa-1998, p. 38), a gente pode e deve perguntar-se honestamente se a taxa Tobin de 0,5% sobre as transações nos mercados de câmbios resolve substancialmente alguma coisa, e se a nova democracia redistributiva e o Estado, enquanto novíssimo movimento social, são suficientes para fazer face à selvajaria estrutural generalizada (Cf., idem, ibi, pp. 59-60). Fará sentido nesta linha crítica continuar a definir o Socialismo (hoje, o Eco-Socialismo) simplesmente ‘como democracia sem fim’ descurando a necessidade vital, em termos de terapêuticas adequadas, de corrigir e superar o caráter contraditório/absurdo e selvagem (em todas as frentes) do atual Capitalismo neoliberaista?!... Mutatis mutandis, ao vermos discutidos estes problemas em demanda das soluções mais adequadas temos, por vezes, a sensação de estarmos pretendendo resolver os graves problemas sociais da miséria e da pobreza, da desnutrição e das epidemias/doenças, em suma, da péssima distribuição da riqueza, socorrendo-nos, na esfera religiosa, das promessas aos santos e às santas e – cúmulo dos sarcasmos... – do respectivo pagamento!

 

Como vai emancipar-se o autêntico conhecimento-emancipação, capaz de contrariar e superar o mero conhecimento-regulação inexoravelmente quantificado e medido pela ordem-desordem estabelecida?!...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8.

 

A NOVA IDEOLOGIA ‘NÃO-IDEOLÓGICA’

DA TECNOCIÊNCIA E DA TECNOCRACIA!...

 

A ESQUERDA OU ESQUERDAS CALARAM-SE?!

 

 

 

 

Hoje em dia, com tanta informação e comunicação à escala planetária e com o degelo/desdogmatização dos costumes, desde logo no campo das expressões/manifestações, inclusive, ostensivas do sexo e da sexualidade, os indivíduos/consumidores/produtores deixaram, paradoxalmente, de tecer um discurso ideológico propriamente dito, expresso e articulado num sistema filosófico-ideológico declarado. Mas, na fenomenologia societária continua a haver uma Ideologia predominante que atua de forma cega, surda e muda, e que pretende mesmo passar, disfarçada e descaradamente, por não-ideologia: chama-se ela nova Ideologia Tecnológica (ou Tecnocientífica), a cujo imperialismo escravizador (não libertador) na arena social estamos assistindo, e que nos leva a experimentar, a um só tempo, a nossa revolta e a nossa impotência diante do Bezerro d’Ouro!

 

Como conseguiu uma tal Ideologia (pretensamente não-ideológica) o disfarce e a mascarada? Mediante a divinização do princípio axiomático da Objetividade/Objetualidade que a Ciência e a Técnica e a Tecnologia modernas sempre foram alimentando e reforçando, dogmaticamente (tal como na vera religião...), ao longo dos últimos quatro séculos na História do Ocidente. Do discurso sobre Deus, que tem lugar na disciplina de Teologia, já se declara e apostrofa hoje, crítica e pacificamente, que todo o discursos de Deus ou sobre Deus é sempre um ser humano que o profere. O discurso científico, pelo contrário, ao alicerçar-se no princípio dogmático da Objetividade tudo faz para cindir-se e separar-se e tornar-se absolutamente independente e autônomo face aos cientistas/sujeitos e suas circunstâncias. Quanta perversidade e corrupção vão nesta metodologia e epistemologia! A mesma perversidade e a mesma corrupção que vão na pesporrente afirmação daquele Poder que, sem qualquer diálogo democrático suscetível de o fundamentar, estabelece uma ordem ou código de mandamentos sobre o rebanho de súditos em nome de uma suposta Divindade exterior. Deve, entretanto, advertir-se que a suprema Ideologia tecnológica ou tecno-científica dos nossos dias abarca, comanda e absorve tudo e todos: num imperialismo sem fronteiras, que se pretende mundializado, e que já poucos têm a ousadia e a coragem de discutir e criticar.

 

Paradoxalmente (ou não) esta nova Religião/Ideologia Tecnológica/Tecnocrática chegou ao ponto de ver os seus antigos Adversários de estimação completamente ‘integrados’ no Grande Sistema! Dir-se-ía que renunciaram à sua clássica condição de resistentes e ‘apocalípticos’ para se tornarem ‘integrados’. Referimo-nos, claro, à Esquerda, ou esquerdas, as tradicionais e até as novas, que provam tantas dificuldades em emergir e afirmar-se nos palcos político-sociais perante o Bezerro d’Ouro. O processo contemporâneo da divulgação massiva da Ideologia tecnológica e da Globalização neoliberalista conseguiu esse amofinamento/alienação completa, como se da coisa mais natural deste mundo se tratasse...

 

Em tal contexto, como é de prever, as exceções à Regra são muito poucas: metonimicamente e no plano de autores o nosso dedo indicador apontou para Marta Harnecker, a velha lutadora chilena pela Causa do Socialismo, nos Anos 70, e que, no final dos Anos 90, continua intrépida e lúcida na sua nova obra em defesa de um renovado Projeto Socialista, que dá pelo título ‘Tornar Possível o Impossível / A Esquerda no Limiar do Século XXI’ (Ed. Campo das Letras, Porto-2000). No plano dos Institutos sócio-políticos-culturais queremos evocar, aqui, metonimicamente também, o incomparável Le Monde Diplomatique, agora sábia e perspicazmente dirigido por Ignacio Ramonet. Mas, de fato, o número de figuras e instituições visíveis da Esquerda ou esquerdas é tão diminuto e às vezes tão pouco significativo que a impressão que nos fica é a de que as suas intervenções, ou não existem, ou decididamente, já não contam para a modificação substantiva e a alteração qualitativa do Mundo!

 

Do lado da fortaleza aparentemente inexpugnável e das instituições societárias dominantes, pelo contrário, os pronunciamentos críticos abundam e chegam, por vezes, a apresentar-se bem contundentes nas suas análises críticas do establishment e nas propostas terapêuticas que avançam. E fazem-no, hoje, completamente à vontade. É que esses ‘pesos pesados’ que intervêm com propósitos de corrigir o Sistema vigente não estão, de modo nenhum, interessados em demolir o Sistema ou levá-lo à ruína; bem pelo contrário. E, não obstante, eles até chegam a botar figura (para a grande platéia) de supostos ‘adversários’ do Sistema (de setores ou subconjuntos do Sistema que não funcionam tão bem). Mais: para além das badaladas terceiras vias puramente retóricas (no encalço de A. Giddens: ‘The Third Way / The Renewal of Social Democracy’, Polity Press, Oxford – 1998), essas figuras até transparecem, neste grande Espetáculo de Circo Mundial, como que as únicas vozes irreverentes e dissonantes, audíveis e visíveis, capazes de discutirem e criticarem o ‘pensamento único/uniforme’ e o establishment, - resultando, por essa via, transformadas hipoteticamente e de fato em bóias de salvação para as próprias criaturas de Esquerda. Estamos a falar, por exemplo, de George Soros, o brilhante financeiro e filantropo norte-americano (de origem húngara) que é autor, entre outros, do livro muito interessante que dá pelo título ‘The Crises of Global Capitalism’ (Little, Brown and Company, London – 1998), onde o autor, denunciando as calamidades de hoje que são as instabilidades resultantes da sofreguidão com que foram combinadas as novas assunções teóricas e o comportamento humano, adverte para os perigos graves em que se encontra a Sociedade Aberta; e também do industrial e acadêmico norte-americano Edward Luttwak, que a partir do conceito de ‘geoeconomia’ foi capaz de uma obra de grande fôlego crítico até em termos humanistas: ‘Turbocapitalismo / Vencedores e Vencidos na Economia Global’ (Ed. Temas e Debates, Lisboa – 2000).

 

Globalização neocapitalista planetária e Religião/Ideologia Tecnológica (Tecnocientífica) constituem-se, efetivamente, como duas irmãs gêmeas siamesas: a sua vocação e a sua função são a de produzir uma emaranhada floresta de enganos onde, em nome da sacrossanta Objetividade científica e tecnológica não mais seja possível ao cidadão comum deixar assomar a sua consciência crítica e a exigência da autenticidade. O fascismo social e tecnológico (sócio-tecnológico) está definitivamente instalado. Aquilo que eu tenho vindo a designar por soft fascismo, de há duas décadas a esta parte e que é o resultado de, em termos operativos e estruturais, a) não se ter feito caso do Princípio das Tecnologias Adequadas, b) não se ter feito caso da necessidade sócio-política e antropológica de complementar a democracia representativa (ou delegada) com a democracia direta ou participativa, - parece ter consumado a sua instalação definitiva, e pior, naquela acepção positivista de fato social à E. Durkheim, ou seja, enquanto fato totalmente independentemente das vontades dos indivíduos!...

 

 

 

 

 

 

 

9.

 

COMO SE FORMOU HISTORICAMENTE O SOFT FASCISMO

SÓCIO-TECNOLÓGICO DE HOJE

 

 

 

O que, numa primeira frente, contribuiu remotamente, embora em termos decisivos, para o fascismo ‘soft’ de hoje, foi o fato de, no mundo internacionalizado do comércio e das economias nacionais (que se constituíram nas três décadas posteriores à II Guerra Mundial por oposição às anteriores ‘autarcias econômicas’ do nazi-fascismo), a globalização neo-liberal se ter erguido e estruturado, a um só tempo, através do progressivo enfraquecimento do papel dos Governos e Estados nacionais mediante organismos internacionais como o GATT (Acordo Geral de Comércio e Tarifas), criado em 1947; o Uruguay Round, iniciado em 1986; e a OMC (Organização Mundial do Comércio) criada a partir de então com muito mais autonomia decisória face aos Governos dos Estados.

 

Se, entre 1947 e 1986, ainda que numa atmosfera fluida e baça onde imperavam sempre os interesses do grande capital financeiro, ainda se falou de ‘partes contratantes’ em oito ciclos de negociações, a partir de 1986 e da Organização Mundial do Comércio, tudo começou a funcionar como (n)uma monarquia absoluta: começou a afirmar-se, sem contestação, a dimensão financeira transnacional, que se sobrepôs por completo à Economia (real). Desta feita – escreve Sérgio Ribeiro (in ‘Seara Nova’, Janeiro-Março de 2000, p.9) – a OMC "alcançou o que, no final da guerra, não fora possível, a institucionalização do liberalismo e da mercadorização por via do comércio internacional, sem os constrangimentos ou ‘entraves’ de rondas negociais entre ‘partes contratantes’ inter-nações. A OMC, enquanto agência especializada no comércio internacional, herdeira do GATT e, de certo modo, alérgica à OIT (Organização Internacional do Trabalho) e à CNUCED (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento), será a cereja a colocar em cima do bolo confeccionado pelo Liberalismo, expressão do estádio supremo do Capitalismo transnacional e note-se que, na nossa terminologia, transnacional quererá dizer o que passa por cima do que é nacional, multinacional, inter-nacional...! Ao nível institucional esta transnacionalidade alcança-se por aprofundamento da mercadorização nos campos que lhe estão cometidos e por extensão a outros campos".

 

A partir de 1986 a transnacionalização das relações econômicas internacionais encontrou o seu caminho completamente desimpedido: o papel dos grandes grupos financeiros transnacionais tornou-se cada vez mais preponderante e decisivo. E, a mesmo tempo, particularmente depois da queda do ‘socialismo real’ (1989/1991) e com a concomitante perda de influência do grupo de países designados por ‘não-alinhados’, deixou de se falar, em absoluto, da Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI) e suas exigências (tema de análises e preocupações que ainda estavam presentes nos Anos 60 e 70). A instauração (nos finais da década de 80) do predomínio absoluto das Finanças e dos grandes grupos financeiros transnacionais sobres as Economias nacionais reais foi, ao mesmo tempo, o Princípio das Tecnologias Adequadas, que foi inteiramente posto de parte. É sabido como ele foi importante e decisivo nos chamados ‘trinta anos gloriosos’ que se seguiram à II Guerra Mundial, não só para reestruturar e vertebrar as economias nacionais e promover a ajuda certa e justa dos países do primeiro mundo aos países do terceiro e quarto mundos.

 

É hoje um lugar comum entre os ‘fãs’ se enaltecer até aos cornos da lua a Nova Economia ancorada nas Telecomunicações e na Informática, por contraposição à Velha Economia. Ora, esta é precisamente a que foi arquitetada recentemente, durante os Trinta Anos Gloriosos (1945-1975). A Presidência do Conselho da Comunidade Européia, atualmente (2000) liderada pelo Governo Português, defendeu em Lisboa (no documento intitulado "Emprego, reformas econômicas e coesão social – para uma Europa da inovação e do conhecimento") o chamado modelo social europeu e o seu aprofundamento. Sabendo-se que este ‘modelo’ foi, na verdade, o motor e a moldura da Velha Economia, tem de perguntar-se que coisa estão querendo os defensores per fas et nefas da Nova Economia quando preconizam a recuperação daquele ‘modelo’: o círculo quadrado ou a pura e simples retórica demagógica...?

 

"Na ‘nova economia’ visa-se acima de tudo a flexibilidade, a aprendizagem permanente, a adaptação à mudança, a competitividade no mercado global..." (Mário Murteira, in ‘Seara Nova’, n° cit., p.14). Uma tal orientação contraria essencialmente a moldura e as traves-mestras institucionais da Velha Economia. É, por isso, muito sensato o nosso velho mestre economista Mário Murteira quando se interroga com alguma ironia: "O que poderíamos designar por ‘modelo social europeu’ é fruto do que tenho chamado de velha economia. Pode ser conservado, ou até aperfeiçoado, esse modelo para a ‘nova’ economia, ou pelo contrário? O que estará definitivamente condenado nesse modelo, por força da crescente globalização do sistema mundial?" De fato, para preservar e defender a sua identidade sócio-histórica e os fundamentos do seu ‘modelo social’, a União Européia não pode aproximar-se demasiado, para além de um certo limiar, do modelo da Nova Economia e do american way of life, ancorado num individualismo impenitente e numa competitividade feroz que, frequentemente (não encontrando uma ‘terceira entidade’ nas leis e nos tribunais), entra em curto-circuito e vira monopólio, cartel, holding, trust... Se, eventualmente, o seu modelo social vier a convergir tanto que se confunda, ele anula-se e dissolve-se pura e simplesmente. Mas os EUA – como muito bem advertiu John Gray no seu livro ‘False Dawn: The Delusions of Global Capitalism’, Granta Books, London-1998 (pp.100 e ss., pp.121..., pp.124..., pp.128..., pp.130) – entraram, pelo menos há duas ou três décadas a esta parte, num caldo de cultura ‘tecnocientífico’ missionário / prometeico que se pode designar, com propriedade, de iluminismo barroco (e bacoco...), onde os Valores humanos e a Humanidade, continuando presentes na retórica do discurso político, estão cada vez mais afastados das práticas sociais quotidianas e expulsos da gramática de princípios e parâmetros que presidem às Organizações Societárias. Eis por que, em termos de projetos e esperanças no futuro, é ilusório e decepcionante acreditar que o ‘sol’ dos EUA possa brilhar para todo o gênero humano a manter-se o modelo social (a-social) por eles perfilhado. Assim, quando hoje discorremos sobre a globalização devemos saber que, por detrás dessa máscara, encontra-se antes de tudo a realidade do Imperialismo norte-americano sobre o Mundo. Como não nos darmos conta, criticamente, do maquiavelismo diabólico de um tempo como o de hoje, em que quanto mais se concentram as Finanças e o grande Capital mais a populações migram e se ‘nomadizam’ perdendo a sua própria identidade pessoal, étnica, nacional?! Tem toda a razão o escritor libanês-brasileiro Milton Hatoum ao afirmar, em entrevista ao ‘Jornal de Letras’ (Lisboa - 19.4.2000, p.16), o seguinte: "Creio que esse será um dos grandes dramas do Séc. XXI. As emigrações continuam, há êxodos por toda a parte. Há quatro milhões de palestinianos da diáspora, a África está em polvorosa... No Brasil há migrações internas, os nordestinos procuram S Paulo, que é uma cidade com dois milhões de desempregados. Não podemos silenciar tudo isto". Em tal contexto é inevitável: "cedo ou tarde, haverá uma reação ao que se passa no mundo. Porque as pessoas estão descontentes, o desemprego é uma praga, a concentração de renda está a aumentar. Nesta fase do capitalismo, as corporações já não têm pátria, mas têm bancos e conselhos executivos que mantêm a hegemonia no mundo. O mundo não se pode ajoelhar perante esse mecanismo perverso" (idem, ibidem).

 

 

 

 

10.

 

O CONTEMPORÂNEO PROCESSO DE GLOBALIZAÇÃO

E OS HUMANOS DA SOCIEDADE DE AMANHÃ

 

 

 

 

Quem hoje tiver sensibilidade própria e inteligência identitária é forçado a reconhecer riscos e perversões gravíssimos no contemporâneo processo de globalização, tal como ele tem vindo a ser conduzido pelo Capitalismo neo-liberalista de dimensão planetária, sem pátria nem obstáculos governamentais.

 

Quem pensa em tais riscos e perversões...?

 

Desde logo – é bom que se saiba, enquanto há tempo para remediar e corrigir... -, a Educação/Formação de hoje (a começar pela escolar e acadêmica) conduzida e pautada na base dos novos ‘media’ e das ‘novas tecnologias’ de Informação e da Comunicação, como está a ocorrer, levar-nos-á inexoravelmente à condição pseudo-antropológica em que a ‘realidade’ virtual das redes mediáticas se há de converter na única realidade real! Não se pode esquecer’, em termos de pauta antropológica inultrapassável, que é justamente a empatia que leva à experiência enquanto tal e à sua valorização na vida humana. É a empatia que alimenta e robustece os laços nas relações interpessoais e na formação e preservação do chamado tecido social. Ora, quando as crianças (desde a tenra idade do pré-escolar) e os jovens consomem mais de metade do tempo útil diante dos computadores e das televisões, o que neles se produz é todo um processo de dissolução dos laços pessoais e sociais e afetivos, que ligam as pessoas entre si e à terra onde vivem e habitam. As crianças e os jovens são envolvidos e encerrados num processo de perda progressiva (e, no fim, total) dessa empatia fundamental, que se encontra nos alicerces da vida psíquica humana, enquanto humana. Ao mesmo tempo, eles tornam-se incapazes de experiência humana propriamente dita, incapazes de assimilar e acumular saberes resultantes da experiência. Esta nossa apercepção crítica do fenômeno da Globalização gostamos de a ver claramente expressa na entrevista do cientista social Jeremy Rifkin à ‘RAI Due’ (Canal 2), em 1° de Maio de 2000. Sinal de que ainda há gente sensata e honesta, inteligente e crítica e resistente, em suma, ao martelo-pilão do pensamento único. Por essa via, com efeito, estamos assistindo ao completo esfacelamento, dilaceração e dissolução dos laços sociais mais elementares que, entrosados normalmente, constituem o tecido social, etológico e ecológico, ético e moral dos Humanos, seja na vertente societária, seja na comunitária. O que se está passando, sob os nossos olhos (que, à força de rotinas, cegueira e submissão, já não vêem...), é a redução completa dos indivíduos-pessoas (originalmente dotados de empatia e capazes de experiência) a simples máquinas de operar, máquinas de processamento de dados ou de operações de fabrico de produtos/mercadorias. O que, assim, se encontra em marcha é o fascismo societal (vd. Boaventura de Sousa Santos sobre a emergência do ‘fascismo societal’, in ‘Reinventar a Democracia’, Cadernos Democráticos, Ed. Gradiva. Lisboa-1998, pp.33...); o qual se acha geminado, e até justificado – é bom não ignorá-lo! -, pelo fascismo tecnológico (o que já vem ocorrendo desde a década de 70, nos EUA, enquanto superpotência protagonista da novíssima revolução tecnológica Informática/Eletrônica).

 

Mais do que nunca, hoje, não podemos esquecer-nos de que toda a Civilização digna do nome é de base geográfica (e mesmo geofísica) e local/regional. E mais: ela pressupõe e exige, estrutural e funcionalmente, o vis-à-vis, o cara-a-cara dos indivíduos, em suma, os olhares cruzados reflexivamente de uns sobre os outros. Tudo isto acaba por ser eclipsado no atual processo de Globalização neo-liberalista/mecanicístico!...

 

Onde o lugar de origem, o situs (aristotélico) a que se atribui valor intrínseco e até a dignidade de predicamento metafísico?! Onde a prática e a defesa da alimentação natural e da autêntica cozinha regional/local?! A cultura do comer e do vestir configura, sem dúvida, o primeiro estrato da pirâmide de uma Cultura com ‘C’ maiúsculo. Com efeito, sem a presença viva da dimensão geográfica e localista não é possível defender e preservar a identidade dos indivíduos-pessoas e dos grupos étnico-sociais. Quero a minha Casa aberta aos outros, sem xenofobia. Mas não a quero, de modo algum, submergida pelos outros nem por eles controlada.

 

Quando as multinacionais uniformizam os mercados, Cidadãos e Sociedades precisam, com urgência, de Governos sérios e corajosos, capazes de advogarem os direitos e os interesses das Pessoas, dos trabalhadores e dos grupos étnicos. Quando, no quadro hodierno da Livre Iniciativa e da ação desregulamentada das multi-transnacionais, o Emprego-com-direitos desapareceu e os patrões já não são lobrigados para sobre eles poder exercer a reivindicação justa e necessária, - a quem deverão recorrer os trabalhadores, os cidadãos e os consumidores, senão aos respectivos Governos nacionais?!...

 

Mas, em tal contexto novo, decorrente das fraturas que as novas tecnologias impuseram à produção massiva de tipo fordista/taylorista, é obviamente necessário que os respectivos Governos sejam verdadeiramente capazes de impor a Ordem ao Estado. E, quanto a nós, sabemos que isso não será possível enquanto se mantiver a hegemonia da Cultura do Poder-dominação d’abord. No seu livro mais recente, ‘The Great Disruption’ (Profile, 2000), Francis Fukuyama deu-se conta, prospectivamente, dessa ‘falha sísmica’ para argumentar que, a partir dessas ausências e omissões, os indivíduos se achavam biologicamente compelidos, não só a reafirmar valores morais como também a recriar uma nova forma de ordenamento social. É claro que a terapêutica de Fukuyama tem apenas o valor do diagnóstico que a precede...

 

Num plano mais aprofundado, é preciso sabermos e tomarmos consciência crítica que o Comércio pressupõe a Cultura e dela procede; e não ao contrário. Nos EUA é que, por tradição interna criada a partir de fatores tais como os resultantes da convergência no menor denominador comum de imigrantes os mais diversificados nos seus costumes e hábitos de origem nacional, gerou-se o consenso sobre o errado princípio antropológico oposto: o Comércio precede a Cultura e absorve-a totalmente!...

 

Na citada entrevista à Rai Due, Jeremy Rifkin fez questão de formular um apelo solene à Itália, enquanto berço de civilizações, e à Europa em geral, no sentido de arranjarem coragem para contrariar o pendor mortífero da ‘tradição’ interna norte-americana, que atribui o primado ao Comércio em vez de o conferir à Cultura. A razão solene reside nisto: sem Cultura local identitária não há, não pode haver, Comércio civilizado. E não se esqueceu Rifkin de nos pôr em guarda perante as futuramente possíveis novas ‘guerras dos genes’, depois de havermos passado, historicamente, pelas ‘guerras de religião’ e pelas modernas ‘guerras de obtenção e conquista de matérias-primas’.

 

 

A vera qualidade de Vida é facultada, em última instância,

não pelas vias do Comércio mas, outrossim, pela via da Cultura.

Não pode o homem ser antropologicamente feliz no meio da penúria material

e infeliz no meio da abundância alimentar,

precisamente por lhe fazer falta o alimento espiritual?!...

 

 

 

Tem, por conseguinte, de levantar-se à puridade a questão central seguinte: a que está conduzindo, maioritária e hegemonicamente, o atual processo de ‘globalização’? Por certo que ele não está a conduzir à unificação democrática do Planeta, mediante uma suposta ‘cultura universal’ (que está, por ora, bem longe de existir...); mas, à destruição metódica e sistemática das entidades locais e regionais e nacionais e, implicadamente, à destruição do que resta da própria organização democrática das sociedades humanas. Eis por que, quando hoje se fala com insistência na chamada mundialização da Cultura são, antes, os espectros e as sombras das fascização pseudo-cultural que se avolumam no horizonte... – tudo isso produzido através das chamadas ‘novas indústrias da cultura’ (de pensamento único e uniformizante), que o sempre vigente e predominante sistema capitalista interpreta inexoravelmente em sentido uniforme e único. Em 1967, Maurice Duverger acusava o Establishment e denunciava o que ele chamava, com razão, ‘a democracia sem povo’. Hoje, a ‘democracia sem povo’ apresenta-se num quadro muito mais requentado politicamente e sofisticado tecnologicamente. É sabido como, nas origens das indústrias da cultura, encontra-se a própria Revolução Industrial enquanto ante-câmara da mundialização contemporânea (cf. Jean-Pierre Warnier, ‘A Mundialização da Cultura’, Notícias Edit., Lisboa-2000, pp.35 e ss.). Contudo, os tempos de hoje são diferentes: no atual panorama mundial das indústrias culturais a própria economia política mundial da cultura encontra-se estigmatizada, ela mesma, pela perversidade do uniformismo fascista e fascizante, precisamente porque são as lógicas econômicas (economicistas...) as que prevalecem hegemonicamente à escala do Planeta supostamente globalizado ou em vias disso (cf., idem, ibi, pp. 54 e ss.). A erosão e o etnocídio é o que vai caber em sorte às Culturas singulares, enquanto tais (cf., idem, bi, pp. 77...; pp. 105...).

 

E, não obstante, deve saber-se que os bens culturais não são mercadorias vulgares. Por isso mesmo, a pura e simples tentativa/projeto de um mercado mundial dos bens culturais constitui, por sua própria estrutura e funcionamento, um risco muito sério e encerra perversidades no seu próprio processus. E não restam dúvidas: o que hoje se chama de ‘mundialização’ da Cultura (termo impróprio, porque agrava as desigualdades sociais e ilude a extrema diversidade das situações) é um fenômeno e um processo desencadeados pela ‘economia das indústrias da cultura’..! A dizer, pois, toda a verdade, tem de concluir-se que, para além ou para aquém do ‘baile de máscaras’, a hodierna ‘globalização’ de que tanto se fala, pretendendo embora configurar-se como um grande movimento, culturalmente neutro e fundamentalmente democrático, que se espera venha a libertar o Mundo da ignorância e da pobreza, é, antes e afinal, na sua base mais firme e inabalável, a americanização do Mundo, a imposição draconiana do imperialismo norte-americano a todo o Planeta. É o mesmo que, a contra-gosto, acaba por admitir o autor de ‘The Lexus and the Olive Tree’ (Harper Collins, London-2000), Thomas Friedman.

 

 

 

 

 

 

 

11.

 

EM BUSCA DE FUNDAMENTOS...

 

 

 

Num plano de análise crítica mais profunda, o exame e o consequente balanço da contemporânea situação mundial, em termos sócio-antropológicos e históricos, não se compadecem com as confusões e as ilusões!

 

A escola francesa da Nova História dos Annales, que desabrochou e floresceu na primeira metade do Séc. XX (onde avultam figuras como as de L. Febvre, F. Braudel, M. Bloch. G. Duby), (cf. ‘História e Nova História’, de G. Duby, P. Ariès, E. L. La Durie e J. Le Goff, Ed. Teorema, Lisboa-1986), podemos dizer que acedeu a uma segunda fase metodológica e epistemológica com a publicação das duas obras monumentais que dão respectivamente pelos títulos ‘História da Vida Privada’ (em 5 Vols; Ed. Afrontamento, Porto-1989/95) e ‘História das Mulheres no Ocidente’ (em 5 Vols, Ed. Afrontamento, Porto – 1990/95). Mas há, efetivamente, uma terceira fase a que a Nova História tem de aceder, por exigências de ordem epistemológica e metodológica, dentro do novo horizonte gnóseo-epistemológico das chamadas ciências sociais e/ou humanas. O conceito embrionário e polarizador de Marcel Mauss, o chamado fato social total tem de ser refundido e completado criticamente pela noção nuclear de fato social que era já do conhecimento de Montaigne: não há fatos sem uma concomitante interpretação dos fatos. Mauss, portanto, corrigido e aumentado por Montaigne. Na sua terceira fase, a Nova História vai ancorar-se no conceito-chave e pregnante de Experiência humana, enquanto tal. Já não haverá mais fatos sem interpretação dos fatos. O próprio mito e a mitologia serão incorporados na História de pleno direito, enquanto humana semântica simbólica, que de modo nenhum se deve desprezar e omitir, em nome da gramática epistêmica e metodológica da História. O Mito entra na História pelo argumento do histórico ao contrário: a objetividade do conhecimento histórico é, ela mesma, um mito!

 

Neste novo horizonte já se pode perceber e admitir (e exigir...) que a História não seja apenas a dos vencedores e conquistadores: seja lembrado o tradicional axioma condenatório do ‘vae victis’: ai dos vencidos!... Já se pode perceber e admitir e exigir que a História não seja elaborada inexoravelmente segundo a gramática da Cultura do Poder-dominação d’abord, e que a sua arquitetura abra janelas para a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial.

 

Não é preciso e urgente começar a estudar a História e a fazer a historiografia necessária precisamente do lado dos vencidos e conquistados, do lado dos oprimidos e explorados...?! Por exemplo, elaborar a história das Cruzadas da Cristandade sobre os chamados ‘infiéis’, do lado, por conseguinte, dos povos árabes e muçulmanos, do lado dos povos do Médio-Oriente!... A ‘História das Mulheres no Ocidente’ resultou, efetivamente, como um novo e decisivo passo em frente da Nova História, justamente porque as mulheres têm constituído, tradicionalmente, no Ocidente, aquela outra metade (mais de metade...) oprimida e explorada da Humanidade, sob o regime patriarcal, que tem prevalecido no Ocidente e no Oriente.

 

Outra temática afim e convergente, que importa aqui arrolar, ainda que indiciariamente nesta encruzilhada histórico-civilizacional, é a do Humanismo. Hoje, todavia, não se pode falar de Humanismo senão apondo-lhe as exigências do qualitativo crítico.

 

 

Não obstante, continuam a ser culturalmente pertinentes, úteis e fecundas, algumas linhas de orientação e obras que vêm do passado próximo tais como: Fenomenologia, de E. Husserl e de Merleau-Ponty. Foi decisiva, em termos psico-culturais, em toda a primeira metade do Séc. XX, a recuperação do que o primeiro chamava a lebensweltO Mundo Da Vida, e o mundo da vida quotidiana por assunção metonímica. Foi importante e decisivo o livro de J.-P. Sartre L’Existentialisme est un Humanisme, que Vergílio Ferreira doutamente prefaciou e traduziu para o português e a Ed. Presença publicou em 1962; bem como toda a obra filosófico-literária de Camus. Foi ainda importante e decisiva, nessa perspectiva, a Lettre sur L’Humanisme, de M. Heidegger (Aubier, Paris-1970, bilingue, nova ediç. revista). E não se pode esquecer, neste resumo abreviadíssmo, o chamado Método dos Projetos, do pedagogo norte-americano John Dewey, cujo objetivo era o de contrapor ao primado da ensinança e da ação dos professores o primado da aprendizagem e da iniciativa dos próprios alunos. Uma menção especialíssima tem de ser feita, neste contexto, à Shoah / Holocausto de mais de 6 milhões de judeus nos campos de concentração e fornos crematórios do nazismo. Quanto se tem a aprender em termos de Humanismo crítico a partir deste topos... ‘Das Wesen des Daseins liegt in seiner Ek-sistence’: essência do ser-aí do homem reside na sua ex-sistência (vide explicação de R. Munier, in ‘Lettre...’, pp 12 e ss.): bem entendida a frase de Heidegger é antropologicamente revolucionária e autonomizadora. O homo é e cumpre-se enquanto pastor do Ser na multiplicidade dos sendos. Por isso, o cuidado é o seu primeiro mandamento (cf. ibi, p. 14; pp. 108-109). A humanitas do homo humanus decorre justamente dessa implicação recíproca do Ser e do homem como Dasein e Ek-sistence (cf. ibi, pp. 16-20). Assim, o Homem constitui-se, de algum modo, como secundário em confronto com a verdade do Ser. De resto, como se poderiam compreender e fundar, de outra sorte, as suas funções de pastor do Ser?! O humanismo, no mais forte sentido do termo, é nisso mesmo que reside: o homem é chamado pelo próprio Ser à salvaguarda da sua Verdade (cf. ibi, pp.108-9).

 

Neste horizonte, a Verdade surge como desocultação/manifestação do Ser, do que se achava escondido, ou seja, ela surge com toda a carga semântica que mantém no Grego: alqeia (de lanqanv = esconder + o alfa primitivo). Heidegger está certo quando procura filtrar o materialismo que uma boa e integral antropologia pode admitir propedeuticamente na linha da concepção marxiana e marxista da História - a saber: "A essência do materialismo não consiste na afirmação de que tudo não é senão matéria, mas, antes, numa determinação metafísica segundo a qual todo o sendo aparece como a matéria de um trabalho" (ibi, pp. 102-103). Dissemos propedeuticamente... Porquanto aqui, o grave risco que nunca se deve correr é o de transformar os efeitos estereotipados em causas, o a posteriori em a priori, o objetivo em subjetivo, o diálogo vivo inter-humano em suposta dialética determinística da Natureza. Na Evolução cósmico-bio-antropológica há uma mudança de abismos como o advento da Antropogênese, que Marx não havia considerado atentamente.

 

No segundo quartel do Séc. XX, o teólogo alemão Romano Guardini, na coleção de três ensaios que saiu a público sob o título (famoso) ‘Das Ende der Neuzeit’ (vd. a edição portuguesa desse livrinho, sob o título O Fim Dos Tempos Modernos, Moraes Ed., Lisboa-1964), já se dava conta das graves crises, contradições, fragmentações e ‘heresias’ da Modernidade ocidental, - cerca de um quarto de século antes de se começar a agitar o tema da pós-Modernidade. São clarividentes, a título de exemplo, as linhas seguintes: "A maneira habitual de escrever a história intelectual da Europa tem sempre considerado como idéias uma representação da nossa natureza como repousando em si mesma, o sujeito-personalidade autônomo e a cultura criando as suas próprias normas, idéias, que pertencia à história descobrir e realizar plenamente. Mas era um erro; e muitos sinais mostram já que estas idéias começam a desmoronar-se" (ibi, p. 71).

 

 

Uma vez sacralizada a Potestas, desde Paulo aos Romanos (Paulo, que é o vero fundador do Cristianismo), tudo se passa sob a abóbada celeste da Cultura do Poder-dominação d’abord. Identificada a Divindade com a Natureza cósmica, mesmo na sua condição de criador onipotente (ex nihilo sui et subjecti), era a própria Natureza física que resultava sacralizada. O Determinismo histórico, por seu turno, foi concebido e cozinhado nessa forja. Neste horizonte, as Ciências modernas, positivas e experimentais (mas de índole substancialmente mecanicista), em vez de contribuirem decisivamente – como se pretendia – para a emancipação/libertação dos Humanos, ergueram todo um universo metafísicamente teologizado (decisivas, para isso, foram a Teodicéia e a Teologia natural) onde não faltavam o sentido da predeterminação e o determinismo do mundo religioso, antigo e medieval. Em suma, o Determinismo e os Determinismos no processo histórico (antigos e modernos) não fizeram outra coisa senão substituir e ultrapassar: primeiro, a predeterminação religiosa e a Autoridade implacável do suposto Deus da Revelação; depois, o moderno determinismo mecanicista das Ciências e das Técnicas, uma vez que num mundo profano e laico também a Divindade carecia de ser laicizada.

 

Em tal contexto – tem de se reconhecer -, não era possível qualquer via de acesso à Cultura radical da Liberdade Responsável primordial e primacial, à centralidade indiscutível dos Indivíduos-Pessoas livres e responsáveis, já perante os Determinismos da Natureza, já perante os Poderes constituídos societariamente. Era (e é ainda...), assim, total o curto-circuito produzido pela sempiterna Cultura do Poder-dominação d’abord... Por isso mesmo, o Marxismo – que Sartre considerava a Ideologia inultrapassável do nosso tempo – pagou o seu tributo à inultrapassável Cultura do Poder-dominação d’abord; como, de resto, o estão pagando igualmente as ‘ideologias’ tecno-científicas do chamado mundo livre e democrático!... Uns e outros continuam a errar o alvo, obstruindo a Evolução humanizada da Humanidade, a qual só é possível e viável no horizonte da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial.

 

 

A idéia de Liberdade é axiomaticamente indissociável da idéia de Igualdade.

E tem de haver, em Democracia,

processos e maneiras de organizar o Estado e o Governo por forma

a que os governantes maus não causem às populações tantos danos como os que desejavam...!

A Ética e a Moral têm de se impor

sobre tudo quanto atribuímos ao fatum e ao aleatório com origem na Responsabilidade/Irresponsabilidade humana.

 

 

Que adianta, pois, afirmar e defender que ‘O Futuro Está Aberto’ (título do livro sobre as Conversas com Karl Popper e Konrad Lorenz, Ed. Fragmentos, Lisboa-1990) se continuamos a funcionar e a sobreviver na Cultura do Poder-dominação d’abord?! Por isso, nos conhecidos Três Mundos de Popper (vd.ibi, pp. 65-82), (Mundo Um: o físico e dos objetos; Mundo Dois: o do Eu e das nossas vivências; Mundo Três: o das proposições e dos produtos do intelecto humano centrado na língua/linguagem), - se continua a reconhecer a dificuldade e, mesmo, a impossibilidade de garantir e reservar o centrum centrorum do Eu Individual-Pessoal: quer na vida quotidiana, quer na organização da Sociedade (que se pretende Aberta e não fechada...), quer no processo histórico (que se pretende o menos determinístico possível...)! O ‘centralismo democrático’ de Lénin não passou de uma monumental impostura política. A radical e exigente centralidade dos Indivíduos-Pessoas, justamente no meio entre o Mundo Um e o Mundo Três, de Popper, é tão frágil e desprotegida que, ela mesma, não é susceptível das habituais mascaradas ideológicas; dir-se-ia que é incapaz de dissimulação: ou existe e se afirma, ou, pura e simplesmente, desespera e fenece, ou interioriza rumo à Utopia que os outros acoimam de impossível!...

 

 

 

 

 

 

12.

 

FUNDAMENTALISMO RELIGIOSO

E FUNDAMENTALISMO TECNOCIENTÍFICO:

DUAS DOENÇAS GEMINADAS.

 

 

 

 

Fanatismo religioso e fundamentalismo tecnocientífico constituem, de fato, duas doenças em última instância geminadas, as quais só podem ser debeladas e curadas mediante a Razão humana dialógica e dialogal.

 

O combate de verdadeiro Intelectual que Voltaire desenvolveu, na segunda metade do Séc. XVIII, como paladino dos oprimidos nas malhas do fanatismo religioso, a propósito do Caso Jean Calas e familiares e sua execução na forca, - os conselheiros de Luís XV, dois anos depois, reconhecem a inocência dos condenados e o engano dos juizes do Tribunal de Toulouse -, esse combate devemos nós hoje empreendê-lo e alargá-lo ao fundamentalismo tecnocientífico das novas tecnologias da Informática e da ‘nova’ Economia digitalizada. No que diz respeito ao Processo Calas, escreve Voltaire: "Entre o dia 7 de Março de 1763 e o julgamento definitivo passaram-se ainda dois anos: tanta é a facilidade com que o fanatismo pode arrancar a vida à inocência e tanta é a dificuldade que a razão encontra para obrigar a que se lhe faça justiça. Foi preciso suportar demoras inevitáveis, necessariamente ligadas às formalidades" (Voltaire, "Tratado sobre a Tolerância", Ed. Antígona, Lisboa-1999, p. 159; o sublinhado é nosso). Essa luta em defesa da Tolerância e em nome da Pessoa Humana, devemos nós hoje assumi-la contra toda a espécie de fundamentalismo que não respeitam, por definição estrutural, o sacrossanto e humanista Princípio das Tecnologias Adequadas. Mas, tal como em tudo, também nestas matérias é preciso saber agir com sensatez e equilíbrio. Aliás, na linha do que Voltaire deixou exarado no seu citado livro (p. 65): "Os mártires foram, pois, os que se ergueram contra os falsos deuses. Não crer nesses deuses era coisa muito sábia e piedosa; mas se, não contentes por adorar um Deus em espírito e em verdade, lançavam-se violentamente contra o culto tradicional, por muito absurdo que este pudesse ser, então somos obrigados a reconhecer que eles próprios eram intolerantes".

 

A propósito do Princípio das Tecnologias Adequadas deve, aqui, advertir-se que o próprio patriarca principal fundador da Modernidade, René Descartes, num horizonte em que o Ego cartesiano se afirma, na sua existência, como mega-máquina de uma Cogitatio onipotente e da demiurgia de reconstrução técnica do Mundo, admitiu paradoxalmente, ele mesmo, sobremaneira no tratado de As Paixões Da Alma (1649) e na Carta a Chanut (de 1° de Fevereiro de 1647) que, ao lado de todo um universo mecanicista e dualista que ele pusera em marcha, havia um princípio de Subjetividade e Amor, bem como uma união/unidade substancial primordial do composto de alma e corpo que não podiam ser ignorados ou postergados. Aí se configura claramente a noção indelével do Sujeito humano livre e responsável , que às coisas e aos outros seres, seus semelhantes, liga-se e articula pela relação fundamental do Amor nas suas duas vertentes, a do Amor-paixão e a do amor intelectual, a do amor de benevolência e a do amor de concupiscência.

 

 

Atentemos no esclarecimento de Denis Kambouchner (in ‘Amor e Subjetividade’, Sociedade Portuguesa de Psicossomática, Lisboa-1999, p. 26): "A esse título, Descartes não parece ter errado ao estimar (art. 81) que ‘logo que se está junto de vontade a algum objeto, qualquer que seja a sua natureza, tem-se para com ele benevolência’: pois cada objeto que eu amo, enquanto não me concebo sem ele, ou melhor, enquanto estou inclinado a conceber-me a mim mesmo com ele (ou a ele comigo), estou em princípio na mesma medida disposto a cuidar dele. Simplesmente é evidente que esse cuidado terá um caráter prático muito diferente, conforme esse objeto tiver uma existência efetiva e individual fora de mim, ou for uma simples qualidade a conservar. Num caso, o bem do objeto é alguma coisa fora do meu bem próprio; no outro, confunde-se absolutamente com o meu".

 

No artigo 81 de As Paixões Da Alma estabelece o próprio pai da Filosofia moderna (cit. ibi, p. 39): "Distinguem-se comummente dois tipos de amor, um dos quais se chama amor de benevolência, isto é, que incita a querer bem aquilo que se ama; e o outro se chama amor de concupiscência, isto é, que faz desejar a coisa que se ama. Mas parece-me que esta distinção diz respeito tão-só aos efeitos do amor, e não à sua essência; porquanto logo que nos juntamos de vontade a algum objeto, seja qual for a sua natureza, tem-se por ele benevolência, isto é, une-se também a ele de vontade as coisas que se crê serem-lhe convenientes: o que é um dos principais efeitos do amor. E, se se julgar que seja um bem possuí-lo ou estar associado a ele de outra maneira que não por vontade, nesse caso desejamo-lo: o que é também um dos efeitos mais ordinários do amor" (Oeuvres de Descartes, Éd. Charles ADAM et Paul TANNERY, Paris, Vrin, 1964-1976).

 

Ora, a prometeica Tecnociência de hoje já desbaratou e perdeu por completo toda a boa Filosofia humanista que está latente e patente no Princípio das Tecnologias Adequadas, e que podemos observar aqui, em embrião, nos cartesianos pródromos filosóficos da Modernidade. Corruptio optimi pessima...!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13.

 

É PRECISO CRITICAR EM PROFUNDIDADE O ATUAL

 

PROCESSUS DE GLOBALIZAÇÃO...

É NECESSÁRIO ERGUER A BANDEIRA DA

 

GLOBALIZAÇÃO DA SOLIDARIEDADE HUMANA.

 

 

 

Todavia, para empreender com honestidade e eficácia esse combate a um só tempo prometeico e órfico, carecemos hodiernamente de muita capacidade crítica e discernimento, a fim de nos situarmos na realidade autêntica, para além de toda a cegueira e floresta de enganos, destiladas pelas modas e modismos do discurso corrente, para além das flutuações do léxico canônico e das palavras que, pressupostamente, ‘morrem’ para dar lugar a outras que ‘nascem’ ou ‘ressuscitam’. Com efeito, para enfrentarmos as transformações sociais que se operam através de perturbações de avanços e recuos, e resolvê-las adequadamente, "não basta termos sensibilidade ecológica para com o ambiente exterior, que observamos. É necessário que o próprio pensamento seja capaz, internamente, de refletir e revelar os próprios ecossistemas em mudança" ( A Jacinto Rodrigues, A Política Da Política, seguido de exemplos para inventar o futuro, in ‘A Página’, Abril-2000, p.8). Assim, "em lugar de querermos apenas substituir um governo por outro, necessitamos de abrir um espaço de confronto político onde cidadãos livres possam participar noutras formas auto-gestionárias de decidir e gerir a própria vida social. O que nos deve preocupar é a nova relação, livre e autônoma entre as pessoas através da democracia direta" (idem, ibi, p. 9).

 

Exemplos de algumas palavras que, de forma prepotente, cínica e embusteira, parece terem caído em desuso, no discurso corrente, sem que a sua semântica e as suas denotações precisas tenham sido devidamente encaradas e resolvidas: classes sociais e luta de classes; o socialismo e o comunismo como respostas, no processo histórico, ao capitalismo e suas crises repetidas e crônicas; exploração e opressão; marginalização; desemprego; internacionalismo e imperialismo. A própria social-democracia perdeu o seu caráter próprio. Hoje, as gentes preferem falar de ‘globalização’ e de ‘excluídos’, que – logo se acrescenta – é preciso apoiar!... Entretanto, esse processo de ‘globalização alegre’ para uns, e ‘globalização com azedume’ para outros; e, na sua base estrutural bífida, esse mesmo processo é ‘globalização de cima para baixo e de fora para dentro’ (idem, ibidem). Exatamente o contrário do que deveria ser uma vera e autêntica Globalização levada a efeito de baixo para cima e de dentro para fora, de acordo com a gramática estabelecida pelo Princípio das Tecnologias Adequadas e pelo Princípio sócio-jurídico e político da Subsidiariedade.

 

Em suma, o discurso atualmente vigente e dominante julga poder ultrapassar os males e as reais contradições sociais mediante as varinhas mágicas da simples retórica: a pura e simples mudança de nomes e de palavras traria consigo, supostamente, uma realidade nova...

 

Faz-se o que se chama ‘a crítica no espelho e em função do espelho’ (só existe a realidade virtual in speculo!...). Denunciando justamente esta atmosfera doentia e hipócrita, escreve José Paulo Serralheiro, com uma fina ironia (ibidem): "Já não têm sentido as políticas de ‘combate ao desemprego’. A nova lógica política é de ‘apoio à exclusão social’. O desemprego é intolerável e caracteriza as chamadas políticas de direita. O desemprego é de algum modo inconstitucional visto

 

que a nossa Constituição reconhece, como sabem, o direito ao trabalho e a um salário justo. Por isso a esquerda acabou com o desemprego. É verdade que desgraçadamente temos exclusão social, mas esta é apoiada, na medida do possível, pelo rendimento mínimo garantido. Recordo que na Cimeira de Lisboa foram traçadas rigorosas metas para acabar de vez com o desemprego na Europa. Vamos superar a economia de mercado e vamos entrar na do Conhecimento".

 

Tecem-se loas à poderosa mobilidade das novas tecnologias da informação e da comunicação, à instantaneidade e ubiquidade que elas criaram. Engrinalda-se em arco, argumentando que a massificação dos P. C., acompanhada do advento da Internet e do comércio eletrônico, alterava de fond en comble, suplantaria a Economia tradicional pela nova Economia digital. Ora, em tal processus, se o capitalismo fez a sua metamorfose operacional, o que ele produziu foi mais desigualdade social, mais pobreza e maior acumulação de riqueza não distribuída, mais submissão e uniformização do pensamento; em resumo, mais desumanidade, ainda que a pretexto de humanizar o Mundo e a Natureza.

 

É o próprio diretor do Laboratório de Ciências da Computação do Massachusetts Institute of Technology (MIT) que escreve as linhas que se seguem (in jornal ‘Expresso’, Lisboa, 15.4.2000, p. 10 – Economia): "Acabo de terminar um estudo sobre ‘As Atividades no Mundo em Desenvolvimento’, onde se conclui que o que está a ser feito na área das telecomunicações e tecnologias de informação está na maioria das vezes ao serviço dos ricos e não dos pobres. Portanto, a tecnologia muitas vezes alarga o fosso entre ricos e pobres. Quando digo ‘pobres’ refiro-me a países e às pessoas, incluindo os pobres dos países ricos. A World Wide Web ainda não faz jus ao seu nome, porque só atinge 2% da população mundial".

 

A propósito da nova economia virtual, em contraponto com a economia real ou economia tradicional, escreve acertadamente Alfredo Barroso (in jornal ‘Expresso’, cit. . 24 – Opinião): "Atravessada por estranhos fluidos e ondas misteriosas, é assim uma espécie de economia louca, desconectada do seu objeto, que recupera os antiquíssimos sonhos dos alquimistas, designadamente os de transformar o chumbo em ouro e a água em vinho. A ‘nova economia’ é o cassino dos alquimistas’ neoliberais, em que o vencedor fica com tudo – ‘winner takes all’ -. Para ele, o absurdo é mais rentável do que sensato. Por isso mesmo, investem na credulidade e na estupidez humanas, tal como dantes se apostava no curso das matérias-primas. A fronteira entre o possível e o impossível já não é o racional, é o lucrativo. O objetivo é conquistar mercados e rentabilizá-los imediatamente". E, mais adiante: "Neste admirável mundo novo regido pelos magnatas da finança, só os Estados e os cidadãos são constrangidos a gerir com rigor as suas economias. Os magnatas e os grandes empresários exigem-no, da mesma forma que reclamam flexibilidade nas leis laborais e precariedade no emprego". Os resultados começam a tornar-se manifestos: "São muitos os que enriquecem depressa, sem trabalho e sem esforço. São bem mais os que ficam pelo caminho. E cada vez maiores as desigualdades. O poder e a riqueza estão cada vez mais concentrados em monopólios gigantescos. Se esta lógica brutal não for travada, nem forem adotadas regras que racionalizem a globalização dos mercados, a democracia correrá sérios riscos, quando as ‘bolhas’ da ‘nova economia’ rebentarem"(idem, ibidem). Será que, sempre ao abrigo da ‘Razão Indolente’ (de que fala Boaventura Sousa Santos, no seu último livro), haverá novos expedientes para enfrentar crashes nas cotações bolsistas da ordem dos 25,3% como aconteceu ao mercado do grupo Nasdaq, em 14.4.2000, a qual foi superior à da lendária Sexta-Feira Negra de 1929, ou de 1987 (cf. ‘Newsweek’ de 24.4.2000, pp. 20-24)?!

 

Impõe-se, por conseguinte, em termos absolutos (de vida ou de morte para a humanitude), uma base mínima de regras e leis, capazes de racionalizar e disciplinar essa selva que é a globalização’

 

dos mercados, - leis e regras que só os Estados e a Comunidade dos Estados, à escala mundial, poderão estabelecer com legitimidade e verdade.

 

Reuniu na semana de 10-15 de Abril de 2000, em Havana, a Cimeira do chamado ‘Grupo dos 77’ (esboçado em 1964 em Nova York e criado em 1967) o qual congrega atualmente os 133 países mais desfavorecidos do Planeta, onde sobrevivem 85% da população mundial. Uma exigência comum foi brandida nessa Cimeira: é preciso que os países ricos ‘assumam a responsabilidade para com os países em vias de desenvolvimento’, precisamente a bem da humanidade. (Cf. ‘Expresso’, cit., p. 18 – Economia). De acordo com a gramática discursiva de hoje (sempre a imperiosidade desse politically correct...), Fidel Castro, o anfitrião da Cimeira, não exigiu, pediu a ‘demolição’ do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o implicado cancelamento da dívida dos países pobres; e concluiu bradando a todos os presentes: "Ou nos unimos e cooperamos intimamente, ou o que nos espera é a morte" (vd. ibidem).

 

O jornalista Miguel Monfort, em Havana, fez o ponto da situação: "Bastou aos desfavorecidos invocar as estatísticas: em 1964, quando 77 países decidiram criar o grupo, os 20% mais ricos da população mundial eram 30 vezes mais ricos que os 20% mais pobres, enquanto hoje são 82 vezes mais abastados. Hoje, 20% dos habitantes do Planeta vivem em países onde se concentra 81% do produto interno bruto mundial, 82% dos mercados de exportação e 74% das linhas telefônicas (...) Segundo a ONU, 1300 milhões de pessoas vivem nos países mais pobres com menos de um dólar por dia, e 849 milhões sofrem de desnutrição. Mais de 250 milhões não podem frequentar a escola. A escravatura da dívida externa do terceiro mundo, 2500 milhões de dólares, é um lastro asfixiante que absorve 25% das receitas com exportações" (ibidem).

 

O mordomo da Cimeira não se cansou de apelar para a globalização da solidariedade, não da pobreza; para a cooperação Sul-Sul e a colaboração Norte-Sul, com o implicado acesso do Terceiro Mundo à Tecnologia. E, segundo o jornalista, Fidel Castro, muito significativamente, "comparou a globalização com um barco, em que os passageiros viajam em condições desiguais, e enquanto uma exígua minoria tem bons camarotes, alimentação sã, acesso à cultura e à medicina, ‘uma sombria e dolente maioria viaja em condições que se assemelham às horríveis travessias do comércio de escravos entre a África e a América no passado’. A manter-se este ‘curso tão irracional e absurdo’, além de não chegar a porto seguro, ‘vamos afundar-nos todos’. O Terceiro Mundo, disse, deve dar ‘um golpe de leme’ que ponha o futuro nas suas mãos".

 

 

 

 

 

 

 

14.

 

DEMANDAR A UTOPIA É ULTRAPASSAR

O VELHO DILEMA

ENTRE APOCALÍPTICOS E INTEGRADOS...

 

 

 

A Mensagem Messiânica da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, é para ser divulgada e estendida a todos os Indivíduos-Pessoas humanos. A densidade social e as pressões espirituais e culturais estão contemporaneamente a avolumar-se e a evoluir a um ritmo muito mais veloz, mercê das novas tecnologias mediáticas que fazem do Mundo uma Aldeia. As crises e os conflitos sociais assumem agora dimensões e aspectos de ordem psicológica, e são, por isso, muito mais virulentos e disruptivos. A violência grosseira, banal e muitas vezes gratuita que hoje é exibida, em avalanches, nas televisões e no mundo dos espetáculos em geral, o que pretende, essencialmente, é embotar as sensibilidades dos indivíduos e amofinar as gentes tentando vaciná-las contra a emergência crescente desses caudais de psiquismo conflitivo e inconformado, perante a generalizada e estrutural ordem/desordem estabelecida.

 

O velho e tradicional dilema polarizador da Ordem sócio-política ainda vigente, sob a Cultura do Poder-dominação d’abord, que se ancorava, em última análise, na teoria/doutrina dos arqui-arcaicos dualismos metafísicos, segregados pelas religiões institucionalizadas, - esse dilema que se traduzia na Oposição irredutível entre ‘Apocalípticos’ e ‘In-tegrados’ tem de ser definitivamente superado, a bem da humanitude.

 

Implica esse processo que a Utopia (no seu sentido mais positivo, generoso e criador) seja retomada e reassumida, de pleno fôlego, em cada Indivíduo-Pessoa, integrado, de pleno direito, na Sociedade-Comunidade a que pertence.

 

Precisamos, pois, de entrar no 3° Milênio da Era Cristã sob o Sol radioso e vivificante daquela Trindade que foi a do grande mestre Agostinho da Silva: Liberdade, Beleza e Amor; uma Liberdade que, para cumprir os postulados da humanitude, tem de ser efetivamente coextensiva e solidária com todos os seres humanos; e bem assim, ecologicamente, com todos os seres vivos, com toda a Terra e o Universo de que fazemos parte integrante e decisiva (o chamado Princípio Antrópico não deixa, hoje, de fazer sentido; o que é necessário é saber extrair-lhe as consequências adequadas). Uma Beleza que se possa admirar verdadeiramente, porque, ao mesmo tempo, a gente a entende e ela nos surpreende esteticamente. Um Amor que não se polarize nem se reduza mesquinhamente ao Sexo, mas que seja plena e totalmente humano (avaliado por consciência humana, ou seja, ter o seu aval!), capaz, portanto, de integrar de pleno direito a Sexualidade a partir da sua própria essência nuclear (a união amorosa).

 

Muito embora em horizonte histórico-cultural e antropológico inteiramente diferente do da velha Escolástica medieval, faz-nos hoje falta recuperar e reassumir o antigo e clássico axioma filosófico-metafísico e experienciar toda a fecundidade e verdade da sua prática social e antropológica: ens, verum, bonum, pulchrum (et justum – convém acrescentar, para que o polinômio fique completo) convertuntur.

 

No patamar da Evolução cósmico-bio-psico-noogenética, devemos assumir como reciprocamente convertíveis, na perspectiva da realização e consumação da Antropogênese, o ente, o uno, o verdadeiro, o bom, o belo e o justo. Só por esta via, de fato, podemos conciliar adequadamente o Uno e o Múltiplo. Sempre – como resulta evidente – do lado da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, contra a sempiterna e ainda vigente e predominante Cultura do Poder-dominação d’abord.

 

 

 

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Para Contatar O Professor

 

MANUEL REIS

Escreva Para

 

Urbanização do Salgueiral

Rua Cabo Verde 10-B

4810-078 Guimarães – Portugal

 

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Textos Em Exergo Para Rematar

 

 

- ‘Tudo o que sobe desce; tudo o que desce sobe’. É suposto resumo crítico, epigráfico, dos habituais comentaristas de turno sobre as oscilações das divisas e das cotações na Bolsa, quando elas não chegam aos ‘crashes’ sísmicos... Então, eles preferem ficar caladinhos!... – Como se à Humanidade, enquadrada, como cumpre, na Evolução cósmico-bio-antropológica, não restasse outra solução a não ser copiar as regras e as leis da Natureza que a precedeu!

 

- A primeira e a última Revolução a sério, nas Sociedades Ocidentais, há de operar-se quando os cereais e os frutos estiverem amadurecidos para a ceifa e a colheita. E vai consumar-se pacificamente e sem armas na mão: quando, maioritariamente, Indivíduos-Pessoas-Cidadãos se encontrarem suficientemente conscientizados em termos críticos, isto é, de inconformismo, protesto, repúdio da servidão, revolta e ruptura, de que a Cultura do Poder-dominação d’abord já não funciona, não pode funcionar no patamar evolutivo da Antropogênese e, por sua vez, a Humanitude só pode fazer seu caminho autêntico sob o horizonte da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial.

 

- Nesses tempos futuros (que poderão estar mais próximos do que se imagina!...), os detentores do Poder estabelecido e seus gendarmes e lacaios depararão com uma situação sócio-jurídica e política verdadeiramente inédita: já não acharão, na Oposição, partidos políticos rivais, cuja única pretensão essencial e decisiva seja a de os apear do Poder. Até porque a corrupção já não compensa, atendendo à facilidade com que ela pode ser desocultada e espiolhada na praça pública.

 

- É que já não se trata, apenas, de substituir os detentores ou ocupantes da Casa majestática da Potentas e do Poder estabelecido. Do que se trata... é de pôr a Casa a baixo e exterminar o Poder-dominação d’abord. Para que verdadeiramente possa emergir, em termos finalmente hegemônicos (e não mais submetidos e controlados pelos Poderes estabelecidos), a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. A Democracia Representativa será, então, uma realidade, porque fundada não no Poder impessoal hipostático mas na Democracia Direta. Eis por que um tal Processus Revolucionário será efetuado por Implosão: de dentro para fora e de baixo para cima, a partir dos centros de consciência crítica dos Indivíduos-Pessoas. Tudo, portanto, será operado pacificamente e sem armas na mão!...

 

- Quando, como hodiernamente, predomina a lei do cada um que se arranje, cada um que se amanhe, cada um que se defenda, é porque a Sociedade ainda dita humana, erradamente, transformou-se numa selva enxameada de animais hostis e ferozes onde tudo é medido pelo dinheiro e pela força física... O fim da História?!... – Sim. Há um sentido verídico e verdadeiro para este enunciado/proclamação que, nessa perspectiva, não vai carregado de cinismo e sobranceria, mas de ironia crítica. O Processo Histórico, considerado objetivo e determinista mais ou menos determinista, consoante a natureza dos fatores, mas sempre determinista quand même) atingiu o seu clímax psico-sócio-antropológico. Está chegando ao seu termo por efeito de uma hiper-saturação, que está reclamando a sua desconstrução total. A única metafísica que resta é a dos Indivíduos-Pessoas enquanto centros de consciência livres e responsáveis; a metafísica da multiplicidade dos Indivíduos-Pessoas. Por isso, os determinismos históricos chegaram ao fim!... ‘Os fatos’ – como já sabia Montaigne – sempre que os referimos ou deles falamos já são interpretações, explícitas ou implícitas.

 

E a metafísica dos Indivíduos-Pessoas existe e exprime-se na sua capacidade e vontade de configurar Utopia, utopias suscetíveis de conduzirem à transformação das realidades sociais existentes, tantas vezes contraditórias e absurdas e escravizantes; e desde logo, o processus inicia-se pela propositura de heterotopias. Se, por exemplo, com Lewis Mumford (in ‘The Story of Utopias’, Boni & Liveright Publishers, New York- 1922), devemos pôr cobro às "falsas utopias e mitos sociais que provaram ser estéreis quer desastrosos ao longo dos últimos séculos" (p. 300), também com ele nos é forçoso reconhecer que, "não obstante, [se] o nosso conhecimento sobre o comportamento humano tem algum peso, não devemos pôr de lado mitos antigos sem criar mitos novos" (p.301). Foi o materialismo histórico (e, cumulativamente, o marxista, o mais robusto e fundamentado) que suportou e deu cobertura filosófica a toda a história imperialista do Capitalismo moderno; e continua a proteger bem no fundo as últimas evoluções do Capitalismo neoliberalista à escala do Planeta, atrelando as pessoas resignadas no trem descendente... Declarar, em tese supostamente objetiva e indiscutível, que o moinho de vento é a Idade Média ocidental, e no mesmo prisma gnóseo-epistemológico, afirmar e defender, para a época de hoje, que as novas tecnologias da Informática e das Telecomunicações são a ‘nova economia’ e a nova civilização emergente, no atual processo de ‘globalização’ – é, ao fim e ao cabo, submeter-se resignadamente ao determinismo das forças técnicas de produção; é pactuar, subterraneamente, com a Cultura do Poder-dominação d’abord; é adotar, axiomaticamente nos seus pressupostos, a sempiterna Metafísica imperialista, supostamente objetiv(ist)a, desse Poder. De resto, ao longo da História evolutiva do Homo Faber / Sapiens-Sapiens, há como que um núcleo metafísico de espécie de ‘Filosofia perene’, que deve ser mantido e assegurado. Esse núcleo tem a ver precisamente com a unidade simbiótica de matéria (corpo) e espírito e o postulado pressuposto da sua indivisibilidade. Evoque-se, nesse prisma, o que nos é ensinado nos mais antigos escritos Védicos indianos. As obscuridades e as contradições aparentes das filosofias indianas só podem ser ultrapassadas através dessa chave do entendimento que se chama a clássica convenção indiana da Vidya (pensamento unitário), a qual procura compreender os fenômenos do Universo como um Sistema singular-unificado onde

o Homem e Deus são Um Só e a Iluminação consiste na realização da harmonia do Eu pessoal com todo o Universo. É o que nos revela um dos Upanishades (livros sagrados da Índia): atman (a força vital em todas as coisas) é brahman (a verdade absoluta). Para tanto é preciso que a nossa Filosofia seja capaz de perceber e assimilar os significados filosóficos, encerrados nas noções védicas do karma e da samsara (os ciclos da casualidade e do renascimento): afinal, o conceito matricial da Responsabilidade individual-pessoal que implica prêmio e/ou castigo. (cf. ‘Time-Life Books’, Col. ‘Myth and Mankind’: The Eternal Cycle/Indian Myth, London-1998, p.7, pp. 117-133). Isso mesmo dita-nos regras antropológicas fundamentais, por exemplo, sobre os limites do Materialismo (tecnológico, civilizacional, filosófico e cultural). O Materialismo traz, efetivamente, graves complicações à Liberdade Responsável dos Humanos. Com efeito, "a abundância gera ansiedade porque nos dá mais liberdade. Estamos crescentemente a ser libertados para ‘sermos nós próprios’, mas [desde logo] a auto-expressão pode deslizar para a auto-indulgência, algumas vezes auto-destrutiva. Mais liberdade é [sem dúvida] melhor se nós a usamos sabiamente, mas muito frequentemente nós somos os nossos piores inimigos" (Robert J. Samuelson, in ‘Newsweek’, 15.5.2000, p.4).

 

Ora, enquanto predominar o modelo antropológico polarizado no homem egoísta, no Egoísmo dos Indivíduos, enquanto predominar o modelo sócio-econômico e político dos sistema capitalista, enquanto mega-máquina organizadora das vidas humanas, da Economia e da Sociedade... ainda não percebemos quais eram e quais são e quais serão os limites reais do Materialismo. Inspirando-se num trabalho recente de Fogel, Samuelson adverte que "as tecnologias em mutação e as condições econômicas colidem com os valores morais para produzir crises espirituais, reforma social e sobressaltos políticos. As pessoas esforçam-se por impor um enquadramento moral às novas realidades econômicas" (ibidem). De fato, quando o povo perde o controle das suas vidas, sofrendo de desemprego estrutural, das condições opressivas do trabalho e das ‘city slums’, a miséria generalizada é mais espiritual do que econômica, a começar pelas élites governantes. E as próprias desigualdades sociais são cada vez mais espirituais do que materiais. O que uns têm em excesso escasseia a outros: a auto-disciplina, o sentido da comunidade, o ter propósitos objetivos e próprios na vida. No horizonte filosófico e crítico-cultural, que se está perfilando nos mais diversos campos psico-sociais, já nos estratos mais profundos do subconsciente, já nas camadas da consciência de vigília, o conflito e a luta deixaram de ser, generalizadamente, saudáveis e normais, para assumirem aspectos e dimensões psicóticos e traumáticos, esquizofrênicos e sado-masoquistas. Os laços das relações inter-humanas e o tecido social, em geral, encontram-se deslassados e dilacerados, e estigmatizados pelo desespero e pelas sombras necrófilas do Absurdo!... Dir-se-ia, em tal contexto, quando é preciso e urgente tornar possível e viável o impossível, que a emancipação-libertação só pode advir pelos caminhos da Utopia e da Escatologia (terrestre) e que é, portanto, um imperativo categórico, ético e moral, a vitória destas sobre a integração monística e o imperialismo do ‘pensamento único’, que só sabe produzir e destilar exploração e opressão.

 

- Nesta Civilização desnorteada e paradoxal, em aparente progressão e ascendência do ponto de vista tecnocientífico mas em regressão e descendência, na perspectiva ética e moral, em que a par dos mais estrondosos achados científicos como a descoberta do código genético e dos inventos tecnológicos mais aperfeiçoados no domínio dos Computadores e da Robótica, em suma, no terreno do que se chama abusivamente ‘Inteligência Artificial’, o caráter pessoal, a personalidade e a autenticidade estão a definhar e a serem pulverizados pela ação mecanicista dos aparelhos comunitários e das grandes instituições societárias, - onde está a nossa sensibilidade para reagirmos e nos indignarmos quotidianamente contra o feio, o mau, injusto e o imoral, onde o nosso sentido estético perante a Natureza ambiente e os Humanos, nossos semelhantes e irmãos? Onde está a nossa capacidade de usufruir o milagre da Vida, como, por exemplo, as Sinfonias de Gustav Mahler e as de Jean Sibelius (as primeiras na ótica do gosto pela Natureza, as segundas na perspectiva do gosto pela Vida) têm o condão de nos inspirar? Onde a nossa capacidade de gozar a Fraternidade Universal (a natural e a humana), que magicamente nos infunde e modela como mais nada nem ninguém, o Canto ao Irmão Sol do povorello Francesco d’Assisi?!

 

Será difícil encontrar, na História das Civilizações e das Culturas Humanas, em tempo de paz (não obviamente de guerra...), uma época tão contraditória e desconc(s)ertante como a nossa de hoje em que indivíduos, grupos, camadas sociais e grandes massas são ductilizados, submetidos, atrelados, domesticados, subordinados e controlados pelas todo-poderosas e taumatúrgicas forças tecnológicas e tecnocráticas, e suas inovações constantes – forças que pelos grupos financeiros globalizados e pelas classes político-sociais dominantes foram guindadas à condição de novas Divindades objetivas-objetuais... O Capitalismo moderno – há que dizê-lo em nome da verdade antropológica e cósmica mais nua e crua -, se trouxe à Civilização progressos e benefícios que podem ser considerados incomparáveis, fê-lo à custa de guerras, conquistas e pilhagens, hecatombes de toda a sorte, trabalho escravo, exploração, opressão e morticínio sem conta. Imposição/Agressão/Violência (até na publicidade & marketing), Guerra se for preciso, o Capitalismo neoliberalista de hoje continua a não saber fazer outra coisa: transformar o Homo Sapiens/Sapiens no animal mais predador do Universo...!

 

- Hoje em dia afirma-se, dogmaticamente e sem o perceber, o conhecido aforismo de Macluhan: a mensagem é o meio (medium) e o meio (medium) é a mensagem!...E proclamam-no como se de um indiscutível dogma religioso se tratasse... Não se dão conta de que um tal enunciado é feito com uma boa dose de ironia crítica precisamente para denunciar as aparências e a falsidade da realidade que exprime! Tudo se passa, afinal, como se nós disséssemos: o homem é a mulher e a mulher é o homem; podem e devem os dois viver sozinhos e isolados, independentes e separados, porque não têm

necessidade um do outro para viver... O que – tem de se reconhecer - constitui um absurdo acabado. Como sabiamente estabelecia Teilhard de Chardin, a união não confunde, diferencia!

 

De igual modo, papagueia-se e repete-se à saciedade o velho axioma ético dos estóicos: ‘homo homini res sacra’!... O homem é uma coisa sagrada para o homem (no sentido de bendito, não maldito)... Ora uma tal tese só assume, na verdade, valor indiscutível, dentro da Cultura do Poder-dominação d’abord. Sob esse horizonte, há duas espécies fundamentais de sagrado, de ‘sacralidade’ (objetiva/objetual): a) a do criminoso (Caim que mata Abel e é marcado por Iahwéh na fronte, para que nenhum outro ser humano o venha a matar, por eventual vingança) que é convertido em bode expiatório, feito res sacra pronta para ser sacrificada, afastado e expulso para fora da comunidade; como aconteceu, figurativa e paradigmaticamente, segundo Paulo e os Evangelistas, com a Redenção de Jesus, o Cristo de Deus, a sua ‘Apolutrosis’ executada a favor de muitos!... b) A outra espécie é a do detentor do Poder (Monarca ou Presidente da República - tanto dá...), condição que impõe ao detentor do Poder um isolamento transcendente, metafísico, e um caráter bramânico que o impede de ser contactado pelos párias das massas populares. As duas espécies de sacralidade que são, em última análise, da mesma natureza (Giorgio Agamben, in ‘O Poder Soberano e a Vida Nua / Homo Sacer’, Ed. Presença, Lisboa-1998), configuram-se, enquanto tais, inexoravelmente dentro da Cultura do Poder-dominação d’abord. Por isso, o sagrado é uma noção ambivalente (cf. ibi, pp. 76-86). O termo latino sacer tem, originariamente, um duplo sentido contraditório: ele significa ‘santo’ e ‘maldito’, e o Poder do Soberano, enquanto tal, é um poder de vida e de morte sobre os seus súditos – ‘vitae necisque potestas’(cf. ibi., pp.87-111).

 

- Temos de aprender a pensar sentindo com toda a sensibilidade, a corporalidade inteira, toda a nossa humanitude.

 

A idéia abstrata e separada dos dispositivos percetivos-sensoriais, supostamente universal, marcada pelo Poder d’abord e pela Metafísica do Uno, já não faz sentido e tornou-se absurda. Em termos antropológicos esta é a Revolução básica que nos cumpre operar no presente, a fim de preparar um futuro digno para a Espécie humana. Os caminhos da U-topia (não-lugar) que passam pela Eu-topia (bom lugar), têm de ser argamassados na esperança ativa e através de uma indefectível Solidariedade humana. Como dizia a canção dos militantes revolucionários ‘quem sabe, faz a hora, não espera acontecer’! E não mais se invoquem, sobranceira e cinicamente, esses especiosos discursos sobre a diferença e as diferenças. É falsa a solidariedade que não tem como seu objetivo a igualdade social entre os humanos: igualdade das pessoas e dos povos; igualdade de dignidade na pluralidade das identidades. Quantas desigualdades há aí, que são sinônimo de injustiça! A palavra Revolução não está gasta, nem, em boa verdade, pode-se considerar fora de propósito apesar de muitos a considerarem hoje fora de uso... Ouçamos a lição esclarecida e esclarecedora do Che: "Se sentes a dor dos demais como tua dor, se a injustiça no corpo do oprimido for a injustiça que fere a tua própria pele, se a lágrima que cai do rosto desesperado for a lágrima que também tu derramas; se o sonho dos deserdados desta sociedade cruel e sem piedade for o teu sonho de uma terra prometida, então serás um revolucionário, terás vivido a solidariedade essencial".

 

"Eu vi a aflição, eu ouvi o clamor do meu Povo" – Não foi com este desabafo compassivo e solidário de Iahwéh a Moisés que se deu início à saga do Êxodo libertador do povo de Israel do cativeiro/escravatura em que viviam no Egito dos faraós?!

 

O processo revolucionário há de trazer consigo homens e mulheres novos, capazes de desafiarem as nossas práticas quotidianas, estigmatizadas pela rotina e por uma razão indolente, que a submissão castrou. É ainda a lição de Ernesto Che Guevara que precisamos escutar aqui: "Deixe-me dizer, mesmo com o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor. É impossível pensar num revolucionário autêntico sem esta qualidade (...) É preciso ter uma grande dose de humanismo, de sentido de justiça e de verdade para não cair em extremismos dogmáticos, em escolaticismos frios, em isolamento das massas. É preciso lutar todos os dias para que esse amor à humanidade viva se transforme em atos concretos que sirvam de exemplo e mobilizem". (‘El Socialismo y el Hombre en Ciuba’, E. Política, La Habana-1988, pp.26 e 27; extraído de Ernesto Che Guevara – ‘Escritos e Discursos’, Editorial de Ciencias Sociales, La Habana-1977, t.8, pp.253-272).

 

- O procesus civilizacional/cultural do Homo Sapiens-Sapiens tem negligenciado (quase absolutamente...), ao longo da História, o Princípio hominizante e humanizante e humanista das chamadas Tecnologias Adequadas, tanto na vida prática quotidiana e na praxeologia geral, como na organização ferreamente objetualista-hierárquica das Sociedades. O fenômeno torna-se sobremaneira patente e manifesto nos períodos de mudanças técnico-tecnológicas onde as percepções da realidade social são, ora dirigidas ditatorialmente pelo Poder estabelecido, ora ocultadas no concernente aos aspectos criticistas, e as funções laborais são distribuídas tiranicamente pelo Establishment. A grande Pergunta que se pode e deve fazer diante das muralhas da Cidade, assim sitiada a partir de dentro, é esta: por que é que tal acontece, por que é que a má-sorte tem de continuar a cair implacavelmente sobre a Espécie Humana e a sua dignidade, tão reivindicada como frustrada?! A Resposta original-originante é elementar e simples: As Culturas e as Civilizações e as Sociedades humanas têm sido organizadas e postas a funcionar sob o martelo-pilão do Poder-dominação d’abord. Por isso, mais não tem sabido e podido edificar a Humanidade senão a história dos senhores e dos escravos como já era capaz de denunciar a Filosofia hegeliana e, depois, a marxista.

 

Eis por que os Humanos, face às Tecnologias e suas inovações sócio-históricas, têm sido draconeanamente divididos em dois grupos: de um lado, o dos Senhores, do outro, o dos Escravos; de um lado, os que se servem das novas tecnologias para impor o seu Poder e dominação, do outro, os que são vitimados, escravizados e instrumentalizados pelas Tecnologias erigidas em Divindades idolatradas. Que se passou, entretanto? Foi a inversão/perversão de toda a Espécie humana enquanto tal: os simples meios tecnológicos foram convertidos em fins, suposta mas falsamente humanos; e, no enxurro, os fins humanos foram pura e simplesmente eclipsados e dissolvidos.

 

Tem razão Luiz Carlos Osório, da ‘Associação Humanidades’ (luso-brasileira) quando escreve (in ‘Humanus I – Atividades 2000/2001’, Lisboa-2000, pp. 5-6): "O temor generalizado de que o Homem poderá ser vítima das suas criações, tem origem na inversão de valores ao longo do processo civilizacional, onde os fins foram substituídos pelos meios e estes passaram a justificar-se como objetivos autônomos. O Homem não é obviamente o centro do Universo Cósmico, mas é, certamente, o do seu Universo Existencial. E a tecnologia deve estar ao serviço desse fim último que é preservar e qualificar a existência humana. Quando a tecnologia deixa de ser um meio, para se impor como um fim em si mesma, por distorções do entendimento humano, transforma-se em tecnocracia, a tirania da máquina simbolicamente retratada na figura do computador Hal do filme ‘2001’ de Kubrick e já anteriormente esboçada na cena antológica do operário na linha de montagem do ‘Tempos Modernos’ de Chaplin".

 

Irmã gêmea da Técnica (que é o método de realizar o que nós conhecemos, o que a ciência nos ensina) é a Retórica (que é a arte de argumentar e convencer). Na Antiguidade clássica helênica, os proprietários das requintadas habilidades retóricas foram os sofistas (contra os quais reagiu, sábia e honestamente, Sócrates). Ora é bem significativo que já o divino Platão acusara os sofistas de mercenários do saber!...

 

Precisamos, pois, de métodos e caminhos e comportamentos novos, que não esqueçam as funções do sonho, da cultura e da arte, bem como as exigências da Liberdade Responsável dos Indivíduos-Pessoas. Nesta linha, devemos saudar "a Associação Humanidades [que] está empenhada, nesta via, em contribuir para uma sociedade mais temperada de sabedoria, afetos e fraternidade, valores que, não substituindo os pilares da ciência, da tecnologia e da razão, mudarão irreversivelmente o dogma e a relação das forças estabelecidas e serão talvez a gênese da nossa nova crença para o século XXI" (José Luís Gil, ibi, p. 15).

 

- A propedêutica política da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial até poderá inscrever no seu fronstispício o texto crítico seguinte de Emile Durkheim (in ‘A Divisão do Trabalho na Sociedade’, 2ª Ediç., prefácio): "Uma sociedade formada por um número infinito de indivíduos atomizados, que um Estado hipertrofiado se vê forçado a oprimir e conter, constitui uma verdadeira monstruosidade sociológica [...] Mais ainda, o Estado situa-se muito longe dos indivíduos; a sua relação com eles revela-se demasiado exterior e intermitente para penetrar profundamente nas consciências individuais e socializá-las por dentro [...]. Uma nação só poderá ser mantida se entre o Estado e o Indivíduo existir todo um conjunto de grupos secundários suficientemente próximos dos indivíduos para os atraírem decisivamente para a sua esfera de ação e os arrastarem, deste modo, para dentro da corrente geral da vida social. Acabamos de mostrar como os grupos ocupacionais estão vocacionados para assumirem este papel, e é esse o seu destino".

 

É óbvio que, neste novo rumo da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, a primeira e decisiva tarefa é mudar de métodos... A moderna e contemporânea Engenharia Social (social engineering) de natureza hegemônica e absolutamente mecanicista começou, reconhecidamente, a entrar num beco sem saída. A moderna contradição estrutural do processus social-societário-comunitário ressalta, cada vez mais, com toda a sua evidência, até porque a atitude científica e técnica moderna só foi possível mediante uma atitude de espírito que emergiu no Ocidente, de raiz individual-pessoal, a qual demandava cada vez mais espírito e espiritualização, níveis cada vez mais elevados de raciocínio concreto ® abstrato e, consequentemente, níveis mais elevados de causalidade física e social (cf. F. Fukuyama, ‘Confiança/Valores Sociais e Criação de Prosperidade’, Ed. Gradiva, Lisboa-1996, pp. 331-343).

 

Nos diálogos com Philippe Nemo, procurando explicitar a sua filosofia, estabelece Emmanuel Lévinas (in ‘Ética e Infinito’, Edições 70, Lisboa-1988, p. 69): "Mas é necessário compreender que a moralidade não surge, como uma camada secundária, por cima de uma reflexão abstrata sobre a totalidade e seus perigos; a moralidade tem um alcance independente e preliminar. A filosofia primeira é uma ética". Por quê? Em última análise, porque há realidades ‘não-sintetizáveis’. "O não-sintetizável por excelência é, certamente, a relação entre os homens. Também nos podemos interrogar se a idéia de Deus, sobretudo como Descartes a pensa, pode fazer parte de uma totalidade do ser, e se ele não é antes transcendente relativamente ao ser. O termo ‘transcendência’ significa precisamente o fato de não se poder pensar Deus e o ser conjuntamente. Da mesma maneira, na relação interpessoal, não se trata de pensar conjuntamente o eu e o outro, mas de estar adiante. A verdadeira união ou a verdadeira junção não é uma junção de síntese, mas uma junção do frente a frente" (idem, ibidem; o sublinhado é nosso).

 

É, efetivamente, na mesma ótica, que se pode e deve perceber a fundamentação última daquele célebre axioma de Teilhard de Chardin que emerge e coroa toda a sua Teoria da Evolução: "A união não confunde, diferencia"!

 

Enquanto não formos capazes de aceder a uma substantiva relação intersubjetiva entre os Indivíduos-Pessoas não seremos capazes de edificar uma Sociedade autenticamente Livre e Responsável. Escreve Lévivas (in ‘Totalidade e Infinito’, Edições 70, Lisboa-1988, p. 45): "O real não deve apenas determinar-se apenas na sua objetividade histórica, mas também a partir do segredo que interrompe a continuidade do tempo histórico, a partir das intenções interiores. O pluralismo da sociedade só é possível a partir desse segredo". Com efeito, "uma sociedade respeitadora das liberdades não poderia ter, pois, como fundamento simplesmente o ‘liberalismo’, teoria objetiva da sociedade que afirma que esta funciona melhor quando as coisas se deixam andar liberalmente. Semelhante liberalismo fará depender a liberdade de um projeto objetivo e não de um segredo essencial das vidas. A liberdade seria então totalmente relativa: bastaria que se provasse objetivamente a maior eficácia, no plano político ou econômico, de um dado tipo de organização, para que a liberdade ficasse sem voz" (Philippe Nemo, op. Cit., p. 71). Eis por que "é extremamente importante saber se a sociedade, no sentido corrente do termo, é o resultado de uma limitação do princípio de que o homem é um lobo para o homem ou se, pelo contrário, resulta de uma limitação do princípio de que o homem é para o homem. O social, com as suas instituições, as suas leis, deriva de se terem limitado as consequências da guerra entre os homens, ou de ser ter limitado o infinito que se abre na relação ética do homem com o homem?" (E. Lévinas, ‘Ética e Infinito’, p.72).

 

Situar-nos-emos apenas no 1° patamar, e não no 2°, da supra concepção dilemática do Social e da Sociedade, enquanto, ao Poder-dominação e à violência-agressão imperialística, não formos capazes de responder, como Gandhi, com a doutrina e o comportamento da não-violência e a implicada demanda da liberdade e da autonomia pessoais. Numa linha, de resto, convergente com a de Gandhi, tinha razão o pai da Teologia da Libertação, Gustavo Gutierrez, ao estabelecer a tese central (in ‘A Theology of Liberation’, Ed. Orbis, New York – 1991): "Amamos os opressores, libertando-os deles próprios. Mas isso só se pode conseguir optando decididamente pelos oprimidos, ou seja, combatendo as classes opressoras. Tem de ser um combate real e efetivo, não ódio". O que se traduz neste princípio de orientação pedagógico-político: não há meio termo (sócio-antropológico) entre o Poder-dominação d’abord e a Liberdade Responsável primacial e primordial . Diante do dilema tem de optar-se!... E, na nossa atual situação sócio-histórica estrutural, quem não optou, consciente e auto-reflexivamente, já se colocou, ipso facto, do lado da Cultura do Poder-dominação d’abord.

 

- E não se invoque um tertium datur, uma sorte de terceira entidade entre os dois opostos dilemáticos, entre as duas clássicas concepções da Sociedade: a do homo homini lupus e a do homo homini frater. O rousseauniano ‘estado de natureza’, como modelo antropológico e orientação psico-pedagógica (segundo a doutrina que o filósofo de Genebra defendia no Émile: ‘point d’autre livre que le monde, point d’autre instruction que les faits’), não se pode constituir, por definição, naquela terceira entidade, pelas simples razões de que não há fatos sem interpretações de fatos e a Natureza para o Homem é, acima de tudo, a da sua própria Racionalidade específica; e, por outro lado, um tal ‘estado de natureza’ não tem consistência filosófica suficiente para se contrapor, dilematicamente, ao pressuposto hobbesiano do homem lobo do homem.

 

Para se evitar equívocos, advirta-se que o contra-Poder ou anti-Poder e respectivas ideologias estão muito longe de ser sinônimos, sem mais, da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial.

 

Por isso também, se é legítimo discernir na mundividência ideossincrásica da Lusa Gente algum traço mais evidente e preponderante, é forçoso dizer-se (com João Barcellos, in ‘500 Anos De Brasil/ensaios: Os Descobrimentos; Sexo – No Poder Colonial; Das Minas Gerais Ao Universo Brasleiro; Tordesilhas – Os Dois Tratados’, Ed. Edicon, São Paulo – 2000, p. 23), que "os brandos costumes d’Alma portuguesa, como se comprova pelos atos em África, no Oriente e nas Américas, são inerentes mais ao Povo do que ao Poder". Muito raramente, ao longo da sua história, o Povo português foi ajudado pelo Poder estabelecido a cumprir os desígnios encerrados nesta proposição: "Há no sangue português uma mistura d’ almas e d’ engenhos que fez a Nação portuguesa nascer sob o signo da Firmeza e da Aventura..."(idem, ibi, p.6). A sabedoria luso-céltica ensinou ao Povo português essa muito característica e peculiar maneira de ser-estar que nos leva a concluir, em jeito de postulado, que a autonomia e a independência de cada um residem ‘no fator máximo retirado da ação conjunta que liberta um todo!’ (João Barcellos, in ‘O Outro Portugal’, Ed. Edicon, São Paulo – 2000, p.40). E é essa mesma sabedoria que nos faz descobrir ‘o outro Portugal, aquele da brava luta pelo direito de ser português e estar, assim mesmo, em qualquer parte do mundo sem a mesquinhez materialista’ (idem, ibi, p.43); esse outro Portugal, que ‘é essencialmente um país de fronteiras psicologicamente diluídas’, onde ‘a Diáspora é uma maresia de paixões e artes e novas raças’, de tal sorte que ‘os que estão na demanda de uma nova identidade pátria só mostram ao mundo esse lado que é o mais importante da tendência social portuguesa – a criação de novas realidades’ (idem, ibi, p.53). Ora, se ‘a falta de diálogo cultural fez o colonialismo’ (idem, ibi, p.55), o imperialismo, as hierarquias substantivas, a conquista e a dominação foram sempre a herança da Metafísica do Mesmo e do Uniforme, que à vera inovação e ao diferente sempre se opõe, e o produto fatídico do Poder estabelecido, em geral, e de toda a Cultura do Poder-dominação d’abord.

 

- Por último,convém saber que todos os seres vivos têm a sua escala própria de vida e sobrevivência; que a alta velocidade da Informação virtual de hoje não só alimenta o terrorismo do Poder estabelecido como, também, reduz os Humanos à uniformidade de clonados. O Poder diz que só há vida no centro, e cada vez menos até chegar às periferias!... A Liberdade Responsável dirá que ‘só há vida nas margens..." (Balzac). Cuidado, pois, com as miragens! Estamos com Paul Virilio

quando assevera: "O fato de estar mais próximo daquele que está longe do que daquele que se encontra ao lado é um fenômeno de dissolução política da espécie humana". Com efeito, "estamos a perder tanto o corpo próprio, em benefício do corpo espectral, como o mundo próprio, em benefício de um mundo virtual" (in ‘Cibermundo: a Política do Pior’, Ed. Teorema, Lisboa-2000).

 

Afinal, para que serve a Informação que hoje nos é metralhada em glaciares através dos mass-media?!... Dir-se-ia que o bem e o mal se tornaram inseparáveis, porque somos informados a respeito de ambos... No entanto, a avaliar pelas imagens televisivas, somos levados a concluir que, se a OTAN e (ao que parece) a opinião pública do Ocidente intervierem na Bósnia e no Kosovo para estancar o extermínio, no Ruanda, por exemplo, a ONU e o Ocidente nada fizeram para interromper a matança. Apostrofa, com razão, Sebastião Salgado: "Mas será que estar informado basta? Será que estamos condenados a ser meros espectadores? Será que temos como interferir no curso dos acontecimentos?" (in ‘Jornal de Letras’, 03.05.2000, Lisboa, p.7).

 

A estas magnas questões, só podem responder adequadamente Inteligências autônomas e personalizadas, que não abdicaram da Sensibilidade e da vera Experiência que as ligam aos outros e à T(t)erra mátria-pátria e, por esta via, aos cuidados a ter com o Planeta comum da Espécie Humana. Nesta linha – deve observar-se, em conclusão -, pensar globalmente e agir localmente, como hoje se propala em jeito de novo dogma, é ainda uma nova mistificação e um trap monumental, segregados pelos dois irmãos gêmeos: a Metafísica ocidental (com o seu cientismo fisicalista) e o Imperialismo socio-político-econômico...!

 

 

 

BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA DO AUTOR

 

Obras originais e colaboração diversa (em Revistas e Jornais) publicadas

 

 

 

1965 - O CRISTÃO NO MUNDO DE HOJE Col. ‘Convergências’, Ed. Moraes, Lisboa (livro proibido e apreendido no regime fascista).

1968 - PARA UMA MORAL NOVA DA REGULAÇÃO DA NATALIDADE (fora de Col.) Ed. Moraes, Lisboa.

1969 - IGREJA SEM CRISTIANISMO OU CRISTIANISMO SEM IGREJA?! Col. ‘Linha de Risco’, Ed. Moraes, Lisboa (livro proibido e apreendido no regime fascista).

1970 - IGUALDADE RADICAL PARA A MULHER (de colaboração com outros autores) Ed. Liv. Almedina (Col. ‘Nova Cultura’), Coimbra (livro proibido e apreendido no regime fascista).

1983 – DIREITOS E DEVERES CULTURAIS na inicial e revista Constituição da República e alguma reflexões a propósito, na Rev. ‘Escola (h)ora Viva!’, N°1 (Assoc. Professores de Guimarães); colaboração diversa no jornal escolar ‘Pontos ii’ (Assoc. Estudantes do Magistério Primário, Guimarães); SOCIALIZAÇÃO DO E PELO CINEMA, no opúsculo ‘Cine-Clube de Guimarães – 25 Anos’.

1984 – ALGUMAS QUESTÕES SOBRE A NATUREZA DA BANDA DESENHADA, no opúsculo ‘Considerações Em Torno Da Banda Desenhada’ (Circulo de Arte e Recreio, ‘IV Semana BD’).

1984/85 - TEMAS E PROBLEMAS SOBRE EDUCAÇÃO E ENSINO EM PORTUGAL (estudo publicado no ‘Boletim Inter-Escolas’- Abril/1985, Guimarães).

CAMELO OU ANIMAL POLÍTICO?, ensaios políticos e culturais (aguardando publicação).

CONTRA A ‘CLASSE POLÍTICA’, textos de intervenção (aguardando publicação).

1989 – CRÍTICA DO ‘ACORDO ORTOGRÁFICO’ DO RIO Estante Ed., Aveiro.

1990 – FLASHES SOBRE A ESQUERDA NESTE FINAL DE SÉCULO (Crises do PCP e da Modernidade incluídas) Estante Ed., Aveiro.

NÃO APAGUEM AS LUZES! Estante Ed., Aveiro.

ESTUDOS DA PSICO-PEDAGOGIA E POLÍTICA EDUCATIVA Estante Ed., Aveiro

CARTA ABERTA À ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA A PROPÓSITO DO ‘ACORDO ORTOGRÁFICO’ (no prelo)

SOCIALISMO... QUE FUTURO?! (no prelo)

1992 – A FALSA QUESTÃO ATEÍSMO-TEÍSMO / CRÍTICA NECESSÁRIA A JOSÉ SARAMAGO Estante Ed., Aveiro.

1993 – AS MÁSCARAS DE DEUS... (DEUS EXISTE COMO?!) Estante Ed., Aveiro.

NOVO MODELO DE AVALIAÇÃO PARA A ESCOLARIDADE OBRIGATÓRIA (em vez do discurso louvaminheiro... o discurso crítico que é preciso!) Estante Ed., Aveiro.

1996 - A ‘REFORMA EDUCATIVA’ EM PLANO INCLINADO... Estante Ed., Aveiro

SISTEMAS EDUCATIVOS: para quê?!... (no prelo)

1997 – REGIONALIZAÇÃO: o que não foi dito! Estante Ed., Aveiro.

A FAMÍLIA, A ESCOLA E O INSUCESO ESCOLAR (no prelo)

O OCIDENTE DE SÓCRATES E JESUS (em preparação)

1998 – FIAT LUX! Sobre o novo Regime Disciplinar dos Alunos e o Regime de ‘autonomia’ das Escolas Profedições, Porto.

LINGUAGEM / POESIA / MÚSICA (no prelo)

HIPOTECAS GRAVES DA CULTURA OCIDENTAL (no prelo)

 

 

Bibliografia Referenciada

 

Livros

- AGAMBEN, Giorgio: O Poder Soberano e a Vida Nua / Homo Sacer, Ed. Presença, Lisboa-1998.

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(Org. de Adelino Cardoso) Lisboa-1999.

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500 Anos De Brasil / ensaios, Ed. Edicon, São Paulo-2000.

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- HISTÓRIA e NOVA HISTÓRIA, de G. Duby, P. Ariès, E. L. La Durie, J. Le Goff, Ed. Teorema, Lisboa-1986.

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(Há trad. Port. Das Edições 70, de 1988).

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- LYOTARD, J.F.: La Condition Post-moderne, Minuit, Paris-1979 (Trad. Port. Gradiva, s/d).

O Pós-Moderno Explicado às Crianças, Pub. D. Quixote, Lisboa-1993 (3ª Ediç).

- MARTIN, Hans-Peter e SCHUMANN, Harald: A Armadilha da Globalização / O Assalto

à Democracia e ao Bem-Estar Social, Ed. Terramar, Lisboa-1998.

- MUMFORD, Lewis: The Story of Utopias, Boni & Liveright, New York-1922.

- NOVO TESTAMENTO e ANTIGO TESTAMENTO.

- POPPER, Karl e LORENZ, Konrad: O Futuro Está Aberto, Ed. Fragmentos, Lisboa-1990.

- REIS, Manuel: Hipotecas Graves da Cultura Ocidental (1999, no prelo).

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- SANTOS, Boaventura de Sousa: A Crítica da Razão Indolente (Contra o Desperdício

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Introdução a uma Ciência Pós-Moderna, Afrontamento, Porto-1995.

Pela Mão de Alice / O Social e o Político na Pós-Modernidade,

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Um Discurso Sobre as Ciências, Afrontamento, Porto-1990 (4ª Ediç.).

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O Existencialismo é um Humanismo (pref. e trad. Vergílio Ferreira), Presença, Lisboa-1962.

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- SOROMENHO-MARQUES, Viriato: Razão e Progresso na Filosofia de Kant, Ed. Colibri, Lisboa-1998.

- SOROS, George: The Crisis of Global Capitalism, Little Brown and Company, London-1998.

- TIME-LIFE BOOKS, Col. ‘Myth and Mankind’: The Eternal Cycle / Indian Myth, London-1998.

- VIRILIO, Paul: Cibermundo: A Política do Pior, Teorema, Lisboa-2000.

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- WARNIER, Jean-Pierre: A Mundialização da Cultura, Ed. Notícias, Lisboa-2000.

 

 

Revistas e Jornais

- A Página

- Business Week

- Expresso

- JL (Jornal de Letras, Artes e Idéias)

- Le Monde Diplomatique

- Newsweek

- Seara Nova