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MANUEL REIS
EM TORNO DAS NOVAS TECNOLOGIAS E DA NOVA ECONOMIA As Duas Irmãs Siamesas No Contexto Do Capitalismo Neoliberalista Pós-Moderno, Ou Seja, Do Capitalismo Para Todos!...
A UTOPIA NECESSÁRIA CAPAZ DE TORNAR POSSÍVEL O QUE PARECE IMPOSSÍVEL
Índice
- Textos em exergo para enquadramento 1. - Contra o fatum e a Divindade Idolotrada do Establishment, o Rearmamento Ético e Moral 2. - Clonagem humana à vista!... As hipotecas do Teísmo... 3. - Os dois paradigmas da Modernidade, que se têm ignorado reciprocamente: o da Revolução científico-técnica e o da Revolução social 4. - Os Estados são chamados a assumir as suas responsabilidades para uma verdadeira mundialização; eles não se dissolvem nem se extinguem tão depressa, em suposto benefício da Sociedade Civil. Hão de ser, ainda, o baluarte de uma Ética antropológica consequente! Reconstrua-se a vera Modernidade a partir da Kant. 5. - Ultrapassar é preciso, a conhecida controvérsia canônica entre Modernidade e Pós-Modernidade. As duas Revoluções modernas (a científico-técnica e a da economia capitalista) são uma só, porque nasceram e cresceram sob o mesmo signo prometeico da Conquista e do Poder-dominação dabord. 6. - As magmas Questões decorrentes da Cultura do Poder-dominação dabord têm de ser adequadamente equacionadas e resolvidas. 7. - A odisséia da Cultura da Liberdade Responsável e a difícil emergência do vero Projeto Socialista. 8. - A nova Ideologia não-ideológica da Tecnociência e da Tecnocracia!... A Esquerda ou esquerdas calaram-se?!... 9. - Como se formou historicamente o soft fascismo sócio-tecnológico de hoje. 10. - O contemporâneo processo de globalização e os humanos da Sociedade de amanhã. 11. - Em busca de Fundamentos... 12. - Fundamento religioso e fundamentalismo tecno-científico: duas doenças geminadas. 13. - É preciso criticar em profundidade o atual processo de globalização... É necessário erguer a bandeira da globalização da Solidariedade humana. 14. Demandar a Utopia é ultrapassar o velho dilema entre apocalípticos e integrados!
DISCUTIR FILOSOFICAMENTE O QUE SOMOS A Propósito De Um Ensaio De Manuel Reis
Uma lição de grandeza filosófica... Tendo por base uma leitura sobre o trabalho filosófico de Boaventura de Sousa Santos a propósito de uma entrevista concedida por aquele ao Jornal de Letras - semanário cultural lisboeta, o professor e escritor Manuel Reis alerta-nos para o fascismo social que a globalização e o tecnicismo politicamente engajado carreiam em seus sistemas de dominação socioeconômica.
Eu pensei, muitas vezes, que nos idos Anos 60 tínhamos encontrado a contra-Cultura que iria ser a alternativa ao antropocentrismo ocidental, esse sinal anti-civilizatório embasado na visão do Poder-dominação tão amado e abençoado pelo Papado cristão (e os outros!), mas conseguimos unicamente dar mais força ao Establishment... E até os revolucionários marxistas foram atraídos por esse Poder que os fez bestas da Tirania em vez de arautos da Liberdade como aconteceu na URSS e acontece, ainda, em Cuba e na China!
Os limiares espaço-temporais do Existencialismo espelham uma Realidade (quotidianidade) religiosa? Se é assim, o Tecnicismo - e a Ciência do Consumismo - é uma via aberta para a (nossa) auto-destruição? Nas duas Revoluções (a social e a tecnológica), que vivemos, balançamos sobre o abismo do Eu que, já agora, recusa-se à filiação ideológica... que, também ela a Ideologia, virou cliente do Consumismo! Ora, sinto na alma e no corpo, e creio que posso afirmar sentimos, que o tecnicismo desumaniza, gera escravidão pela alienação embasada no mero consumir, e, domina politicamente tendo como instrumento o fascismo social: instrumento mais fácil de manejar do que aquele político-militar-policial que os nazis impuseram ah, instrumento que Salazar (em Portugal) e Franco (na Espanha) souberam aliar aos desígnios obscuros e inquisitoriais da Igreja católica e, daí, exerceram socialmente uma Ditadura socio-religiosa por meio século! A atitude antropocêntrica da Cultura ocidental é resultado da mística do Cristianismo institucionalizado que, renegando Jesus o guia espiritual (cristo), aquele que reconhecemos (e temos como nosso!) dos Manuscritos do Mar Morto -, tornou-se um Poder imperialmente romanizado que, no mínimo, fere a própria Humanidade... aliás, como toda e qualquer entidade religiosa fechada ao Fraternalismo, isso, que muitos chamam de... Utopia! Ora, em si, a Tecnologia (e toda a Ciência) é um meio de Progresso humano, não a chave política para a criação do Poder-condomínio que gera o Rico sonegando o suor e a riqueza produzida pelo Pobre; ela tem de ser encarada sob a ótica de uma Ética ambiental que permita a (sobre)vivência do Eu e da Sociedade no contexto cósmico-berçário que (nos) é a Terra e pela defesa (e discussão aberta) de uma autêntica Filosofia ecológica! Ou será que existimos por existir...?!
Bento Prado Jr., em entrevista à Folha de S. Paulo (Cad. Mais), de 25.06.2000, opina o seguinte: "O tecnicismo é mortal para a filosofia; o coeficiente de tecnicidade da filosofia é inversamente proporcional ao coeficiente de significação e de interesse; aquilo que configura hoje o seu mainstream, que é de inspiração analítica, corresponde a um esvaziamento total da filosofia". Ao ler essa opinião do conhecido intelectual brasileiro lembrei-me, logo, que o Brasil (com sociólogo na Presidência...), como a Argentina e a Colômbia, são exemplos chocantes do Poder-condomínio (enquanto satélites das superpotências agregadas ao "G-7") que despreza a epistemologia tão cara a intelectuais como os portugueses Manuel Reis e Boaventura de Sousa Santos, ou Agostinho da Silva (este, de grandiosa Obra socio-pedagógica no Brasil). O que está em causa não é a Ciência mas a linha tecnocrática engajada à riqueza assumida politicamente pelas élites que se sustentam com um fascismo social de envergadura mundializada... Por isso, é importante discutir as duas Revoluções (a social e a tecnológica), como o faz Manuel Reis (in Em Torno Das Novas Tecnologias E da Nova Economia, ensaio, Portugal, 2000) tendo os estudos de Boaventura de Sousa Santos (em particular, A Crítica Da Razão Indolente) como foco.
O longo caminho de crítica aberta (e construtiva) de Manuel Reis, de que Em Torno Das Novas Tecnologias E Da Nova Economia prova-nos exatamente isso, é, sem dúvida, uma lição de grandeza filosófica pela alternativa social e comunitária que (nos) oferece. João Barcellos
TEXTOS EM EXERGO PARA ENQUADRAMENTO
1.
CONTRA O FATUM E A DIVINDADE IDOLATRADA DO ESTABLISHMENT, O REARMAMENTO ÉTICO E MORAL.
Ser utópico é a maneira mais consistente de ser realista no final do século XX (Boaventura de Sousa Santos).
Quem não é pelo comum não é por nenhum (Povo da antiga aldeia comunitária de Vilarinho das Furnas, aldeia que foi soterrada para, em seu lugar, construir uma barragem-albufeira).
O mote foi-nos fornecido pela entrevista de B. S. S. ao JL (5.4.2000, pp.18-20), a propósito do seu livro A Crítica Da Razão Indolente.
De todos os filósofos modernos (e pós-modernos) que se empenharam e embrenharam na Crítica da Razão e da Racionalidade Filosófica, Científica, Teológica ou Tecnológica, o que, na nossa perspectiva, mais acertou e cuja obra, pesem embora todas as críticas e vicissitudes sofridas, ainda se mantém válida e fecunda foi I. Kant, com as suas três Críticas, justamente celebradas: Kritik der reinen Vernunft (Crítica da Razão Pura), Kritik der praktischen Vernunft (Crítica da Razão Prática) e Kritik der Urteilskraft (Crítica do Juízo). A essa trilogia há que adicionar, para que a mundividência kantiana fique substancialmente completa, Grundlegung zur Metaphysik der Sitten (Fundamento da Metafísica dos Costumes) e Die Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft (A Religião Dentro Dos Limites Da Razão Natural).
O empreendimento sartreano da Critique de la Raison Dialectique (edit. em 1960) já está muito longe de ter, filosófica e histórico-culturalmente, o mesmo brilho e a mesma fecundidade sócio-antropológica que grangeou a obra de Kant. Na obra de B. S. S. (autor que, por outros trabalhos anteriores, alguns deles pioneiros, nos habituamos a apreciar e a ter na melhor conta), receamos que ele esteja a apostar no que chamamos, hoje, o cavalo errado... Mas não gostaríamos de fazer juízos de intenção. A obra anunciada de Boaventura de Sousa Santos distribui-se por 4 vols., de que acaba de sair a público o 1° em torno do tema Para um novo senso comum: a Ciência, o Direito e a Política na transição paradigmática (Ediç. Afrontamento, Porto/2000). No título geral da obra pode ler-se A Crítica da razão indolente e, em subtítulo, Contra o desperdício da experiência. Neste último enunciado se polarizou a nossa atenção maior.
Provavelmente, anda muita gente equivocada... Quando, na verdade, a gramática epistémica e metodológica de funcionamento e operatividade do hemisfério das ciências sociais e/ou humanas continua a ser substancialmente a mesma que se aplica no hemisfério das ciências físico-naturais, como se poderá falar de desperdício da experiência se nem sequer há lugar, aí, para a vera e autêntica experiência?!... Por isso, os investigadores e os cientistas sociais muito raramente recorrem a esta fonte de conhecimentos e de informação. Prometemos, contudo, que vamos ler atentamente e estudar (com a semântica prenhe do verbo latino studere) esta nova obra de B. S. S. como, de resto, já fizemos com as anteriores, que temos acompanhado com todo o interesse e grande expectativa. É, de resto, atraente e sedutor o que se lê na orelha esquerda da capa do 1° Vol. da obra em causa: "O objetivo desta obra é desenvolver epistemologias e teorias sociais que ponham travão à proliferação da razão cínica, que alimentem o inconformismo contra a injustiça e a opressão e, por fim, que permitem reinventar os caminhos da emancipação social. Para subverter a hegemonia de que ainda usufruem a ciência e o direito modernos, recorre-se frequentemente a uma tradição marginalizada de modernidade, o pensamento utópico". Nesta linha, saudamos vivamente o que estabelece B. S. S. no Prefácio Geral (p. 16): "A tese defendida neste livro é que deixou de ser possível conceber estratégias emancipatórias genuínas no âmbito do paradigma dominante, já que todas elas estão condenadas a transformar-se em outras tantas estratégias regulatórias".
Com efeito, nestes tempos de sombria depressão, provocada em última análise por um certo eclipse da Razão, melhor, desencadeada por uma Racionalidade tecnológica/imperialista que, na sua loucura prometeica, se cindiu da sensibilidade humana mais elementar, - do que estamos a precisar é de saber contrariar (democrática e individual/coletivamente) o destino, o fatum islâmico e a anankè helênica (de importação egípcia e médio-oriental, pérsica em especial); precisamos de contrariar o establishment convertido em Divindade idolatrada. E uma tal façanha ciclópica só pode ser levada a efeito mediante a afirmação, corajosa e desassombrada, das diferentes e múltiplas Vontades livres e responsáveis, através do alevantamento cotidiano e revolucionário (na sua capacidade de resistência) de um verdadeiro Rearmamento Ético e Moral. Precisamos, pois, de algo semelhante à ghandiana Resistência não-violenta contra o paradigmático imperialismo britânico nas Índias e nas Áfricas. Isto não se promove nem se alimenta com a simples crítica de uma Racionalidade (moderna e predominantemente tecnológica) reconhecidamente indolente e, pior ainda, sobranceira e cínica, como é toda a Racionalidade moderna e pós-moderna, perante os mais comezinhos e elementares problemas humanos que, por sê-lo, assumem logo, ipso facto, o seu indelével caráter moral.
Ao proceder à Crítica da Razão Dialética, também Sartre apostou no cavalo errado, visto que a sua denúncia se polarizava no campo da Racionalidade objetiva/objetivista marcado pela instância da uniformidade e pelo monologismo, onde a grelha epistemológica de análise não é outra, em última instância, senão a do determinismo fisicalista, próprio das ciências físico-naturais. Ainda que se continue a protestar, solenemente, o axioma básico do Existencialismo: a Existência precede a Essência! Essa dialética, essa racionalidade dialética, com que indevidamente continuam a trabalhar as ciências sociais e/ou humanas, é denunciada e criticada, com toda a justeza e justiça, por Sartre, mas só parcialmente... Ora, em termos positivos e fecundos (não apenas negativos e ainda sobranceiros e pouco honestos...), aquilo de que precisamos é de uma dialética dialógica, onde a própria elaboração dialógica dos conceitos (filosóficos e científicos) seja feita à boa e justa maneira de Sócrates e da sua maiêutica interrogativa, indiscutivelmente fecunda e inultrapassavelmente democrática, porque nesse mesmo processus é o mestre que devém discípulo e o discípulo mestre.
Ao longo de uma Tradição cultural de mais de dois milénios e meio, Filosofia, Teologia, Ciências e Tecnologias, em suma, a Razão e a Racionalidade monológica (sempre estigmatizada pela Cultura do Poder-dominação dabord) desenvolveram-se estrondosamente, ao ponto de ameaçarem seriamente a sobrevivência do Ânthropos e da Espécie Humana, tal como a conhecemos e a projetamos enobrecida no Futuro. Os costumes, o comportamento, a moral, a ética, a sensibilidade e a experiência, - tudo isso ficou hipertrofiado pelos dogmas das Ideologias dominantes, tudo isso ficou emparedado, aprisionado, às mãos da sempiterna Cultura do Poder-dominação d abord que, em todas as iniciativas emergentes da Liberdade Responsável por parte dos Indivíduos singulares e concretos, viu o pária, o estrangeiro/bárbaro, o assalto à fortaleza real pelas sombrias forças exteriores de Satanás e seus cúmplices... Sócrates, os filósofos estóicos, o vero e autêntico Jesus (algum do qual também perpassa nos Evangelhos canónicos), a bondade e a fraternidade de Francisco de Assis o poverello dAssisi, Pascal, Kant, Paul Ricoeur e a sua refundição do Justo e da Justiça, em suma, abrir positiva e definitivamente o Caminho da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, contra a sempiterna e ainda preponderante Cultura do Poder-dominação dabord, - eis a linha certa daquilo que hoje precisamos, como conditio sine qua non de salvaguarda e sobrevivência da Humanitude (ou qualidade da Humanidade).
É, afinal, a face oculta da História do Ocidente que precisa ser revelada e conhecida, assimilada e vivida: a outra face da Filosofia, e das Teologias, e das próprias Ciências. É essa a Metafísica que importa descobrir e praticar; a metafísica da Virtude e da ação Justa. E, nesta ótica há que reconhecê-lo -, o helênico caráter intelectual da Virtude (não sendo embora errado teoricamente), ajuda-nos muito pouco, na prática; pior, cega-nos, graças à convicção que ele nos injeta na consciência de que a lógica e o determinismo do verdadeiro são suficientes para nos tornar bons e justos.
Foi por tudo isto que, nos Tempos Modernos, ao longo destes quatro séculos de capitalismo, se foi criando o dogma/convicção generalizada de que os problemas da distribuição da riqueza, os problemas sociais da miséria e da pobreza seriam a seu tempo resolvidos mediante o mero crescimento económico medido em termos estatísticos de PIB (de cada Estado ou Estado-Nação). Sempre a apostar no mundo do supostamente Objetivo e da Objetividade, como alavanca de Arquimedes para todo o Saber e toda a Prática eficientes da humanitude a Filosofia (sistemática) e as Ciências (primeiro, especulativo-dogmáticas; depois, positivas e experimentais, mas sempre ao serviço do Poder estabelecido, não das Liberdades Responsáveis dos Indivíduos-Pessoas concretos) obliquaram, esqueceram e puseram de parte as regiões subterrâneas ou montanhosas das Vontades livres-responsáveis dos Indivíduos-Pessoas (os indivíduos que delas davam testemunho mas que foram ignorados ou votados ao ostracismo; os heróis que se destacaram pelos seus feitos e que os Poderes estabelecidos não puderam ignorar, mas sempre procuraram manipular e utilizar em seu proveito!...).
Quem não é pelo comum não é por nenhum!, como pensava justo e em profundidade o Povo comunitário de Vilarinho das Furnas. O banal e trivial, comum de Lineu, seria apostrofar: quem é pelo (bem) comum não é por nenhum (indivíduo). Sempre, no lastro, a eterna oposição metafísica/imperialista (de guerra aberta e ordália de morte) entre o Indivíduo e a Comunidade/Coletividade!... É esta metafísica ontológica que, para subsistir, tem de hierarquizar inexoravelmente: é essa metafísica que nos mata fisicamente e nos hipertrofia psicologicamente!
Ser pelo comum é ser, positivamente, por todos; por isso, quem não é pelo comum auto-excluiu-se da comunidade. Não precisou de ser excluído pelo Poder estabelecido, o qual, enquanto primacial e primordial, é sempre e impreterivelmente paternalista. Assim, ao afirmar um tal axioma, o Povo comunitário de Vilarinho das Furnas protesta uma vera Experiência personalizante e identitária e, ao mesmo tempo, proclama uma Cultura humanista verdadeiramente (não falsamente) alternativa: a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial (contra a tradicional e imperialista Cultura do Poder-dominação dabord).
Eis por que, hodiernamente, carecemos muito mais de um vero rearmamento/saneamento Ético e Moral, capaz de erguer identitariamente as consciências psicológicas e morais das pessoas levando-as à Indignação e ao Protesto, à Resistência, em suma, contra tudo o que achem justamente mal, quer do ponto de vista técnico-científico quer do ponto de vista ético-moral. Carecemos muito mais disso do que de mais himalaias de ciência e tecnologia, de perder inveteradamente cientista/positivista, susceptiveis de virem a dar-se por satisfeitos com as críticas e as denúncias (que nós, em âmbito manifestamente limitado, até subscrevemos) da indolência e do cinismo da Razão, com as críticas do mundo objetivo-objetual, onde se encontram situados, por definição, o saber científico e a investigação tecnocientífica. Se, em todo o caso, não se levar na devida consideração todo o vero mundo Filosófico e Subjetivo, da Axiologia, da Ética e dos Valores e, bem assim, toda outra maneira alternativa de fazer, inclusivamente, Ciência e Filosofia, então nada feito, e os objetivos finais (estratégicos) resultarão gorados.
Como é já sobejamente sabido (pelo menos desde Husserl, e o início do movimento humanista da Recuperação do mundo da vida - Lebenswelt - e da experiência), é esse horizonte (e caminho...) do pretendido e pretensamente objetivo-objetual que põe o Sujeito humano individual entre parênteses (faz a epoché husserliana do sujeito); é, efetivamente, esse horizonte e caminho que leva aos conhecidos lugares comuns e àquela doutrina vulgata, adotada pelo discurso corrente, que leva os populares a comportarem-se perante o Governo e o Poder estabelecido segundo a cartilha estereotipada: Nós não somos políticos; não queremos meter-nos na política: nem defendemos o Governo, nem a Oposição ou as Oposições!... A Sibila diria, antes: Com a minha saia preta, eu nunca me comprometo!... Neutralidade como a Moral suprema do bom comportamento político. Agostinho da Silva estava cheio de razões e de Vontade revolucionária quando proclamava: É a submissão e a obediência dos povos que gera a tirania dos Governos!... É a submissão e a obediência ao status quo e aos Poderes estabelecidos não se esqueça isso são aprendidas e ensinadas na Escola da Neutralidade e da suposta objetividade políticas! Neste sombrio e tenebroso mundo da Cultura do Poder-dominação dabord como poderão os indivíduos-pessoas e os cidadãos libertar-se do fatum, do destino, dessa anankè helênica erigida em Divindade geminada e idolatrada com o Poder estabelecido? Ao optar por beber a cicuta, em vez de fugir da Pólis, Sócrates deu a si próprio e aos outros a prova suprema da sua Liberdade Responsável perante as Divindades/Poderes da cidade de Atenas; como, de resto, Jesus, ao aceitar a sua condenação à morte perante o Sinédrio judaico e o Poder romano de Pilatos, que atuaram de mãos dadas.
De tudo os Humanos se servem para constituirem Divindades e erguerem Tronos em sua adoração. Hoje, é o Mercado que predomina como Divindade absoluta nesta atmosfera corrosiva e corruptora/corrupta de neoliberalismo planetário, em nome da propagandeada globalização neocapitalista. E a maior parte, a quase totalidade dos adultos de hoje comportam-se como crianças, com todas as suas liturgias e ritualismos, e de boa mente prestam culto à nova Divindade idolatrada. Acreditam em tudo... menos no vero Deus que têm ou teriam presente (?!...) no mais íntimo e profundo das suas próprias consciências pessoais. Pelo menos desde Kant aprendemos a distinguir e a não confundir a Sociedade Civil com o Estado. Mas estamos longe de identificar devidamente toda a amplitude e profundidade da Cultura do Poder-dominação dabord que, na mascarada carnavalesca, continua, tantas vezes, a dissimular a Cultura da Liberdade...
Não precisamos, no atual contexto societário, a todas as escalas (desde a local, regional e nacional, até à internacional e mundial), de mais e muito melhor e acerado Ateísmo crítico e espírito iconoclasta, para subverter e conduzir à ruína todos os falsos Deuses que por aí pululam! É que enquanto não se operar este saneamento psiquico-espiritual, a nossa crítica social, dos aparelhos societários e organizativos, continuará a errar o alvo; continuaremos a não ser capazes já enquanto indivíduos já enquanto coletivo de assumirmos a nossa Liberdade a nossa correlativa Responsabilidade de cidadania e de criação do Mundo, à medida dos Humanos e do Humano todo em todos os Humanos.
2.
CLONAGEM HUMANA À VISTA!... AS HIPOTECAS D TEÍSMO.
Recentemente, os media virtuais e da Imprensa escrita fizeram-se eco da descoberta iminente do mapeamento completo do Genoma Humano. Dir-se-ia que, a partir daí, a Engenharia Genética e as multi-transnacionais do setor da biogenética poderão empreender, demiurgicamente, o que muito bem entenderem, substituindo-se aos poderes onipotentes do Eterno e ignorando, nas costas dos Humanos, as Vontades livres e responsáveis dos indivíduos-pessoas. A clonagem propriamente dita, ou seja, a reprodução a papel carbono de cópias do mesmo tipo/padrão, pela via trans-sexual, será um fato vulgar e generalizado num futuro próximo...
Dizem alguns que, para já, só querem clonar orgãos singulares e específicos, dentro das finalidades exclusivamente terapêuticas, para substituir orgãos doentes. Outros, mais arrojados e sobretudo gananciosos (!...) não se importam de clonar indivíduos inteiros argumentando que a clonagem já é feita pela própria Natureza, muito naturalmente, através dos casos dos gêmeos uniovulares ou homozigóticos!
A União Européia acha-se na linha dos primeiros; os EUA na linha dos segundos. De fato, uma vez que, para os EUA, o Mercado é a Divindade suprema, e o Lucro (empresarial, laboral, institucional) o motor de tudo, explica-se bem a orientação insensata de não limitar nem condicionar a liberdade de pesquisa e investigação, ainda que seja por motivos éticos e morais. Assim, nos EUA, esperam, cândida e inocentemente, que seja o Mercado a decidir em questões substantivas de Ética e Moral!... Como se, realmente, fosse o Mercado a decidi-lo e não o Monopólio. O Mercado é apenas o cavalo de Tróia... Admite-se, assim, que as empresas privadas (se não as próprias instituições públicas) estilhassem os princípios e as regras da Ética e da Moral. Haverá absurdo maior?!... Tudo em nome do sacrossanto princípio do Lucro dabord e do mais hediondo Egoismo. Entretanto, é o próprio alto-financeiro Georges Soros a desabafar, depois da volumosas perdas recentes, nestes termos: "Maybe I dont understand the market"! (Cf. News-week, 8.5.2000, p. 15).
Na Europa, por enquanto (!...), a investigação da Biogenética e os processos de clonagem ainda se encontram, aparentemente, condicionados aos fins terapêuticos e são conduzidos por organismos públicos, por definição legitimados e criteriados pelas Autoridades Públicas. Até quando?! Nesta atmosfera moderna e pós-moderna de uma hybris desmedida é difícil que essa Reserva se mantenha por muito mais tempo!... O que falta, entre outras coisas, aos EUA, à sua mundividência e ao american way of life, em confronto com a Europa, são boas cargas de ateísmo crítico e prático para que especialistas e público em geral possam fazer o percurso sócio-antropológico da Liberdade responsável (individual e coletivamente), e não se contentem com a mera liberdade de arbítrio, que é perfeitamente suficiente para o Mercado, tal como o capitalismo o promoveu e conhece, mas não basta para a vida e o assumir das funções e das responsabilidades correspondentes. É sabido que a liberdade de arbítrio pressupõe sempre a possibilidade da transgressão; pressupõe sempre um patrão, um dono e senhor! Não deixa de ser sintomática e significativa a proporção: enquanto os EUA vão mantendo, no seu barroco caldo de cultura onde é possível misturar o mais retrógrado e o mais progressista -, cerca de 75% de crentes e teístas, o Reino Unido e a Europa, em geral, inverte a porcentagem e dá-nos 25% de crentes e 75% de ateus e agnósticos.
Precisamos, em termos sócio-antropológicos, de cada vez mais ateísmo crítico, visto que já não vivemos nas Idades em que se pressupunha, como necessária, a crença em Deus, para fundar e justificar a Moral e a moralidade. O ateísmo crítico tornou-se necessário justamente para fundar e firmar as responsabilidades sócio-antropológicas e não mais permitir desculpas e desleixos nestas matérias fundamentais da vida humana enquanto humana. A própria Religião (institucionalizada) já não é necessária para fundar a Moral e a moralidade; mais: ela tornou-se perigosa porque é servida e expressa em leis e liturgias humanas. (A propósito, vd., o livro de Ludovic Kennedy: "All in the Mind (A Farwell to God)", Hodder & Stoughton, London, 1999, especialmente, Cap. 8: The First Atheists 1540-1840 (pp. 163-208): Cap. 9: Darwin and After (p. 209-235); Cap. 10: The Twentieth Century (pp.237-260).
3.
OS DOIS PARADIGMAS DA MODERNIDADE, QUE SE TÊM IGNORADO RECIPROCAMENTE: O DA REVOLUÇÃO CIENTÍFICO-TÉCNICA E O DA REVOLUÇÃO SOCIAL.
Voltemos a casa, para acompanhar agora, com algumas glosas críticas, o texto da referenciada entrevista de B. S. S. ao Jornal de Letras (JL) citado.
Procurando contrariar a perspectiva do fatum islâmico, que estabelece que é o destino que decide os eventos e as coisas e não há outra solução, o autor assevera que "hoje, há outras formas de destino assim. A economia neo-liberal, por exemplo, é tida como uma forma de destino. Mas penso que há alternativas"(ibi, p. 18). Nós diremos, antes, em nome do caráter exterminador e contraditório e absurdo do neoliberalismo capitalista contemporâneo e do realismo crítico da Utopia, que tem mesmo de haver Alternativa.
B. S. S. evoca um tema que lhe é caro (e a nós também) e faz parte integrante do núcleo duro de um Projeto Socialista digno do nome: o movimento cooperativista. E desenvolve uma temática que constitui o nó-górdio da sua investigação científica: a das mudanças de paradigmas na evolução histórico-epistemológica da Ciência, ao longo dos tempos, tirando partido da obra célebre de Thomas Kuhn "As Estruturas Das Ciências" (1962), a qual privilegiou, como é sabido, na história e na evolução das Ciências, as rupturas (dos paradigmas vigentes e oficiais) em lugar das linhas de continuidade. Ele tem toda a razão e vê fundo, quando assevera e defende em tese central: "Neste período de transição de paradigmas vai haver duas grandes lutas: por uma mais democrática distribuição da riqueza mundial e pela aceitação da diferença, ou do que chamo de multi-culturalismo progressista" (p. 19).
As sociedades capitalistas ocidentais formaram-se e constituíram-se, na sua coluna dorsal, durante os Sécs. XVI a XVIII, mediante os produtos operativos e os contributos ideológicos de dois paradigmas oficiais das Ciências: o da ciência moderna e, primacialmente, das ciências físicas, positivas e experimentais, cujo percurso é assinalado por figuras como Copérnico, Galileu, Newton, etc.; e o do capitalismo moderno, ancorado num paradigma de ciência econômica que foi moldado segundo a grelha das ciências físicas. Serão dois paradigmas distintos ou um só? A questão não é nada despicienda. B. S. S. fala aí de dois paradigmas e deixa o leitor da entrevista a perceber que se trata de dois paradigmas distintos tendo em atenção, porventura, os objetos supostamente bem diferenciados nas respectivas áreas científicas... Todavia, na realidade, não se trata, criticamente, de dois paradigmas, mas de um só, tendo em conta que ambos são comandados pela mesma metodologia e pela mesma ideologia (cientista-fisicalista, objetiva-objetualista) construtora de uma latente primeiro , e patente depois -, Divindidade idolátrica, a qual veio destronar (dos céus da teologia e as religiões institucionalizadas) o Deus cristão antigo e medieval. Tudo se encontra entrosado e interrelacionado no mesmo e um só mundo humano na História do Ocidente.
Não foram cumpridas, efetivamente, as promessas do paradigma científico, designadamente a da Racionalidade da vida individual e da vida coletiva; como também não foram cumpridas as promessas da ordem e do progresso dentro de um mundo ordenado, do lado do paradigma do capitalismo moderno. Nem poderiam sê-lo: fundamentalmente, porque o princípio do Lucro (capitalista: a lei do Lucro...) foi erigido num absoluto, e, concomitantemente, os Valores, bem como a Ética e a Moral sociais e individuais, foram banidos do campo sócio-humano e das organizações estruturais da Sociedade. O autor chega a admitir, entre parênteses, que "os dois paradigmas estão imbricados", a partir do pressuposto de que "onde há ordem há progresso" (ibi, p. 19). Na estruturação do seu discurso, contudo, ele promove implicitamente a percepção de que se trata de dois paradigmas diferentes, o da ciência moderna e o do capitalismo moderno. Nesta ótica, Ter-se-ia, pois, de proceder necessariamente à abordagem separada, e sempre em estruturas e campos separados, das duas grandes revoluções paramétricas modernas: a centífico-técnica e a sócio-política! Ora é, a nosso ver, precisamente na apercepção deste núcleo duro da Modernidade, que o criticismo de B. S. S. claudica. E, precisamente em articulação com este tema, não podemos esquecer estes dois dados modernos e pós-modernos que constituem, afinal, uma só e indivisa realidade: a) as Revoluções Sociais (sócio-políticas) abortaram todas, total ou parcialmente; b) as Revoluções Científico-Tecnológicas, ao invés, vingaram todas, se tivermos em consideração os seus grandes patamares paradigmáticos. Isso mesmo aconteceu assim tem de concluir-se porque uma mão lava a outra... elas constituem-se e explicam-se mutuamente, são o anverso e o reverso da mesma medalha!
Por que é que os dois tipos de Revoluções se estruturaram e mantiveram separados na História Moderna do Ocidente? Por duas ordens de razões: a) a que é comum aos dois campos e dá pelo nome de princípios e metodologias da Objetividade e logo degenera em Objetualismo/ Divindade idolatrada, - e as duas Objetividades são pelo menos aparentemente distintas; b) a que diz respeito àquela abóbada celeste panenvolvente - que explica e fundamenta a ordem a) -, que se traduz na onipresença estrutural e estruturante da Cultura do Poder-dominação dabord: e aqui tem de evocar-se, desde logo, a sempiterna filosofia do Poder... Dividir para reinar!
Poder-se-á perguntar, sempre, por que razões as duas Revoluções (a sócio-política e a científico-técnica) se mantiveram estruturalmente separadas na Modernidade. E a resposta inalterável, em última instância, não poderá deixar de ser, em resumo, senão a que segue: elas mantiveram-se distintas e separadas precisamente por causa da idolatria conferida ao fundo paradigmático (comum a ambos os paradigmas/revoluções) que se pode e deve designar por Objetividade científica, em nome da qual foi legitimado e justificado o paradigma concomitante da Economia capitalista baseada no Lucro dabord, bem como no egoismo, em vez do altruismo, como paradigma antropológico e desde logo postulado pela Ética, enquanto Filosofia primeira.
Esta radical geminação de cumplicidades recíprocas entre as duas revoluções modernas pode ver-se, hoje, bem comprovada na seguinte geminação de cumplicidades contemporânea: numa vertente, promove-se a nova economia digitalizada, acreditando ingenuamente e fazendo acreditar que ela vai carrear uma nova prosperidade, sem que se dê conta, na realidade, da sua enorme fragilidade, a tal ponto que nos leva a pensar no espectro da falência e da depressão de 1929, logo a seguir ao boom dos anos 20 deste Séc. XX (Cf. Le Monde Diplomatique, Abril de 2000, pp.1-2; pp. 4-5 e pp. 6-8). Na outra vertente, do ponto de vista da preservação e defesa ecológica e ambientalista do Planeta, por toda a parte se vê que a destruição e o saque da Natureza (incluindo a Natureza Humana e as sociedades humanas) continuam impantes e sem freio: o que dirige e comanda a nova economia dos multi media é o arquipélago planetário da criminalidade financeira, onde surgem atuando, como ladrões em feira, Estados, Máfias e Camorras de toda a espécie e as transnacionais do costume (Cf. ibi, pp. 4-5).
O branqueamento do dinheiro sujo é operado com a maior das facilidades quando se acham associados Governos, Máfias, companhias bancárias e sociedades-transnacionais. Neste contexto, a pilhagem sistemática do bem comum processa-se com a maior impunidade. Aos pequenos delinquentes da precariedade e do desemprego é a aplicada a jurisprudência da tolerância zero e, em contrapartida, aos grandes crimes do dinheiro é aplicada a repressão zero (Cf. ibidem). Mais: é o próprio mercado da lei (e uma lei feita pelas medidas da desgulamentação neoliberalista) que torna prósperos os delinquentes (cf. ibi, pp. 6-7). "A grande criminalidade atual, se é preciso defini-la sumariamente, é a capacidade de valorizar os diferenciais causados pelos déficits de regulação política, econômica e social, em qualquer lugar do planeta e em qualquer momento" (Jean de Maillard, bi, p. 6).
Em suma, mantendo-se inabalavelmente distintas e separadas, em termos críticos, as duas revoluções modernas, o paradigma/revolução do capitalismo moderno, sobremaneira na sua fase de globalização neoliberalista, a partir do início da década de 80 (no país protagonista do processo que tem sido os EUA), tudo tem empreendido para que, na fenomenologia político-social aparente, o processo global faculte a sensação de dar, efetivamente, algumas respostas às exigências da revolução social (sempre adiada e traída...) mantendo, embora, na frente de batalha, os princípios de um divinizado Progresso sempre crescente baseado na pressuposta Objetividade tcnocientífica. E um tal empreendimento é levado a cabo através de toda uma mascarada já bem conhecida e denunciada, muito embora continue oculta para o grande público: o conto do vigário de que, na sua estrutura básica mais elementar, crescimento econômico é... desenvolvimento econômico...! Ora, este é um axioma falso e impostor, ainda que possa encerrar parcelas de verdade! Por outras palavras, a Economia política (capitalista), sobretudo nas últimas duas décadas do Séc. XX, virou definitivamente, e por formas claras e desbragadas, uma guerra aberta permanente (paradoxalmente, numa época em que, como nunca antes da atual, se apela tanto para a resolução pacífica pacifista... - dos problemas e dos conflitos). E, para compreender bem o processo global, deve atentar-se em que a atual guerra econômica (que não é metáfora..), movida e protagonizada pela chamada nova economia digitalizada, arma precisamente os seus exércitos sobre a base inamovível e irrefutável (!...) da bem divinizada Objetividade/Objetualidade tecnocientífica.
Assim, por conseguinte, o senhor Bill Gates e a multi-transnacional Microsoft, neste momento a arcar com um processo no Tribunal Federal dos EUA em virtude de uma suposta infração das leis anti-trust da União, poderão muito provavelmente vir a ficar tranquilos e finalmente absolvidos, para poderem prosseguir o seu negócio da Todays high-tech prosperity (Cf. Newsweek, 17.4.2000, p. 72). É que as leis anti-trust, na base das quais o processo é argumentado, são ainda, fundamentalmente como observa Robert J. Samuelson (ibidem), - leis que identificavam os males do poder de monopólio precisamente com o impedimento que, por essa via, era interposto no processo de competição com outros. Só que a competição significava, então (e continuou a significar até à década de 80), competição nos preços. Hoje em dia, porém, numa situação de vera guerra econômica a céu aberto, onde a competição se polariza na competição tecnológica numa luta sem tréguas de tecnologias rivais em demanda da superioridade de uma em confronto com as outras, as coisas são necessariamente diferentes. Neste contexto, como tudo está rigidamente encadeado, os clientes que se servem dos produtos de uma dada firma acabam por ser deterministicamente fidelizados e controlados. Já não sentem margem para diferentes opções de mercado. O fascismo sócio-tecnológico instalou-se!... Sem ambiguidades...
O bem credenciado jornalista da Newsweek, reconhecendo embora a extrema vulnerabilidade da Nova Economia, parte de uma noção elementar e quase patética de mesma (a N.E. parece ser essencialmente um estado mental) para chegar à conclusão, aparentemente (!..) óbvia, de que a superconfiança gerada pela Nova Economia podia sofrer os seus abalos sísmicos e que, portanto, nisso pelo menos, ela se conduzia pela mesma gramática da Velha (vd. Ibidem).
Quanto a nós, induzir em conclusão uma tal tese é dizer muito pouco e tecer todo um discurso de lisonja ao Establishment e em abono da Ideologia tecnológica dominante. Na verdade, numa apreciação crítica global e radical, teremos, antes, de concluir que, em virtude de nos últimos trinta anos (depois do Governo Olof Palme, na Suécia) se ter postergado por completo na história do Capitalismo posterior à II Guerra Mundial, o princípio (ainda humanista e humanizante) das chamadas Tecnologias Adequadas, - uma ladainha de consequências imbricadas de grande monta começaram a tomar corpo:
Nem os atenienses (dos tempos de Sólon, Péricles e Clístenes), nem os franceses (dos tempos da Revolução Francesa: de Robespierre, de Danton ou de Marat), cuja Democracia numa época como na outra, era ainda, basicamente, a democracia dos proprietários, considerariam possível tal compatibilização. Muito menos os hebreus (do tempo dos Juizes e de Samuel), antes da instauração da monarquia em Israel.
4.
OS ESTADOS SÃO CHAMADOS A ASSUMIR AS SUAS RESPONSABILIDADES PARA UMA VERDADEIRA MUNDIALIZAÇÃO; ELES NÃO SE DISSOLVEM NEM SE EXTINGUEM TÃO DEPRESSA EM SUPOSTO BENEFÍCIO DA SOCIEDADE CIVIL. HÃO DE SER, AINDA, O BALUARTE DE UMA ÉTICA ANTROPOLÓGICA CONSEQUENTE! RECONSTRUA-SE A VERA MODERNIDADE A PARTIR DE KANT.
Por que se promove e endeusa tanto a ideologia da globalização econômica/tecnológica em prejuizo da soberania dos Estados nacionais e das funções, exclusivamente específicas e indelegáveis, que eles são chamados a desempenhar?! Essa mundialização está a desapossar e a dissolver os Estados, e não obstante tudo o que se pretenda argumentar em favor da globalização, o pós-nacional demolidor dos Estados não passa de um mito enganador (cf. Le Monde Diplomatique, N° Cit., pp. 14-15; vd. et. P. 32).
Analisando os processos e os movimentos com alguma seriedade, ter-se-á sempre de perguntar, colocando a candeia em cima da mesa e não de baixo dela: Que nos deve interessar: Consumir e malbaratar o Mundo ou transformá-lo? A submissão e o conformismo, a alienação e a estupidez estão a invadir os cérebros dos indivíduos como glaciares. É uma completa descerebralização que se está a operar. De que se trata na nova economia? De fabricar novos consumidores ou de fazer com que cada um e cada coisa possam aceder ao consumo potencial? (cf. ibi, p. 26). Neste novo mundo do consumo euforizante e onipresente, é o modelo neocapitalista dominante que é imposto draconeanamente aos dominados: a Internet, com a sua realidade virtual, tornou-se o lugar natural da vida social e o meio essencial de cada um expandir a sua personalidade. Como se existir se reduzisse a consumir: e escolher uma determinada marca nos conferisse a identidade (pessoal) de que tanto se carece! (Até para poder resistir)!
Nos antípodas de toda essa malsinada globalização neocapitalista à escala planetária temos de continuar a situar o patriarca/juiz moral da autêntica Modernidade que foi Immanuel Kant. De fato, o que ele entendia por promessa de racionalização, outorgada pelas Luzes oitocentistas, englobava, necessária e simultaneamente, ao lado do progresso científico-tecnológico, o progresso da Filosofia e da Moral, bem como dos Costumes, tanto dos indivíduos como das sociedades humanas. Era, esse Projeto, a retoma das Bandeiras humanizantes de Sócrates e de Jesus.
Não previa Kant, por exemplo, o fim das guerras, mediante as descobertas da Ciência e as conquistas da Economia, e, na sequência disso, a instauração da Paz perpétua e universal como Projeto Filosófico digno desse nome? (cf. I. Kant: A Paz Perpétua e Outros Opúsculos, Edições 70, Lisboa, 1988, pp. 119 e ss.; os trabalhos sobre o tema da Paz Perpétua são de 1795/96). Nesse horizonte, urgia ele a adequação da teoria à prática no Direito das Gentes, considerando-o no seu caráter cosmopolita, i.e., do ponto de vista filantrôpico e universal (vd. Ibi, pp. 94 e ss.). Mais: ele prevenia os Estados, com esta recomendação: "As máximas dos filósofos sobre as condições de possibilidade da paz pública devem ser tomadas em consideração pelos Estados preparados para a guerra" (ibi, p. 149). Além disso, ele previa-nos, ainda, sobre a discrepância entre a moral e a política a respeito da paz perpétua (vd. Ibi, pp. 151 e ss.). E, ao mesmo tempo, advertia-nos sobre as condições em que é possível edificar a harmonia da política com a moral, segundo o conceito transcendental no direito público (vd. Ibi, pp. 164 e ss.).
A investigação de toda a obra de Jurge Habermas (da Escola de Frankfurt) em torno do tema polarizador da Modernidade Incompleta ou Inacabada foi, sem dúvida, pertinente e consequente. Veio isso mesmo a ser confirmado, pela via negativa, através dos desvios e aberrações característicos da Pós-Modernidade. Hoje, porém, é necessário acrescentar mais alguma coisa em função de um esclarecimento cabal: as promessas da Modernidade não foram cumpridas, de fato, nem puderam sê-lo, por direito, porque as duas Revoluções (a científico-técnica e a sócio-política), desde o Humanismo e o Renascimento, desde a Reforma e a Contra-Reforma, nos Sécs XV e XVI, foram sempre consideradas e assumidas, subterraneamente, como distintas e separadas. E, sócio-historicamente, isso acontece, em termos estruturais-estruturantes, porque indivíduos, cidadãos e Sociedades viviam e funcionavam e encontravam-se organizados (e continuam...) sob a abóbada celeste do implacável Poder-dominação dabord e respectiva Cultura. Desta sorte, o que é substantivo e inamovível é o Poder; o que é adjetivo e removível (a todo o momento) é a Liberdade dos indivíduos!
B. S. S. tem razão e acerta em cheio quando denuncia a vocação monopolista da ciência moderna e acusa o seu epistemicídio sobre a epistême anterior, que funcionava na Idade Média ocidental. Na transição paradigmática para a Modernidade, tivesse o Ocidente dado mais atenção, em termos de orientação e bússula, às reflexões de F. Bacon, do que às teses pragmáticas de teor mecanicista de Descartes, e a História (bem como a Sociedade) Moderna ocidental teriam indubitavelmente percorrido e assumido outro curso bem diferente. Advirta-se que a História também se faz de futuríveis. Diz muito bem B. S. S., na entrevista citada (p. 19): "Há cada vez maior discrepância entre a ação científica e as consequências da ação científica. Ou seja, as consequências da ação científica tendem a ser menos científicas do aquilo que as originou. Porque entre uma e outra intervém uma série de fatores. Este modelo não pode ter resolução porque a ciência expulsou todos os outros conhecimentos que poderiam servir de válvulas de segurança. Digo, por exemplo, do conhecimento religioso, marginal, os velhos, das comunidades, dos grupos subordinados, etc... É que a ciência tem esta vocação monopolista, a de se entender como único conhecimento rigoroso. O seu modelo não permite a intervenção de conhecimentos rivais, assenta num epistemicídio, isto é, para fazer conhecimento mata conhecimento".
A Ciência moderna acabou, efetivamente, por suplantar e substituir o Deus personalizado na Cultura medieval por um Deus ex-machina, cuja Divindade ainda viu reforçados os seus atributos de tirania e ditador absolutos, porque aquela deixou de ser pessoal (uma espécie de todo o mundo e ninguém!...). Prossegue B. S. S. (ibidem): "Este modelo científico funciona hoje por inércia. Veja os discursos públicos em Portugal: a ciência é louvada pelas suas virtualidades tecnocráticas: É bom para a indústria, para o desenvolvimento, para a competitividade. Já não se diz: É bom porque é bom, porque é bom para a sociedade ser cientificamente ordenada. O que significa que
estamos num período de transição. É que a ciência não consumou por completo a morte de outros conhecimentos. E eles estão a emergir por outras formas. Nem todas progressistas, nem todas boas. Mas, se olharmos para outras culturas, vemos o que é a consciência cada vez maior do multiculturalismo, que são o que chamamos de fundamentalismos. Porque só consideramos fundamentalismos os diferentes do nosso, esquecemo-nos sempre que não há maior (porque mais agressivo) do que o fundamentalismo neo-liberal. Estamos a entrar num período de conhecimentos rivais que adquirem formas civilizacionais, estilos de vida. O que esta ciência fez foi destruir a idéia do monopólio da interpretação medieval, que era Deus".
Com a dogmática científica do novo Deus ex-machina da Modernidade, foram estruturalmente banidos não só o mundo da vida (Lebenwelt, como diria Husserl), que a melhor Filosofia posterior às duas guerras mundiais (fenomenologia, existencialismo, vitalismo, filosofias sociais) ainda foi reivindicando, mas também todo aquele mundo de pensamento humano e humanizado que dava pelos nomes de Interpretação e de Hermenêutica. À situação estereotipada se chegou: as pessoas não podem fazer as suas interpretações, uma vez que a interpretação é prerrogativa do técnico, do especialista; as pessoas não podem falar do que não sabem.. Cada um vive fechado no casulo do seu tecnicismo/especialismo e, por isso, o vulgo deve ficar calado, passivo, submisso e obrigado. A interpretação e o diálogo interpessoal (em filosófico pé-de-igualdade) tornaram-se inúteis e, por via disso, impossíveis! Podemos, pois, assentir com B. S. S., quando protesta nestes termos: "Não há pior fundamentalismo que o neo-liberal, justamente porque ele é o mais agressivo". Ainda que não no plano de uma comparatividade diacrônica e histórica, todavia, em termos sincrônicos concernentes à época em que vivemos, um tal enunciado crítico é de uma evidência a toda a prova. Mas logo nos é forçoso acrescentar que o geminado fundamentalismo da Ciência moderna é igualmente agressivo e imperialista, na medida exata em que a Ciência moderna se constituiu, em virtude da sua indeclinável exigência de objetividade/objetualidade, enquanto epistemicamente monopolista e, do ponto de vista axiológico, se deixou perverter e corromper pelas políticas do Establishment e do Poder-dominação dabord. No contexto histórico dos dois paradigmas geminados da Modernidade, os quais não se esqueça - são afinal, um só e indiviso, não são possíveis nem viáveis quaisquer estratégias genuinamente emancipatórias e de libertação que sejam vedadeiramente consequentes. É que tudo acontece e é urdido nas teias do Poder estabelecido que diz-se logo - não pode cair na rua e, face ao qual a Oposição e o Anti-Poder têm de negociar e fazer armistício; tudo acontece e se articula sob e dentro da Cultura do Poder-dominação dabord. Eis por que a própria e sacrossanta Objetividade científica moderna tão facilmente virou Objetualidade/Divindade idolatrada, sempre pronta e prestimosa e solícita e ao serviço indefectível do Poder-dominação dabord.
5.
ULTRAPASSAR É PRECISO A CONHECIDA CONTROVÉRSIA CANÔNICA ENTRE MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE. AS DUAS REVOLUÇÕES MODERNAS
(A CIENTÍFICO-TÉCNICA E DA ECONOMIA CAPITALISTA) SÃO UMA SÓ, PORQUE NASCERAM E CRESCERAM SOB O MESMO SIGNO DA CONQUISTA E DO
PODER-DOMINAÇÃO DABORD.
Assim, todo o pensamento crítico, se quiser ser produtivo e consequente (não apenas retórico e acadêmico e, nos seus efeitos e consequências, sempre mais ou menos ao serviço do status quo), tem de se esforçar por levar o seu radicalismo até ao fundo, até às raízes dos fenômenos e das realidades sócio-antropológicas em que estamos envolvidos.
J. Habermas (muito especialmente em Discursos Filosófico da Modernidade, Publ. D. Quixote, Lisboa, 1990), J.-F. Lyotard (em La Condition Post-Moderne, Minuit, Paris, 1979, trad. Port. A Gradiva, s/d; e em O Pós-Moderno Explicado às Crianças, Publ. D. Quixote, Lisboa, 1993 2ª Ediç.) e ª Giddens (em As Consequências da Modernidade, Celta Editora, Lisboa, 1992), - estes três autores selecionados, ao lado dos quais é de toda a justiça adicionar a obra de Boaventura de Sousa Santos (designadamente: Um Discurso Sobre as Ciências, Edit. Afrontamento, Porto, 1989; Pela Mão de Alice / O Social e o Político na Pós-Modernidade, Edit. Afrontamento, Porto, 1995 4ª Ediç.), estes agora quatro autores, justapostos e cruzados, constituem, sem dúvida, um patrimônio científico-cultural crítico suficiente para nos proporcionar um confronto/balanço crítico, sensato e sábio, entre o que estereotipadamente se tem convencionado chamar a Modernidade e a Pós-Modernidade, em oposição, e a segunda ultrapassando supostamente a primeira, de tal sorte que para além das roupagens e dos fenômenos aparentes é possível identificar o vero núcleo duro da Modernidade, em contraste histórico e socio-antropológico com as Idades Antiga e Medieval e caracterizar tal núcleo, não apenas sob a sua fontal estrutura contraditória, tal como foi assumido na História Moderna ocidental, mas também sob a sua original estrutura harmônica para-utópica, a qual, de fato, não fez caminho na História Moderna do Ocidente. Para tanto, contudo, é preciso dilatar o nosso horizonte histórico-filosófico, no concernente à caracterização da identidade autêntica da Cultura Ocidental; e, aí mesmo, perscrutar e reassumir, não o que nos adveio dos institucionalizados patrimônios helênico, judaico e romano, mas outrossim, e muito elementarmente, o que procede das tão ignoradas Mensagens autênticas de Sócrates e de Jesus (o autêntico e genuíno, que nos foi revelado complementarmente pelos Dead Sea Scrolls, e não o que nos foi dado a conhecer pelos quatro evangelhos e outros livros canônicos do N. T.).
A esta luz meridiana, o Projeto sócio-antropológico da Modernidade, na sua para-utópica condição e qualidade de estrutura harmônica, não foi, de fato, e não pôde ser, de princípio, concretizado na História Moderna do Ocidente, muito simplesmente porque, desde há cerca de dois milênios, o Ocidente e a História ocidental se têm vindo a distanciar cortando cerce o próprio cordão umbilical, das Mensagens inauguradoras e identitárias do Ocidente e da sua Cultura específica (a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial, contra a sua eterna antagonista, a Cultura do Poder-dominação dabord, que desde os alvores da História, mediante a sua fixação através da Escrita, tem sido mais o timbre próprio da Cultura do Oriente).
Mas Boaventura de Sousa Santos parece querer aproximar-se implicitamente deste nosso horizonte crítico, mais abrangente (e identificador do Uhr-Grund da problemática em causa), em três passos da sua citada entrevista, que vamos transcrever e que saudamos vivamente... O primeiro é o que se refere ao chamado fascismo social que se vê hoje alastrando manifestamente por toda a parte, e que só pode surpreender os intelectuais demasiado orgânicos (nos sentidos pejorativo e positivo que lhes empresta a semântica gramsciana), míopes e de vistas curtas, atrelados ao Establishment. Diz ele assim (p. 20): "O Mundo está cada vez mais dividido entre zonas civilizadas e zonas selvagens. Para proteger as civilizadas existem já condomínios fechados, polícias privadas, etc. Esta dualidade faz emergir um fascismo social que se está a instalar. Este fascismo social é ainda mais virulento que o político, porque não se nota. Uns não notam porque estão na zona civilizada, os outros não têm poder político para dar visibilidade às formas de opressão a que estão sujeitos. A credibilidade do sistema está fundamentalmente em ele incluir (com muito glamour, muito charme) uma camada cada vez menor na humanidade. Que tem tudo, internet, telefones. Mas importa que a gente saiba que metade da Humanidade nunca fez uma chamada telefônica, nem vai poder fazer". O segundo passo é sobre a natureza das relações sociais e as trocas desiguais e iguais (ibidem): "O que são relações sociais? São relações de trocas desiguais. A todos os níveis. A sociedade é feita dessas trocas e são muito difíceis trocas iguais estabilizadas. Para mim, a luta política progressista, democrática, consiste em transformar trocas desiguais em trocas iguais. É transformar relações de poder em relações de autoridade partilhada. Estas trocas desiguais são um dos grandes indicadores de como progridem as relações sociais. No meu livro, identifico seis: na família, o patriarcado; na produção, a exploração; no mercado, o feiticismo; na comunidade, a diferenciação desigual; na cidadania, a dominação; no Mundo, a troca desigual. O Direito é fundamental para analisar a evolução e a transformação das sociedades, mas neste livro faço um sacrilégio para o positivismo que impera nas nossas Faculdades de Direito: admito que há um direito não oficial. E há, quer nos bairros de lata, quer nas grandes cúpulas banqueiras, por exemplo. E são formas de direito por vezes até ilegais à luz do direito oficial, mas que são princípios de ordem para as pessoas". O terceiro passo diz respeito ao que podemos chamar a bússola da Nova Esquerda e às condições em que ela deve exercer as suas funções (ibidem): "Contrario a idéia do desaparecimento da esquerda e da direita pela confluência do centro. Como se verá no 4° volume deste livro (O Milênio Órfão), penso é que esquerda e direita vão ter que ser reconstituídas, sem deixar de existir. Isto porque neste período de transição de paradigmas vai haver duas grandes lutas: por uma mais democrática distribuição da riqueza mundial e pela aceitação da diferença, ou o que chamo de multiculturalismo progressista. Não se trata de reconhecer o outro para que ele fique fechado no seu gueto, mas para que eu aprenda dele e ele de mim, se cada um de nós quiser, coexistindo e convivendo. Nós temos direito a ser iguais quando a diferença nos faz inferiores, e temos o direito quando a igualdade nos descaracteriza".
Pressentimos, desta sorte, que a analítica crítica e a contestação ampla e profunda que B. S. S. faz do Establishment contemporâneo e dos caminhos errados que, pela via da inércia e da indolência, as Sociedades neocapitalistas hodiernas estão pretendendo seguir, nos processos de uma falsa mundialização, convergem perfeitamente para o que nós designamos de Projeto Socialista radical para o 3° Milênio. Sendo certo e seguro que um tal Projeto, ao configurar-se exigentemente a uma escala sócio-histórica de milênios e não apenas de séculos, tem de retomar a sério (e não retoricamente...) as incomparáveis e incontornáveis Mensagens de Sócrates e de Jesus, se na verdade quiser ser producente e eficaz. E, sob a abóbada espacio-temporalmente alargada dessa Sócio-História que vai decididamente até às raízes da Civilização/Cultura Ocidental, a Magna Questão do Estado e a formação do Poder de Estado moderno, bem como a sempre pressuposta e implicada Questão Suprema da Cultura do Poder-dominação dabord, - todas essas máximas questões terão de ser radical e diretamente enfrentadas/afrontadas e devidamente equacionadas e resolvidas.
6.
AS MAGNAS QUESTÕES DECORRENTES DA CULTURA DO PODER-DOMINAÇÃO DABORD TÊM DE SER ADEQUADAMENTE EQUACIONADAS E RESOLVIDAS
A título de exemplo, consideremos, sumariamente, a atual situação jurídico-política da pena de morte. Grandes e pequenos Estados ainda a utilizam e aplicam sem tergiversar, ainda que, postumamente, se venha a verificar e a saber que os condenados à morte, uma vez defuntos, estavam afinal inocentes (como aconteceu recentemente, v.g., no Estado norte-americano do Illinois). E tais práticas, eticamente hediondas, - deve advertir-se -, são adotadas independentemente de terem ou não os Estados em causa um regime democrático... Que é e significa a pena de morte na aparelhagem institucional do Estado moderno cujo conceito, implicando a soberania absoluta, é oriundo, convencionadamente, do Tratado de Westfália (em 1648), que pôs termo à guerra dos trinta anos? Neste contexto institucional-societário do Ocidente, a pena de morte constitui o estigma supremo, a marca indelével do que se considera a soberania absoluta do Estado, do Poder de Estado. Só que, em tais termos há que protestá-lo à puridade a pena de morte não passa de uma vendetta do Estado e do seu Poder, por mais que se argumente em contrário. Não tem, nem pode ter nada a ver com a Justiça. A Justiça justa exige, em última instância, ser feita na base da Igualdade entre as pessoas. Por isso mesmo, se pode e deve denunciar e reprovar, por princípio, todo o bem e toda a virtude que são empreendidos à sombra do paternalismo!... Numa sociedade onde vigora e predomina a Cultura-dominação dabord, a Justiça e os Tribunais não podem, por definição e estruturalmente, ser isentos, imparciais e independentes do Poder estabelecido.
Quando é que os Estados modernos e contemporâneos vão abdicar, determinadamente, dessa malfadada soberania absoluta, aceitando a lógica e justamente que a soberania dos Estados seja limitada e condicionada, em benefício, a um só tempo, da personalidade jurídica dos cidadãos e da tão necessária e urgente constituição de um autêntico Governo Mundial?! (Cf. artigo Comment gouverner le monde?, de Jean Tardif, in Le Monde Diplomatique, cit., p. 32). Um tal Governo, cuja vocação seria, nesta época de transição, a de edificar e gerir as redes das interdependências, seria constituído na base de uma vera sociedade civil mundial, que teria a sua expressão numa espécie de Forum permanente das interdependências nacionais. Por esse caminho, sim, assistiríamos a um autêntico (e não falso...) processus de mundialização.
Desde 1648 até ao presente, houve monarquias, repúblicas e impérios. Em qualquer dos regimes, sempre a pena de morte assentou praça... E, se atentarmos bem na natureza real do Poder de Estado, ele não foi, em regra, menos ameaçador e terrorista que as repúblicas em confronto com as monarquias; ou nas monarquias constitucionais em confronto com as absolutas. O período Thermidor, no processo histórico da Revolução Francesa (1789-95) demonstrou-o paradigmaticamente e à saciedade. Assim, o Poder de Estado (com a sua marca registrada da soberania absoluta) nunca foi direta e radicalmente enfrentado/confrontado e resolvido de modo adequado, na História política e cultural do Ocidente. A supostamente paradigmática Revolução Socialista de Outubro, na ex-União Soviética, encarou e resolveu ela a Magna Questão do Poder de Estado, segundo o exigia, aparentemente, a ciência/doutrina marxista que, ao considerar o caráter messiânico do proletariado enquanto classe social, pressupunha e postulava que o proletariado tomasse o Poder e Estado em benefício de todas as classes sociais, de sorte que daí havia de resultar a famosa Sociedade sem classes?! A história posterior é sobejamente conhecida... Dispensará comentários, porque ela falou com os mais trágicos sarcasmos e ironias... O que se deseja e exige, é que a história referida não se repita posteriormente!...
Mas tem aprendido a Lição de todos estes processos históricos ditos revolucionários a Humanidade em geral, e, antes de tudo, os chefes e os responsáveis políticos?! Não... pela simples razão de que ainda não perceberam que as duas revoluções modernas referenciadas são gêmeas siamesas. Ora, hoje, sabemos que o Poder corrompe sempre e o Poder absoluto corrompe absolutamente! Já não há desculpas para os conquistadores e os utilizadores do Poder, em seu interesse e em benefício dos seus apaniguados ou eleitores. O Poder (de Estado; e derivados...) tem de ser objetiva e publicamente limitado e condicionado: não para reforçar e promover multi-transnacionais e as aparelhagens do mundo econômico-financeiro, que atuam (impunemente) por interesse próprio e sem delegação democrática das populações e das Sociedades nacionais; mas para que se possa defender e preservar, efetivamente, mediante o legítimo exercício democrático-representativo das funções (sociais, culturais, políticas e econômicas) do Estado, os direitos dos indivíduos-pessoas e dos cidadãos, integrados numa noção de bem Comum que, por princípio, (e de fato, sempre se aproximando cada vez mais do alvo) não pode excluir ninguém.
A arquitetura institucional é fácil de esboçar: abaixo do Estado-Nação, os sub-governos regionais; acima, os super-governos à escala internacional e mundial. Na base e no centro de todas essas circunferências concêntricas, os Indivíduos-Pessoas-Cidadãos, - princípio e finalidade de toda a Governação digna desse nome. Neste horizonte, em que o Princípio de Subsidiariedade é mesmo de se tomar a sério, uma vez que ele tem de comandar todas as operações em todas as escalas, constitui um imperativo categórico, ético e moral (ele próprio fonte e condição de toda a política) a rejeição de todas as Divindades exógenas/extrínsecas, que não se identifiquem com a identidade mais profunda e íntima da Consciência individual-pessoal de cada ser humano: Deuses exteriores, não-cristãos, ou cristãos, Divindade-mercado, Divindade-Dinheiro-Lucro dabord, Divindade-Tecnociência, em suma, Divindade Poder-dominação dabord, - é preciso resistir-lhes constantemente.
7.
A ODISSÉIA DA CULTURA DA LIBERDADE RESPONSÁVEL E A DIFÍCIL EMERGÊNCIA DO VERO PROJETO SOCIALISTA.
E, desta feita, à lógica e justa e perene conclusão final somos conduzidos, a saber: a vera e autêntica Humanidade de todos os seres humanos não se edifica pelos caminhos errados toda a História o tem comprovado desde as suas origens a da Cultura do Poder-dominação d abord; mas, outrossim, pelas vias íngremes e mais difíceis da Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial.
Hoje sabemos que, final, não há mesmo meio termo entre os dois partidos: o do Poder tem ocupado quase toda a História e quase toda a Sociedade Humana; o segundo tem apenas tentado erguer-se timidamente (nos dois planos da História e da Sociedade), - mas tão só nas margens que sobram do processus de totalização/totalitarismo e de ditadura dos Poderes estabelecidos, segundo a sempiterna Cultura do Poder-dominação dabord.
Baruch Espinosa, o grande filósofo judeu cujos pais se exilaram na Holanda, vítimas da perseguição religiosa em Portugal, terá pensado justamente, no seu tempo, que estava a dar, com a sua obra, um contributo precioso ao patrimônio cultural-espiritual da Humanidade através da sua tese central panteísta/ateísta, inauguradora dos supostos ateísmos modernos: a famosa tese do Deus sive Nature. Hoje em dia, porém, sabemos que os ateísmos modernos viraram todos teístas a seu modo, cultores, com ritos litúrgicos e tudo, de novas Divindades idolátricas, as quais têm contribuído mais para perverter do que para promover a vida humana vivida com dignidade, honra e recusa de toda a sujeição!... Hoje sabemos que um Projeto Socialista verdadeiro e consequente tem de recuperar e retomar as Teses clássicas do melhor anarquismo (filosófico e político), que a Cultura ocidental foi capaz de gerar na Segunda metade d Séc. XIX; e tem de verificar, além, disso, que a Razão histórica estava mais do lado de Trotsky do que de Lénine. À luz do que hoje sabemos da História das revoluções, bem como das teorias e doutrinas políticas, examinadas do direito e do avesso, e tendo em conta que os futuríveis fazem parte integrante de uma História integral das Sociedades humanas, em termos antropológicos, temos a obrigação de saber que, na mesma proporção em que, nos inícios da Idade Moderna, Francis Bacon, tinha mais razão que René Descartes no concernente ao projeto científico moderno, assim, aquando da fundação da 1ª Internacional dos Trabalhadores (em 1864), Bakúnine e os anarquistas radicais, por paradoxal que pareça, tinham mais razão que Marx e os marxistas no que diz respeito ao projeto da construção do Socialismo. A clepsidra do Processo histórico registra os erros e torna-os manifestos e contra-provados postumamente. Cumpre-nos, em toda a honestidade, aprender as Lições da História.
Depois de Francis Fukuyama (e do seu livro celebrado, O Fim da História e o Último Homem, Ed. Gradiva, Lisboa 1992), tornou-se um lugar comum bradar e brincar ao fim das ideologias!... Que grandíssima selva, esta, de tantas patranhas e enganos... Com tantos glaciares de retórica a diluviarem em torrentes caudalosas sobre toda a Terra até parece que as palavras perderam a sua semântica própria e precisa, e a linguagem e o discurso já não são capazes de produzir sentido... limitam-se a atroar os ares, tanquam cymbalum tiniens, num universo desprovido de vida e consciência, ou a ladrar à lua como gostam de fazer os cães em noites de lua cheia!
Assim, quando nos damos conta de que, na economia neoliberalista de hoje, a hegemonia absoluta é do capital financeiro e especulativo, a uma tal escala que de cada cem dólares que circulam diariamente no globo apenas dois pertencem à economia real (B. S. S. in Reinventar a Democracia, Ed. Gradiva, Lisboa-1998, p. 38), a gente pode e deve perguntar-se honestamente se a taxa Tobin de 0,5% sobre as transações nos mercados de câmbios resolve substancialmente alguma coisa, e se a nova democracia redistributiva e o Estado, enquanto novíssimo movimento social, são suficientes para fazer face à selvajaria estrutural generalizada (Cf., idem, ibi, pp. 59-60). Fará sentido nesta linha crítica continuar a definir o Socialismo (hoje, o Eco-Socialismo) simplesmente como democracia sem fim descurando a necessidade vital, em termos de terapêuticas adequadas, de corrigir e superar o caráter contraditório/absurdo e selvagem (em todas as frentes) do atual Capitalismo neoliberaista?!... Mutatis mutandis, ao vermos discutidos estes problemas em demanda das soluções mais adequadas temos, por vezes, a sensação de estarmos pretendendo resolver os graves problemas sociais da miséria e da pobreza, da desnutrição e das epidemias/doenças, em suma, da péssima distribuição da riqueza, socorrendo-nos, na esfera religiosa, das promessas aos santos e às santas e cúmulo dos sarcasmos... do respectivo pagamento!
Como vai emancipar-se o autêntico conhecimento-emancipação, capaz de contrariar e superar o mero conhecimento-regulação inexoravelmente quantificado e medido pela ordem-desordem estabelecida?!...
8.
A NOVA IDEOLOGIA NÃO-IDEOLÓGICA DA TECNOCIÊNCIA E DA TECNOCRACIA!...
A ESQUERDA OU ESQUERDAS CALARAM-SE?!
Hoje em dia, com tanta informação e comunicação à escala planetária e com o degelo/desdogmatização dos costumes, desde logo no campo das expressões/manifestações, inclusive, ostensivas do sexo e da sexualidade, os indivíduos/consumidores/produtores deixaram, paradoxalmente, de tecer um discurso ideológico propriamente dito, expresso e articulado num sistema filosófico-ideológico declarado. Mas, na fenomenologia societária continua a haver uma Ideologia predominante que atua de forma cega, surda e muda, e que pretende mesmo passar, disfarçada e descaradamente, por não-ideologia: chama-se ela nova Ideologia Tecnológica (ou Tecnocientífica), a cujo imperialismo escravizador (não libertador) na arena social estamos assistindo, e que nos leva a experimentar, a um só tempo, a nossa revolta e a nossa impotência diante do Bezerro dOuro!
Como conseguiu uma tal Ideologia (pretensamente não-ideológica) o disfarce e a mascarada? Mediante a divinização do princípio axiomático da Objetividade/Objetualidade que a Ciência e a Técnica e a Tecnologia modernas sempre foram alimentando e reforçando, dogmaticamente (tal como na vera religião...), ao longo dos últimos quatro séculos na História do Ocidente. Do discurso sobre Deus, que tem lugar na disciplina de Teologia, já se declara e apostrofa hoje, crítica e pacificamente, que todo o discursos de Deus ou sobre Deus é sempre um ser humano que o profere. O discurso científico, pelo contrário, ao alicerçar-se no princípio dogmático da Objetividade tudo faz para cindir-se e separar-se e tornar-se absolutamente independente e autônomo face aos cientistas/sujeitos e suas circunstâncias. Quanta perversidade e corrupção vão nesta metodologia e epistemologia! A mesma perversidade e a mesma corrupção que vão na pesporrente afirmação daquele Poder que, sem qualquer diálogo democrático suscetível de o fundamentar, estabelece uma ordem ou código de mandamentos sobre o rebanho de súditos em nome de uma suposta Divindade exterior. Deve, entretanto, advertir-se que a suprema Ideologia tecnológica ou tecno-científica dos nossos dias abarca, comanda e absorve tudo e todos: num imperialismo sem fronteiras, que se pretende mundializado, e que já poucos têm a ousadia e a coragem de discutir e criticar.
Paradoxalmente (ou não) esta nova Religião/Ideologia Tecnológica/Tecnocrática chegou ao ponto de ver os seus antigos Adversários de estimação completamente integrados no Grande Sistema! Dir-se-ía que renunciaram à sua clássica condição de resistentes e apocalípticos para se tornarem integrados. Referimo-nos, claro, à Esquerda, ou esquerdas, as tradicionais e até as novas, que provam tantas dificuldades em emergir e afirmar-se nos palcos político-sociais perante o Bezerro dOuro. O processo contemporâneo da divulgação massiva da Ideologia tecnológica e da Globalização neoliberalista conseguiu esse amofinamento/alienação completa, como se da coisa mais natural deste mundo se tratasse...
Em tal contexto, como é de prever, as exceções à Regra são muito poucas: metonimicamente e no plano de autores o nosso dedo indicador apontou para Marta Harnecker, a velha lutadora chilena pela Causa do Socialismo, nos Anos 70, e que, no final dos Anos 90, continua intrépida e lúcida na sua nova obra em defesa de um renovado Projeto Socialista, que dá pelo título Tornar Possível o Impossível / A Esquerda no Limiar do Século XXI (Ed. Campo das Letras, Porto-2000). No plano dos Institutos sócio-políticos-culturais queremos evocar, aqui, metonimicamente também, o incomparável Le Monde Diplomatique, agora sábia e perspicazmente dirigido por Ignacio Ramonet. Mas, de fato, o número de figuras e instituições visíveis da Esquerda ou esquerdas é tão diminuto e às vezes tão pouco significativo que a impressão que nos fica é a de que as suas intervenções, ou não existem, ou decididamente, já não contam para a modificação substantiva e a alteração qualitativa do Mundo!
Do lado da fortaleza aparentemente inexpugnável e das instituições societárias dominantes, pelo contrário, os pronunciamentos críticos abundam e chegam, por vezes, a apresentar-se bem contundentes nas suas análises críticas do establishment e nas propostas terapêuticas que avançam. E fazem-no, hoje, completamente à vontade. É que esses pesos pesados que intervêm com propósitos de corrigir o Sistema vigente não estão, de modo nenhum, interessados em demolir o Sistema ou levá-lo à ruína; bem pelo contrário. E, não obstante, eles até chegam a botar figura (para a grande platéia) de supostos adversários do Sistema (de setores ou subconjuntos do Sistema que não funcionam tão bem). Mais: para além das badaladas terceiras vias puramente retóricas (no encalço de A. Giddens: The Third Way / The Renewal of Social Democracy, Polity Press, Oxford 1998), essas figuras até transparecem, neste grande Espetáculo de Circo Mundial, como que as únicas vozes irreverentes e dissonantes, audíveis e visíveis, capazes de discutirem e criticarem o pensamento único/uniforme e o establishment, - resultando, por essa via, transformadas hipoteticamente e de fato em bóias de salvação para as próprias criaturas de Esquerda. Estamos a falar, por exemplo, de George Soros, o brilhante financeiro e filantropo norte-americano (de origem húngara) que é autor, entre outros, do livro muito interessante que dá pelo título The Crises of Global Capitalism (Little, Brown and Company, London 1998), onde o autor, denunciando as calamidades de hoje que são as instabilidades resultantes da sofreguidão com que foram combinadas as novas assunções teóricas e o comportamento humano, adverte para os perigos graves em que se encontra a Sociedade Aberta; e também do industrial e acadêmico norte-americano Edward Luttwak, que a partir do conceito de geoeconomia foi capaz de uma obra de grande fôlego crítico até em termos humanistas: Turbocapitalismo / Vencedores e Vencidos na Economia Global (Ed. Temas e Debates, Lisboa 2000).
Globalização neocapitalista planetária e Religião/Ideologia Tecnológica (Tecnocientífica) constituem-se, efetivamente, como duas irmãs gêmeas siamesas: a sua vocação e a sua função são a de produzir uma emaranhada floresta de enganos onde, em nome da sacrossanta Objetividade científica e tecnológica não mais seja possível ao cidadão comum deixar assomar a sua consciência crítica e a exigência da autenticidade. O fascismo social e tecnológico (sócio-tecnológico) está definitivamente instalado. Aquilo que eu tenho vindo a designar por soft fascismo, de há duas décadas a esta parte e que é o resultado de, em termos operativos e estruturais, a) não se ter feito caso do Princípio das Tecnologias Adequadas, b) não se ter feito caso da necessidade sócio-política e antropológica de complementar a democracia representativa (ou delegada) com a democracia direta ou participativa, - parece ter consumado a sua instalação definitiva, e pior, naquela acepção positivista de fato social à E. Durkheim, ou seja, enquanto fato totalmente independentemente das vontades dos indivíduos!...
9.
COMO SE FORMOU HISTORICAMENTE O SOFT FASCISMO SÓCIO-TECNOLÓGICO DE HOJE
O que, numa primeira frente, contribuiu remotamente, embora em termos decisivos, para o fascismo soft de hoje, foi o fato de, no mundo internacionalizado do comércio e das economias nacionais (que se constituíram nas três décadas posteriores à II Guerra Mundial por oposição às anteriores autarcias econômicas do nazi-fascismo), a globalização neo-liberal se ter erguido e estruturado, a um só tempo, através do progressivo enfraquecimento do papel dos Governos e Estados nacionais mediante organismos internacionais como o GATT (Acordo Geral de Comércio e Tarifas), criado em 1947; o Uruguay Round, iniciado em 1986; e a OMC (Organização Mundial do Comércio) criada a partir de então com muito mais autonomia decisória face aos Governos dos Estados.
Se, entre 1947 e 1986, ainda que numa atmosfera fluida e baça onde imperavam sempre os interesses do grande capital financeiro, ainda se falou de partes contratantes em oito ciclos de negociações, a partir de 1986 e da Organização Mundial do Comércio, tudo começou a funcionar como (n)uma monarquia absoluta: começou a afirmar-se, sem contestação, a dimensão financeira transnacional, que se sobrepôs por completo à Economia (real). Desta feita escreve Sérgio Ribeiro (in Seara Nova, Janeiro-Março de 2000, p.9) a OMC "alcançou o que, no final da guerra, não fora possível, a institucionalização do liberalismo e da mercadorização por via do comércio internacional, sem os constrangimentos ou entraves de rondas negociais entre partes contratantes inter-nações. A OMC, enquanto agência especializada no comércio internacional, herdeira do GATT e, de certo modo, alérgica à OIT (Organização Internacional do Trabalho) e à CNUCED (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento), será a cereja a colocar em cima do bolo confeccionado pelo Liberalismo, expressão do estádio supremo do Capitalismo transnacional e note-se que, na nossa terminologia, transnacional quererá dizer o que passa por cima do que é nacional, multinacional, inter-nacional...! Ao nível institucional esta transnacionalidade alcança-se por aprofundamento da mercadorização nos campos que lhe estão cometidos e por extensão a outros campos".
A partir de 1986 a transnacionalização das relações econômicas internacionais encontrou o seu caminho completamente desimpedido: o papel dos grandes grupos financeiros transnacionais tornou-se cada vez mais preponderante e decisivo. E, a mesmo tempo, particularmente depois da queda do socialismo real (1989/1991) e com a concomitante perda de influência do grupo de países designados por não-alinhados, deixou de se falar, em absoluto, da Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI) e suas exigências (tema de análises e preocupações que ainda estavam presentes nos Anos 60 e 70). A instauração (nos finais da década de 80) do predomínio absoluto das Finanças e dos grandes grupos financeiros transnacionais sobres as Economias nacionais reais foi, ao mesmo tempo, o Princípio das Tecnologias Adequadas, que foi inteiramente posto de parte. É sabido como ele foi importante e decisivo nos chamados trinta anos gloriosos que se seguiram à II Guerra Mundial, não só para reestruturar e vertebrar as economias nacionais e promover a ajuda certa e justa dos países do primeiro mundo aos países do terceiro e quarto mundos.
É hoje um lugar comum entre os fãs se enaltecer até aos cornos da lua a Nova Economia ancorada nas Telecomunicações e na Informática, por contraposição à Velha Economia. Ora, esta é precisamente a que foi arquitetada recentemente, durante os Trinta Anos Gloriosos (1945-1975). A Presidência do Conselho da Comunidade Européia, atualmente (2000) liderada pelo Governo Português, defendeu em Lisboa (no documento intitulado "Emprego, reformas econômicas e coesão social para uma Europa da inovação e do conhecimento") o chamado modelo social europeu e o seu aprofundamento. Sabendo-se que este modelo foi, na verdade, o motor e a moldura da Velha Economia, tem de perguntar-se que coisa estão querendo os defensores per fas et nefas da Nova Economia quando preconizam a recuperação daquele modelo: o círculo quadrado ou a pura e simples retórica demagógica...?
"Na nova economia visa-se acima de tudo a flexibilidade, a aprendizagem permanente, a adaptação à mudança, a competitividade no mercado global..." (Mário Murteira, in Seara Nova, n° cit., p.14). Uma tal orientação contraria essencialmente a moldura e as traves-mestras institucionais da Velha Economia. É, por isso, muito sensato o nosso velho mestre economista Mário Murteira quando se interroga com alguma ironia: "O que poderíamos designar por modelo social europeu é fruto do que tenho chamado de velha economia. Pode ser conservado, ou até aperfeiçoado, esse modelo para a nova economia, ou pelo contrário? O que estará definitivamente condenado nesse modelo, por força da crescente globalização do sistema mundial?" De fato, para preservar e defender a sua identidade sócio-histórica e os fundamentos do seu modelo social, a União Européia não pode aproximar-se demasiado, para além de um certo limiar, do modelo da Nova Economia e do american way of life, ancorado num individualismo impenitente e numa competitividade feroz que, frequentemente (não encontrando uma terceira entidade nas leis e nos tribunais), entra em curto-circuito e vira monopólio, cartel, holding, trust... Se, eventualmente, o seu modelo social vier a convergir tanto que se confunda, ele anula-se e dissolve-se pura e simplesmente. Mas os EUA como muito bem advertiu John Gray no seu livro False Dawn: The Delusions of Global Capitalism, Granta Books, London-1998 (pp.100 e ss., pp.121..., pp.124..., pp.128..., pp.130) entraram, pelo menos há duas ou três décadas a esta parte, num caldo de cultura tecnocientífico missionário / prometeico que se pode designar, com propriedade, de iluminismo barroco (e bacoco...), onde os Valores humanos e a Humanidade, continuando presentes na retórica do discurso político, estão cada vez mais afastados das práticas sociais quotidianas e expulsos da gramática de princípios e parâmetros que presidem às Organizações Societárias. Eis por que, em termos de projetos e esperanças no futuro, é ilusório e decepcionante acreditar que o sol dos EUA possa brilhar para todo o gênero humano a manter-se o modelo social (a-social) por eles perfilhado. Assim, quando hoje discorremos sobre a globalização devemos saber que, por detrás dessa máscara, encontra-se antes de tudo a realidade do Imperialismo norte-americano sobre o Mundo. Como não nos darmos conta, criticamente, do maquiavelismo diabólico de um tempo como o de hoje, em que quanto mais se concentram as Finanças e o grande Capital mais a populações migram e se nomadizam perdendo a sua própria identidade pessoal, étnica, nacional?! Tem toda a razão o escritor libanês-brasileiro Milton Hatoum ao afirmar, em entrevista ao Jornal de Letras (Lisboa - 19.4.2000, p.16), o seguinte: "Creio que esse será um dos grandes dramas do Séc. XXI. As emigrações continuam, há êxodos por toda a parte. Há quatro milhões de palestinianos da diáspora, a África está em polvorosa... No Brasil há migrações internas, os nordestinos procuram S Paulo, que é uma cidade com dois milhões de desempregados. Não podemos silenciar tudo isto". Em tal contexto é inevitável: "cedo ou tarde, haverá uma reação ao que se passa no mundo. Porque as pessoas estão descontentes, o desemprego é uma praga, a concentração de renda está a aumentar. Nesta fase do capitalismo, as corporações já não têm pátria, mas têm bancos e conselhos executivos que mantêm a hegemonia no mundo. O mundo não se pode ajoelhar perante esse mecanismo perverso" (idem, ibidem).
10.
O CONTEMPORÂNEO PROCESSO DE GLOBALIZAÇÃO E OS HUMANOS DA SOCIEDADE DE AMANHÃ
Quem hoje tiver sensibilidade própria e inteligência identitária é forçado a reconhecer riscos e perversões gravíssimos no contemporâneo processo de globalização, tal como ele tem vindo a ser conduzido pelo Capitalismo neo-liberalista de dimensão planetária, sem pátria nem obstáculos governamentais.
Quem pensa em tais riscos e perversões...?
Desde logo é bom que se saiba, enquanto há tempo para remediar e corrigir... -, a Educação/Formação de hoje (a começar pela escolar e acadêmica) conduzida e pautada na base dos novos media e das novas tecnologias de Informação e da Comunicação, como está a ocorrer, levar-nos-á inexoravelmente à condição pseudo-antropológica em que a realidade virtual das redes mediáticas se há de converter na única realidade real! Não se pode esquecer, em termos de pauta antropológica inultrapassável, que é justamente a empatia que leva à experiência enquanto tal e à sua valorização na vida humana. É a empatia que alimenta e robustece os laços nas relações interpessoais e na formação e preservação do chamado tecido social. Ora, quando as crianças (desde a tenra idade do pré-escolar) e os jovens consomem mais de metade do tempo útil diante dos computadores e das televisões, o que neles se produz é todo um processo de dissolução dos laços pessoais e sociais e afetivos, que ligam as pessoas entre si e à terra onde vivem e habitam. As crianças e os jovens são envolvidos e encerrados num processo de perda progressiva (e, no fim, total) dessa empatia fundamental, que se encontra nos alicerces da vida psíquica humana, enquanto humana. Ao mesmo tempo, eles tornam-se incapazes de experiência humana propriamente dita, incapazes de assimilar e acumular saberes resultantes da experiência. Esta nossa apercepção crítica do fenômeno da Globalização gostamos de a ver claramente expressa na entrevista do cientista social Jeremy Rifkin à RAI Due (Canal 2), em 1° de Maio de 2000. Sinal de que ainda há gente sensata e honesta, inteligente e crítica e resistente, em suma, ao martelo-pilão do pensamento único. Por essa via, com efeito, estamos assistindo ao completo esfacelamento, dilaceração e dissolução dos laços sociais mais elementares que, entrosados normalmente, constituem o tecido social, etológico e ecológico, ético e moral dos Humanos, seja na vertente societária, seja na comunitária. O que se está passando, sob os nossos olhos (que, à força de rotinas, cegueira e submissão, já não vêem...), é a redução completa dos indivíduos-pessoas (originalmente dotados de empatia e capazes de experiência) a simples máquinas de operar, máquinas de processamento de dados ou de operações de fabrico de produtos/mercadorias. O que, assim, se encontra em marcha é o fascismo societal (vd. Boaventura de Sousa Santos sobre a emergência do fascismo societal, in Reinventar a Democracia, Cadernos Democráticos, Ed. Gradiva. Lisboa-1998, pp.33...); o qual se acha geminado, e até justificado é bom não ignorá-lo! -, pelo fascismo tecnológico (o que já vem ocorrendo desde a década de 70, nos EUA, enquanto superpotência protagonista da novíssima revolução tecnológica Informática/Eletrônica).
Mais do que nunca, hoje, não podemos esquecer-nos de que toda a Civilização digna do nome é de base geográfica (e mesmo geofísica) e local/regional. E mais: ela pressupõe e exige, estrutural e funcionalmente, o vis-à-vis, o cara-a-cara dos indivíduos, em suma, os olhares cruzados reflexivamente de uns sobre os outros. Tudo isto acaba por ser eclipsado no atual processo de Globalização neo-liberalista/mecanicístico!...
Onde o lugar de origem, o situs (aristotélico) a que se atribui valor intrínseco e até a dignidade de predicamento metafísico?! Onde a prática e a defesa da alimentação natural e da autêntica cozinha regional/local?! A cultura do comer e do vestir configura, sem dúvida, o primeiro estrato da pirâmide de uma Cultura com C maiúsculo. Com efeito, sem a presença viva da dimensão geográfica e localista não é possível defender e preservar a identidade dos indivíduos-pessoas e dos grupos étnico-sociais. Quero a minha Casa aberta aos outros, sem xenofobia. Mas não a quero, de modo algum, submergida pelos outros nem por eles controlada.
Quando as multinacionais uniformizam os mercados, Cidadãos e Sociedades precisam, com urgência, de Governos sérios e corajosos, capazes de advogarem os direitos e os interesses das Pessoas, dos trabalhadores e dos grupos étnicos. Quando, no quadro hodierno da Livre Iniciativa e da ação desregulamentada das multi-transnacionais, o Emprego-com-direitos desapareceu e os patrões já não são lobrigados para sobre eles poder exercer a reivindicação justa e necessária, - a quem deverão recorrer os trabalhadores, os cidadãos e os consumidores, senão aos respectivos Governos nacionais?!...
Mas, em tal contexto novo, decorrente das fraturas que as novas tecnologias impuseram à produção massiva de tipo fordista/taylorista, é obviamente necessário que os respectivos Governos sejam verdadeiramente capazes de impor a Ordem ao Estado. E, quanto a nós, sabemos que isso não será possível enquanto se mantiver a hegemonia da Cultura do Poder-dominação dabord. No seu livro mais recente, The Great Disruption (Profile, 2000), Francis Fukuyama deu-se conta, prospectivamente, dessa falha sísmica para argumentar que, a partir dessas ausências e omissões, os indivíduos se achavam biologicamente compelidos, não só a reafirmar valores morais como também a recriar uma nova forma de ordenamento social. É claro que a terapêutica de Fukuyama tem apenas o valor do diagnóstico que a precede...
Num plano mais aprofundado, é preciso sabermos e tomarmos consciência crítica que o Comércio pressupõe a Cultura e dela procede; e não ao contrário. Nos EUA é que, por tradição interna criada a partir de fatores tais como os resultantes da convergência no menor denominador comum de imigrantes os mais diversificados nos seus costumes e hábitos de origem nacional, gerou-se o consenso sobre o errado princípio antropológico oposto: o Comércio precede a Cultura e absorve-a totalmente!...
Na citada entrevista à Rai Due, Jeremy Rifkin fez questão de formular um apelo solene à Itália, enquanto berço de civilizações, e à Europa em geral, no sentido de arranjarem coragem para contrariar o pendor mortífero da tradição interna norte-americana, que atribui o primado ao Comércio em vez de o conferir à Cultura. A razão solene reside nisto: sem Cultura local identitária não há, não pode haver, Comércio civilizado. E não se esqueceu Rifkin de nos pôr em guarda perante as futuramente possíveis novas guerras dos genes, depois de havermos passado, historicamente, pelas guerras de religião e pelas modernas guerras de obtenção e conquista de matérias-primas.
A vera qualidade de Vida é facultada, em última instância, não pelas vias do Comércio mas, outrossim, pela via da Cultura. Não pode o homem ser antropologicamente feliz no meio da penúria material e infeliz no meio da abundância alimentar, precisamente por lhe fazer falta o alimento espiritual?!...
Tem, por conseguinte, de levantar-se à puridade a questão central seguinte: a que está conduzindo, maioritária e hegemonicamente, o atual processo de globalização? Por certo que ele não está a conduzir à unificação democrática do Planeta, mediante uma suposta cultura universal (que está, por ora, bem longe de existir...); mas, à destruição metódica e sistemática das entidades locais e regionais e nacionais e, implicadamente, à destruição do que resta da própria organização democrática das sociedades humanas. Eis por que, quando hoje se fala com insistência na chamada mundialização da Cultura são, antes, os espectros e as sombras das fascização pseudo-cultural que se avolumam no horizonte... tudo isso produzido através das chamadas novas indústrias da cultura (de pensamento único e uniformizante), que o sempre vigente e predominante sistema capitalista interpreta inexoravelmente em sentido uniforme e único. Em 1967, Maurice Duverger acusava o Establishment e denunciava o que ele chamava, com razão, a democracia sem povo. Hoje, a democracia sem povo apresenta-se num quadro muito mais requentado politicamente e sofisticado tecnologicamente. É sabido como, nas origens das indústrias da cultura, encontra-se a própria Revolução Industrial enquanto ante-câmara da mundialização contemporânea (cf. Jean-Pierre Warnier, A Mundialização da Cultura, Notícias Edit., Lisboa-2000, pp.35 e ss.). Contudo, os tempos de hoje são diferentes: no atual panorama mundial das indústrias culturais a própria economia política mundial da cultura encontra-se estigmatizada, ela mesma, pela perversidade do uniformismo fascista e fascizante, precisamente porque são as lógicas econômicas (economicistas...) as que prevalecem hegemonicamente à escala do Planeta supostamente globalizado ou em vias disso (cf., idem, ibi, pp. 54 e ss.). A erosão e o etnocídio é o que vai caber em sorte às Culturas singulares, enquanto tais (cf., idem, bi, pp. 77...; pp. 105...).
E, não obstante, deve saber-se que os bens culturais não são mercadorias vulgares. Por isso mesmo, a pura e simples tentativa/projeto de um mercado mundial dos bens culturais constitui, por sua própria estrutura e funcionamento, um risco muito sério e encerra perversidades no seu próprio processus. E não restam dúvidas: o que hoje se chama de mundialização da Cultura (termo impróprio, porque agrava as desigualdades sociais e ilude a extrema diversidade das situações) é um fenômeno e um processo desencadeados pela economia das indústrias da cultura..! A dizer, pois, toda a verdade, tem de concluir-se que, para além ou para aquém do baile de máscaras, a hodierna globalização |