ARTIGOS
BIBLIOGRAFIA
BIOGRAFIA
ENSAIOS
HISTÓRIA
PALESTRAS
POESIA
RESENHAS
ROMANCE
TEATRO

Olhar Celta

 

entre a ibérica península e o mundo

 

 

 

1

 

pátria

sim o é onde nasci

pátria

a tive sempre onde vivi

 

vi e ouvi e vivi

porque eu sou a pátria

 

em Sagres, Portugal - 1981

 

 

 

A parte portuguesa que diz dos povos genericamente denominados como Celta, ou da influência céltica, é realmente muito forte em todo o território – território, aliás, de velhas fronteiras levantadas a espadeirada e quente azeite, salteio e bandeiras e, quiçã, as mais antigas fronteiras estabelecidas institucionalmente no mundo.

 

Quando da descoberta, e posterior estudo arqueológico das vilas muradas – ou castros, ou citânias -, por Martins Sarmento, a partir de Briteiros e Sabrosa, na região portuguesa de Guimarães, estas transformaram-se nos mais importantes sítios arqueológicos do período pré-céltico e céltico, e Portugal pôde, enfim, reencontrar parte da sua estrutura sociocultural mais profunda: a Civilização Celta.

 

Os sítios arqueologicamente trabalhados por Martins Sarmento, situam-se no norte, mais precisamente na região onde, também, D. Afonso Henriques, iniciou o estabelecimento do Reino após tornar-se independente dos castelhanos com uma vitória sobre a própria mãe... Não foi isso um acaso, mas (um)a certeza da força cósmica ali deixada pelo Celta e que sobreviveu à romanização e à catequese cristã.

 

 

Interpretar a forma de civilização carregada pelos povos Celta para a Península Ibérica é, de certa maneira, interpretar muito da alma portuguesa, aquela do ‘peito aberto ao mundo’...

 

Em seu orgulho guerreiro, o Celta fazia de cada ‘acampamento’ ou de cada ‘alto’ uma pátria móvel; quando tinha condições para se fixar erguia, pedra sobre pedra, em arquitetura de sobrevivência e segundo estratégias puramente sócio-militares, o seu castro em locais altos e de difícil acesso. Cada castro simbolizava a pátria céltica, tanto que a sua estrutura urbana continha a parte estritamente familiar dos clãs, as redes de retenção e de distribuição de água, os locais para assembléia e os locais de adoração solar, sempre no âmbito de uma dimensão matriarcal, porque à patriarcal cabia a defesa e o suporte do quotidiano castrejo.

 

 

 

É interessante (a)notar

este ponto de identidade com o Carijó,

um dos povos da floresta amazônica,

que em sua digressão pelo interior e pelo litoral do chamado Brasil,

construía em seus ‘altos’ a koty (cuty, acutia – como grafou Hans Staden em

seu relato -, cotia), uma palhoça redonda;

Koty, que no tupi-guarani significa ‘ponto de encontro’

ou ‘a casa de’ (como registrei em meu opúsculo ‘De Costa a Costa

Com a Casa às Costas’) e que para esse povo tinha o mesmo significado

de pátria que se encontra na interpretação do castro céltico.

 

E esta questão não fica por aqui, uma vez

que outros estudos descobriram que

o povo da Lusitânia (região-núcleo na qual se ergueu e expandiu Portugal)

também utilizava, no Séc. IV aC,

portanto, um século antes da chegada à região dos celtas,

o mesmo traçado socio-militar...

algo, também, muito próximo do Maia e do Azteca quanto às suas

vivências urbanas!

 

O certo é que entre o afazer socio-militar

de celtas e carijós, com um oceano imenso separando-os,

os pontos de identidade são extraordinários

e apontam, mais uma vez,

para a arquitetura tribal africana...

 

 

 

Aquele olhar celta abrangia, na verdade, o mundo, e este era, na vera concepção da vivência-sobrevivência, a dilatação pátria do seu peito aberto!

 

 

2

 

pedras limitam o caminho

pedras pavimentam o cainho

pedras

pedras e pedras

espelhos rústicos do dito

e no viver popular

 

arte d’estar

no caminho

das pedras

 

 

na Citânia de Briteiros, Portugal – 1977

 

 

 

 

Povos ibéricos eram, na realidade, os árabes, como eram os lígures e como eram os lusitanos, e todos eles beberam, de algum modo, a influência de fenícios (a partir do Séc. X aC) e de gregos (a partir do Séc. VII aC), por isso, quando a Civilização Celta atinge a região já existiam vestígios de celtidade – i.e., segundo os profundos estudos do pesquisador e historiador Antoine Fabre D’Olivet (particulamente em seu livro ‘História Filosófia Do Gênero Humano’), francês também perseguido pelo Vaticano e por Bonaparte, o Povo Fenício não era mais do que uma das facções da Civilização Celta, facção essa que deu origem, numa cisão social memorável, às amazonas (há-mâs-ohne: as sem macho) – hoje, arqueologicamente reveladas e não pertencendo mais ao ‘reino da fantasia’ (e dando razão às certezas históricas já anteriormente apontadas por D’Olivet)...

 

Este registro, ao qual, Martins Sarmento não teve acesso – creio eu, demonstra que a digressão céltica formou vários povos a partir dos clãs dissidentes, penetrou a Ásia e o Egito, e quando chegou em massa à Península Ibérica entrou pela região do Algarve (e vindos do Norte da África e da Espanha) com os Cynetes, por Lisboa com os Cempsos, pela Estremadura (e vindos da Espanha) com os Sepes, por Coimbra e Viseu (e vindos da Espanha) com os Pernix Lucis e pelo norte (Galiza, na Espanha; Braga, Barcelos, Guimarães, Chaves e região do rio Douro, em Portugal) com os Draganes. Uma horda que dominou e aculturou os povos que ali já viviam no Séc. VI aC. Uma outra facção dos celtas, os Cartagineses, chegou à região no Séc. II aC já com o Império Romano fazendo soar as trombetas em algumas abordagens de salteio. Poucos séculos depois, já na era cristã, chegaram os Vândalos, Alanos e Suevos (409 dC), os Visigodos (415 dC) e, cerca de trezentos anos depois, novamente os Árabes (710 dC). Assim, quando se fala de período pré-céltico ibérico temos de o localizar entre os Sécs X e VI aC, uma vez que aqueles clãs que aqui se instalaram em 600 aC constituiram o que designamos por Celtiberos, e é deles que se fala quando observamos, por exemplo, a arquitetura sócio-militar nos castros (citânias) de Briteiros e de Sabroso (Guimarães) ou de Loureiro (Pontevedra). O formidável e íntimo (porque ousadamente pessoal) trabalho de Martins Sarmento pôs a descoberto as raízes sociais que deram origem a Portugal e cuja força telúrica ajudou, na verdade, o príncipe D. Afonso Henriques a tornar-se o primeiro rei português a partir, exatamente, de Guimarães!

 

 

E não se pode esquecer, quando se percorre o piso granítico das vilas castrejas – como eu fiz várias vezes -, que os Celtiberos só foram trucidados pelo Império Romano depois que este dominou Cartago, entre 193 e 72, e penetrou os domínios ibéricos derrotando chefes históricos como Viriato e como Sertório (este, aliás, um antigo general romano)... mesmo assim, depois de anos e anos de sangrentas batalhas. Com a romanização chegou depois cristianização... Em ambos os casos de dominação imperial nunca a essência céltica de viver olhando o mundo deixou de existir, tanto que o calendário litúrgico cristão assentou bases, propositadamente, nas festas pagãs e tomou até os festejos do equinócio de inverno (a modra necta = noite mãe) para si chamando-lhe natal...!

 

 

 

 

 

 

 

 

3

 

 

 

chão

que me é alma

evolução

instante pétreo que m’encanta

 

eis-me vórtice d’alma

telúrica emoção

 

Castro Loureiro, Pontevedra (Espanha) – 1973

 

 

 

 

Ainda o Séc. XV era somente um eco de informações marítimas, quando o infante D. Henrique, já grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros de Cristo (nome pomposo que substituía o da Ordem dos Cavaleiros do Templo, e só substituía o nome...), deslocou-se para a ponta algarvia de Sagres e ali, ou dali, quis saber mais e mais acerca do mundo.

 

Do rei D. Afonso Henriques ao rei D. Diniz a Nação portuguesa fortaleceu-se territorial, social e culturalmente. Tornou-se uma Nação de fato e de direito. Mas isso não bastava aos portugueses, como não bastou aos celtas e aos celtiberos. Era preciso continuar a olhar, e a olhar com aquele velho e renovado olhar celta. O que aconteceu com o rei D. João II, um estadista que quis e fez da sua Pátria a alma de um Povo ousado.

 

Lembro-me da visita que fiz, em 1973, ao castro galego situado perto de Pontevedra, em Loureiro, e lá senti-me ‘vórtice d’alma / telúrica emoção’, do mesmo jeito que das vezes que pisei o promontório de Sagres percebi que a minha Pátria era, na verdade, o olhar celta que me fazia estar e ser português em qualquer lugar do mundo!

 

Foi isso – ou esse olhar – que, com certeza, fez o infante D. Henrique ter a percepção global de uma Terra que muitos, e ainda, tinham como um ‘quadrado’ mental e um qualquer ‘deus’ soprando ventos a partir de um dos cantos (daí a antiquíssima expressão ‘os quatro cantos do mundo’).

 

Com o apoio logístico dos Templários, aquele príncipe português cooptou para junto de si os principais marujos e cartógrafos da época – e foi essa ação, creio, que permitiu e permite dizer que em Sagres foi erguida uma escola náutica. Resguardados no Convento de Cristo, em Tomar, os monges templários passaram a fazer parte do investimento marítimo português, por isso

 

 

 

"nas velas

a cruz de cristo

velho espírito

pra novas procelas"

 

(em Sagres, 2000)

 

 

e o estandarte daqueles cavaleiros-caraveleiros foi o pavilhão que iluminou a ousadia portuguesa do ‘peito aberto’ entre as áfricas, as índias e a insulla brazil – e, aqui, mais uma vez aquela telúrica essência céltica que (nos) diz(ia) de uma lendária ilha desde as eras castrejas e que os templários perseguiam há muito tempo; tivesse ou não o seu engajamento à odisséia marítima henriquina a ver com a lenda céltica de uma insulla brazil, o certo é que ali estava o velho-novo olhar celta povoando e dinamizando uma outra era de humanos esforços e que, logo, fariam do quadrado’ Mundo uma aldeia global cheia de periféricos interesses.

 

Desde que do castelo de Guimarães, na região minhota de Portugal, à época de forte cultura minho-galaica, o rei primeiro determinou que na unidade dos vários povos eclodiria Portugal, o além continuou a mexer com os brios e a ousadia do ser céltico que estava/está no sangue e na alma portuguesa!

 

E eram tão dispersos esses povos castrejos que me permito celebrar novamente Antoine Fabre D’Olivet e recordar, aqui, anotações por ele registradas.... os Frísios eram ‘os filhos da liberdade’, os Címbrios eram ‘os tenebrosos’, os Saxões eram ‘os filhos da natureza’, os Francos eram ‘os despedaçadores’, os Alanos eram ‘os iguais em sabedoria’, os Vândalos eram ‘os que se afastam de todos’, os alemães eram ‘os iguais em virilidade’, os Escandinavos eram ‘os que navegam em barcos’, e etc, etc, o que (nos) dá uma rara idéia da diversidade étnica céltica que, apesar disso, espelhou uma unidade pátria também na fenomenologia da adoração solar e tendo a força telúrica do touro como símbolo: imagem e simbologia que ainda hoje está presente em toda a Península Ibérica.

 

Ao chamar a si os mais experientes marujos e a sabedoria dos cientistas de então, o infante D. Henrique sabia das particularidade étnicas que embasa(va)m o ser português e, sabendo-o, quis ter como braço direito uma organização milico-religiosa que tinha em si muitas dessas características – a Ordem do Templo, já então denominada de Cristo.

Nas ruínas dos castros/citânias as graníticas ruas davam passagem, em testemunho perene, à transmigração alquímica que, quase um milênio depois, dava força à expansão de Portugal.

 

Ou, como canta(ria)m Camões e Pessoa, cumpria-se Portugal alimentando-se o ‘peito aberto’ ao além dado...!

 

 

 

 

 

4

 

Em meados dos Anos 90, percorrendo a velha Rota do Piabyu, também séculos antes percorrida por Staden e por Schmidel, conheci melhor a força sócio-militar carijó e a complexidade pátria e telúrica da sua Koty, o que me levou a estabelecer, mesmo que por simples abordagem, paralelos com os afazeres gerais africanos de algumas tribos angolanas, quenianas, moçambicanas e guineenses – e, daí, mergulhar novamente naquele viver castrejo indo-europeu, e concluir que, um dia, a mãe-África paríu a Humanidade que somos!

 

 

 

 

5

 

Nos rudimentares afazeres dos Povos da Floresta amazônica, como nos castrejos europeus, a alma telúrica forçou-os a um olhar multi-dimensional, esse que em Sagres aquele príncipe português lançou além e por aí quis saber do Mundo que outros povos já haviam tocado pelo registro de velhas cartas de marear. De certa maneira, o príncipe refez rotas velhas para levar Portugal e o templário desejo aos mares antes navegados, da mesma maneira que os carijós refizeram a sua história sertaneja ao mostrarem a imensidão continental da insulla brazil àqueles europeus em caravelas embarcados.

 

 

olho-me

além de mim

ai de mim

e percorro-me

olho-me

como mundo enfim

 

no Paraguay, 1995

 

 

Ao pisar novamente, em 2000, os velhos pavimentos do Convento de Cristo, em Tomar, depois de passar por Sagres, pelo Castro de Briteiros e pelo Castelo de Guimarães, lembrei-me da velha rota carijó que unia a Serra do Mar, em São Paulo, ao Paraguay, pelo sertam... É que entre os monges templários e a odisséia henriquina esteve o mesmo olhar celta que serviu de elixir a D. Afonso Henriques e que, na saga caraveleira, uniu os povos que as velhas lendas revelavam em cartas mais velhas ainda.

 

Há um traço alquímico que une todos os povos, algo tão festejado por esse olhar celta que os seus descendentes (ainda) possuem e fazem viver de transmigração em transmigração pela unidade no diverso existir!

 

 

 

* João Barcellos

consultor cultural, escritor